Na Ugra Fest, realizada no começo do mês em São Paulo, o número de minas de várias idades fazendo quadrinhos era algo espantoso – quem ainda acha que não existe mulher nesse meio ficou pra trás faz tempo. E uma das publicações a melhor mostrar um recorte da diversidade desse trabalho feminino em nosso País é Topografias.

Lançada no ano passado pelo selo Piqui, a coletânea traz seis histórias curtas, criadas por jovens artistas com as mais variadas técnicas de desenho. Se, visualmente, são HQs bastante divergentes entre si, todas utilizam um modo bastante livre e experimental para narrar. Além de uma paleta de cores bastante homogênea (com rosas, roxos e azuis), os temas também as unem: em geral, refletem o lugar da mulher no mundo, comentando questões relevantes ao feminismo, maternidade, sentimentos, sexo.

Como não existe uma única forma de entender essas HQs, tentei analisar os significados escondidos nelas. Posso até estar errado sobre alguns, mas a brincadeira é essa!

topografias

Capa de Topografias, com histórias de Julia Balthazar, Bárbara Malagoli, Taís Koshino, Puiupo, Mariana Paraizo e Lovelove6

 

Chuva de Verão, de Julia Balthazar

chuva de verão_julia balthazar

Tem um pouco do gênero “coming of age“, que mostra personagens em plena transição da juventude para a vida adulta, em Chuva de Verão. Duas amigas entediadas passam uma tarde preguiçosa na piscina da casa de uma delas. Ali, encontram um refúgio do mundo ao seu redor, transportando-se (fisicamente e metaforicamente) para um local com cores mais intensas do que o “mundo real”. É só comparar: a página inicial, com as duas ainda fora da água, é muito mais fria, pois pintada com giz de cera, ao contrário das pinceladas fortes com tinta (guache?) do restante.

A fuga das garotas representa aquele velho desejo adolescente de se refugiar num paraíso pessoal, longe de tudo e todos. Ir pra lá, aproveitar algum tempo de tranquilidade e já voltar para a confusão de amores, família, escola etc. Julia Balthazar fez algo simples, mas que ressoa forte no leitor.

Frumello, de Bárbara Malagoli

frumello_barbara malagoli

A arte digital de Bárbara Malagoli complementa o aspecto metafísico de sua HQ. Formada inteira por splash pages, a obra não possui começo, meio ou fim: cada página se aproxima mais de um comentário sobre aspectos universais da condição humana (o preço da verdade, o valor da memória, a falta de significado da vida).

Toda essa estrutura se encaminha para a última ilustração – uma figura feminina gigantesca, com planetas orbitando ao seu redor-, momento no qual as coisas se encaixam. O que vemos é a mulher em sua posição cósmica, sensorial, capaz de “destruir um universo com um pensamento só”, como diz o balão dessa página final. Algo bem próximo do conceito do sagrado feminino – a conexão da mulher com suas ancestralidades, como se fosse uma criatura sagrada, mística.

Teneusca, de Taís Koshino

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A trama mais complexa da coletânea (não que as demais não sejam complexas do ponto de vista narrativo, veja bem…). Taís vai para o lado do hard sci-fi, cheio de conceitos científicos e teorias futuristas – incluindo cápsulas de teleporte, o desenvolvimento de órgãos que permitem a telepatia em humanos, um “museu da memória” holográfico.

Ccrianças de uma humanidade muito à frente no futuro se preparam para um passeio escolar, onde vão conhecer detalhes do modo de vida dos antepassados. Uma delas se perde dos colegas em meio aos corredores do museu e acaba aprendendo muito mais que o passado de sua raça. A grande questão apresentada pela autora é: qual o limite dos sacrifícios encarados por uma mulher para manter sua identidade? O final abrupto faz querer ler tudo de novo – quem sabe para tentar encontrar alguma dica sobre a resposta.

Flagelo, de Puiupo

flagelo_puiupo

A fêmea que devora o macho após a cópula para garantir a sobrevivência da espécie. Puiupo também usa a ficção científica para criar uma analogia entre certos animais (no caso, o louva-a-deus) e a nossa espécie num futuro distante. Para se reproduzir, os “neo-humanos” precisam apelar a esse ato mórbido. Mas, com um detalhe: o feto só vive se comer a própria mãe.

O comentário a respeito da forma como a sociedade encara a maternidade – um fardo que somente a mulher pode (e deve) carregar – não é tão original, porém se faz necessário, principalmente quando a cobrança que sempre recai sobre uma mãe é, muitas vezes, cruel. A estrutura da HQ ajuda a sair da mesmice: a partir do momento em que a protagonista precisa escolher entre sua vida e a do bebê, as páginas ganham um grid com 28 quadros, fragmentando a narrativa para demonstrar o estado psicológico da personagem.

Sátira Latina, de Mariana Paraizo

sátira latina_mariana paraizo

Talvez o mais impenetrável quadrinho de Topografias. Feito inteiramente com colagens de textos e imagens de jornais, fala sobre o crime ambiental de Mariana (MG), ocorrido em 2015, enquanto passeia pela esquizofrenia do noticiário e do mundo.

Mariana Paraizo cria cenários surreais, sempre em torno de três temas principais: a água, a mulher e a noção de desastre. Tive certa dificuldade para “entrar” na obra, mas a autora ajuda a compreender suas intenções nesta entrevista para o Vitralizado. Ela comenta: “Na primeira página eu já sabia o que eu queria, que era o homem que foi empurrado pelo companheiro do navio, e que ele entraria nesse mundo subaquático fantástico, com figura feminina central, com a qual ele se identificaria. Mas não como se fosse uma narrativa fechada, tentei criar relações sequenciais em potência mais do que em descrição”.

Árvores, de Lovelove6

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As texturas pesadas do grafite dão uma sensação onírica a Árvores – e isso faz todo o sentido, já que o início mostra alguém (seria a própria autora?) descrevendo um sonho. Nele, estão presentes as icamiabas, índias guerreiras brasileiras que viviam sem a presença masculina em seu meio – de forma bastante semelhante às amazonas da mitologia grega.

Lovelove6, então, analisa a relação entre amor e ciúme num ambiente totalmente feminino, onde o homem pode ser visto como um intruso indesejado. A mensagem é clara: ele não é necessário para a construção de relações sociais sólidas.

 

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