No quadrinho brasileiro, parcerias de fôlego entre roteirista e artista não são a regra. Geralmente, o criador nacional é um lobo solitário que faz tudo. No entanto, surgiu recentemente uma colaboração única, com capacidade de criar, por bastante tempo, obras instigantes e fora do comum.

A mestre em Teoria Literária, escritora e contista Sofia Nestrovski escreve. Ela começou a fazer quadrinhos há pouco tempo, mas seus textos podem ser encontrados em veículos como Nexo, Cult e Quatro Cinco Um. A designer, ilustradora e quadrinista Deborah Salles desenha. Ela não é novata na cena: já fez Quase um Ano, um dos destaques independentes de 2017, que conta momentos intimistas de sua vida, e Quartabê – Lição #2: Dorival, uma espécie de gibi-making of do disco homônimo da banda paulista Quartabê.

Juntas, lançaram ano passado Minha Casa Está um Caos, HQ vencedora do edital da feira Des.Gráfica, e acabam de publicar Viagem em Volta de uma Ervilha, pela Veneta, em produção desde 2017. É difícil encaixar esses livros num gênero específico. Talvez, estejam mais perto de um conceito, como o de “quadrinho-ensaio” (sobre o qual escrevi em 2016). Sem uma história propriamente dita, com começo, meio e fim, esse tipo de obra trata de temas mais pelo que está ao redor desse tema do que abordando-o diretamente.

Viagem em Volta de uma Ervilha, nesse sentido, joga com as ideias, opiniões, visões de mundo e inquietações de Nestrovski – a protagonista, cuja vida é explorada pelo roteiro. Salles também é retratada nesse poema visual/conto ilustrado/fluxo de pensamento a respeito de assuntos aleatórios como vinho kosher, lições de costura com as irmãs Brontë, metafísica, kung fu e Harry Potter. É como se a HQ fosse feita a partir do ponto de vista inquieto da gatinha Ervilha, bichinho que dá nome ao trabalho.

Entrevistei as autoras para entender melhor esse quadrinho lírico, experimental e desconcertante. Elas explicam como é o processo de criar em parceria com uma amiga, comentam os perigos dos gibis autobiográficos e analisam as dificuldades de transformar texto em imagem.

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Capa de Viagem em Volta de uma Ervilha, publicação da editora Veneta

 


 

Sofia e Deborah, a HQ nova de vocês quase não tem uma sinopse – e o resumo que aparece na quarta capa do livro é perfeito, pois caótico como os vários assuntos abordados. Mas eu queria saber se vocês conseguem apontar o tema principal dele…

Sofia: Como escolher a palavra de efeito? (risos)

Deborah: Vamos buscar na ficha catalográfica, que é muito engraçada, algo tipo “história de vida, gatos” (risos). Eu acho que é amizade, não sei se dizer isso é forçar a barra. Mas é num sentido amplo de amizade. Amizade com os livros, com os gatos, com o mundo.

E essa amizade entre vocês é bastante curiosa, já que se conhecem há pouco tempo, desde 2017, e mesmo assim ultrapassam os limites do mero “ser amigo” para entrar na parceria artística, na comunhão de ideias bem próximas a respeito de arte. É possível explicar isso?

Sofia: A gente também não sabe explicar… O lance é esse: como que você explica um encontro acontecendo? Foi um desejo consciente de nós duas nos afinar, conversando muito durante todo o processo, e isso vai criando uma língua em comum. E assim fica mais fácil criar.

Essa aproximação se deu por você, né, Deborah? Você leu um material da Sofia e quis trabalhar com ela. Não era pra ter sido algo mais frio?

Deborah: Eu acho que, em tese, eu queria mesmo era criar junto com alguém, sair do meu jeito de trabalhar, e também criar coisas autorais, seguir esse caminho. Mas a ideia também era ser amigo. Eu não tinha interesse em fazer algo com uma pessoa com quem eu tivesse um relacionamento burocrático.

