“Essas minas tão destruindo!”, disse pra mim Carlos Neto pouco após o FIQ, Festival Internacional de Quadrinhos, realizado em maio e junho últimos. A conversa girava em torno de alguns lançamentos do evento. Chegamos ao consenso de que os principais trabalhos inéditos mostrados lá em Belo Horizonte eram feitos por mulheres – e, pra mim, o melhor era mesmo criação de uma delas: Queda, da Lalo, que me deixa zonzo só de relembrá-lo, pois uma das coisas mais assombrosamente esquisitas lidas em muito tempo.

Aí, você começa a puxar pela memória e vê que isso não é acaso. Gabi Lovelove6 lançou um dos zines mais pungentes de 2017, As Pessoas São Frágeis e Ignorantes. Várias jovens estrearam no mercado nos últimos meses com experimentos maduros, como Verônica Berta e seu Ânsia Eterna. O número de coletivos femininos aumenta a cada feira (embora não exista um número concreto sobre isso, e tampouco seria simples levantá-lo, é uma afirmação bem realista, basta atenção ao que ocorre em mostras do setor).

Conclusão: tem uma geração de garotas, quase todas com menos de trinta anos, pronta para conduzir a produção independente nacional por muito tempo. Não que não exista homem nessa faixa etária com material autoral de qualidade. A questão vai além. Em geral, elas são mais corajosas nos argumentos, mais arrojadas na linguagem, mais desinibidas para falar sobre o que der na telha, mais propensas a explorar novos padrões narrativos.

A Des.Gráfica 2018 aconteceu no último fim de semana e me deixou bem feliz. Ano passado, tinha bastante menina expondo, mas pouco público interessado no que mostravam. Dava pra contar nos dedos os leitores masculinos que paravam em mesas femininas – com exceção daqueles que já conheciam as autoras ou seus trabalhos. Desta vez, acredito que a situação tenha mudado, ainda que não totalmente. É visível que homens estejam mais propensos a folhear, comprar e ler gibi não produzido por homens.

A própria Convocatória Des.Gráfica, espécie de edital que seleciona HQs para serem impressas com o selo da feira, indica a tendência de protagonismo delas. Entre os cinco vencedores de 2017, estavam três mulheres. Este ano, quatro. E não tem nada de boa vontade: a curadoria é feita por gente graúda (Rafael Coutinho, juntamente com a editora Antílope), que jamais publicaria material ruim.

E é na leitura que todo esse discurso se valida. Lendo, fica fácil admirar o quadrinho de combate contra os padrões comportamentais da sociedade feito por Lovelove6, o mergulho no inconsciente metafísico de Bárbara Malagoli, as memórias labirínticas de Paula Puiupo e o minimalismo sentimental de Julia Balthazar, Mariana Paraizo e Taís Koshino – todas as seis criadoras da antologia Topografias (por acaso, cadê o volume 2, hein?).

Flávia Brioschi, a Flavushh, é a nova integrante dessa turma. Em 2017, viveu uma história maluca: esteve entre os escolhidos para o selo da Des.Gráfica, mas era menor de idade, teve de ficar de fora. Este ano, mudou-se o regulamento somente para ela ser contemplada. Sorte a nossa. Sua Voz, obra lançada pela coleção, mescla presente e futuro: possui a inocência da adolescente que ainda é e a ousadia da grande artista que em breve será.

Quem quer engajamento pode procurar Raquel Vitorelo, que utiliza diferentes formas de desenho pra narrar temas pessoais (embora universais). Quem quer sensibilidade artística pode procurar Aline Zouvi, que mistura referências de escolas de pintura, como surrealismo e impressionismo, para falar de representatividade de minorias. Quem quer enredos que caminham por estradas imprevisíveis pode procurar Jéssica Groke, que aplica às páginas sua dieta de David Lynch, Talking Heads e David Byrne. Quem quer relatos fragmentados, que simulam fluxo de consciência, pode procurar Amanda Paschoal. Quem quer dar um nó na própria mente pode procurar Lalo.

A tomada de posição identitária em relação ao negro por Marília Marz, autora que conheço tão pouco mas já admiro tanto, vale ser citada. O modo de explorar a sexualidade segundo Annima de Mattos, marcada por técnicas distintas, indo do nanquim à aquarela, também vale ser citada. A jornada em busca de igualdade social e de gênero de Laura Athayde é outra produção que vale ser citada.

Tem ainda o experimentalismo de BertaCinthia Saty Fujii, que se adapta a cada projeto criado em conjunto; tem o lirismo literário de Sofia Nestrovski em parceria com o relato miúdo do cotidiano de Deborah Salles; tem a narrativa enxuta de Grazi Fonseca; o mix de linguagens de Júlia Tietbo; tem a simplicidade detalhista, à la Taiyo Matsumoto, de Ing Lee; tem o resgate do folclore nacional de Mayara Lista.

E, com certeza, tem gente pra caramba que poderia (e deveria) estar aqui. Aliás, todas podem (e devem) aparecer em qualquer recorte/estudo/documentário a respeito da produção nacional atual – do contrário, tais obras já nascem obsoletas. Quem não acompanhar essas mulheres vai perder o bonde da história. Como diz a camiseta da moda: the future is female. E isso vale principalmente para os quadrinhos brasileiros.

 

 

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