Sofia: Nenhuma estava interessada em prestar um serviço, pois a gente não sabia qual seria esse serviço. Não tinha nada em mente quando começou, a não ser essa coisa de “vamos criar juntas”. Nunca nem tinha passado pela minha cabeça isso de fazer quadrinhos, simplesmente porque nunca ninguém tinha apresentado isso pra mim.

Você lia quadrinhos antes de começar a fazê-los?

Sofia: Não.

Deborah: Nem eu! (risos)

Sofia: Somos duas posers (risos). Mas um pouco foi isso, descobrir algo juntas, e essa busca vai criando intimidade.

Deborah: Essa coisa de a gente não ler quadrinhos eu falo porque não fui uma pessoa que cresceu com isso. Li na adolescência e voltei só aos 24 anos – mas não pelo quadrinho, e sim pelo fato de que era um jeito de eu continuar desenhando de uma nova forma. Com a Sofia, é o mesmo movimento.

Sofia: Sim, é um jeito de escrever de uma forma nova.

Mas hoje vocês têm mais contato com HQs?

Deborah: Sim, olhamos muita coisa.

Sofia: Não fazemos nada sem pesquisa. A gente é bem nerd, tenta entender como funciona essa linguagem e também como expandi-la. Então, é ler, assistir muita animação, olhar livro infantil, filme…

Deborah: Tentar pegar referências de outras áreas para o tom que queríamos.

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Deborah, você falou que não queria mais trabalhar sozinha. E a Sofia também tem uma atividade bem solitária, talvez a mais individual possível na arte, que é escrever. Como foi para as duas a experiência de dividir o processo criativo?

Sofia: Me veio algo distante agora… Tem muita coisa que a gente lê na adolescência, tipo Harry Potter, histórias que fazem sucesso com o público infanto-juvenil, que tem um personagem que gosta de ler. É fácil se identificar com eles, pois em geral são figuras muito solitárias. E acho que todo mundo que aprecia livros ou artes – não sei se estou generalizando demais – se sente solitário. Tem uma identificação de solidões muito forte, e eu e a Deborah nos encontramos a partir daí também. Não falo de uma solidão dramática, mas sim de um estado de espírito. Poder compartilhar isso com alguém é muito forte.

Deborah: Acho que tem um alívio de você não precisar dar conta de tudo no trabalho. É sempre uma surpresa quando o texto chegava pra mim, os momentos mais incríveis. “Tenho um texto aqui, quer ver?” – sim, quero! Pois preciso pensar em um milhão de outras coisas que eu talvez não teria a capacidade de pensar sozinha. Isso independe da ordem: a Sofia também tem coisas que surgem por não precisar refletir sobre o desenho.

Sofia: Outra coisa é que nunca fixamos um método, não virou uma coisa que a gente soubesse fazer de antemão. Não tinha um processo fixo, e acho que isso é um pouco de propósito, de toda vez ter de pensar novamente em como fazer.

E os estilos de vocês, a princípio, são bem contrastantes: a Sofia escreve de forma lírica e poética, enquanto a Deborah desenha histórias miúdas, sobre rotina. Como essas coisas antagônicas acabaram se encaixando?

Deborah: Eu já pensei bastante sobre isso… Entre o Quase um Ano e hoje, fiz muitas coisas que não foram pro mundo. Uma delas é meu TCC, um projeto muito complexo, super complicado graficamente – e era isso que eu tava fazendo quando começamos a trabalhar juntas. Já era uma quebra enorme em relação ao tom do Quase um Ano, algo muito mais de silêncios, de vazios na página. Depois, teve a Quartabê, que eu fiz por encomenda, com outro lance, de começar no documental, quase jornalístico, e partir pra total fantasia. Então, esses dois trabalhos já estavam contaminados pelo nosso livro.

O Minha Casa Está um Caos foi um texto já pronto que você pegou e ilustrou. A Sofia teve alguma participação nisso? Pois o Viagem em Volta de uma Ervilha já é um processo diferente, não?

Deborah: Foi meio parecido, eu mostrando o que estava pensando pra ilustração e ela vendo se encaixava. A gente fez o Minha Casa inteiro em quatro dias. Então, foi uma coisa de as duas terem de resolver na hora, nem tinha tempo.

Sofia, pro Viagem, você mandava capítulos inteiros pra Deborah? Ou trechos curtos?

Sofia: Rolou de tudo.

Deborah: Eu vi muito texto acontecendo, rascunhos…

Sofia: O texto do meio, que é maior, foi pensado já pro desenho. Fui escrevendo ao mesmo tempo o que aparece como recordatório e o roteiro guiando a imagem. Foi muito divertido, eu não tinha feito isso antes.

Deborah: Pelo fato de a Sofia não escrever para quadrinhos, ela me propunha umas ideias de desenho que eu ficava “não sei como fazer!” (risos). Foi um processo de tentar coisas que a princípio eu não pensaria, pois tenho ideias a partir do que eu sei. Quando chega algo diferente, preciso aprender a fazer. Isso é muito bom.

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E como foi o processo de criar visualmente em cima de um texto bastante marcado pela palavra, pelo idioma em si?

Deborah: Às vezes, o texto já contava com umas imagens, umas cenas muito boas, mas eu não queria ilustrar isso. Tem uma parte que a página inteira tem a Sofia de costas e uns balões de kung fu, tai chi chuan, em cima. A imagem disso era um “pântano em chamas”. Só que não tinha o porquê de eu desenhar isso, iria enfraquecer o texto. Então, primeiro eu via as coisas que não queria ilustrar. A partir disso, pensava o que poderia acontecer de ação e também fazer com que a arte não fosse exatamente aquilo que o texto estava descrevendo. O que eu tentava era criar uma sequência que se encontrasse com o texto, se afastasse, se encontrasse de novo…

Sofia: É um jogo de pega-pega, né…

Deborah: Total. E a Sofia propunha várias coisas. Foram esses três jeitos de lidar com o texto. Eu acho muito bom que não seja um roteiro para quadrinhos. Algo que não seja dividido em páginas, balões.

Sofia: Mas teve momentos que foi algo mais formatado. Cada parte foi um caso. Teve até coisas que a gente tentou de mais de um jeito.

Sofia, os dois gibis de vocês são materiais bem pessoais, que falam sobre sua vida, e inclusive te têm como personagem. Você refletiu sobre estar exposta dessa forma?

Sofia: Tem dois jeitos de eu responder essa pergunta. O primeiro é dizer que eu não tinha pensado a respeito. Quando a gente começou a fazer, foi só juntando coisas, partindo de materiais que eu já estava escrevendo na época. Não pensava que viraria um livro, que a Veneta iria nos procurar. E no momento em que entendemos que ia sair, foi “puta que o pariu!”. Me deu um pânico, pois não queria botar minha cara nas coisas, mas o livro já estava pronto. Depois, achei tudo bem… A Deborah aparece também, e é a minha gata que está se expondo mais, coitada (risos).

O segundo jeito de responder é dizer que, sim, pensei muito sobre isso. Estava fazendo meu mestrado simultaneamente ao livro, e estudava um poema bem longo, provavelmente o primeiro poema autobiográfico. Então, eu estava com isso bem forte, e uma das coisas que aprendi é que autobiográfico pode não ser confessional. Não tem nada naquele poema que seja uma exposição dos pecados do autor. Ele está falando sobre si mesmo para comentar coisas que dizem respeito ao mundo. E eu estava tentando fazer algo que se aproximasse disso. Não estou contando a minha vida, estou criando a minha vida. O livro não é uma narração, é o que minha vida é, assim como a da Deborah também. Esse é um jeito de a gente se colocar no mundo, porque é difícil fazer parte do mundo (risos). Esse livro representa um modo nosso de estar no mundo.

Deborah: Não é que a gente se retira e vê de fora, algo como “vamos contar o que aconteceu”. A gente está acontecendo enquanto produz. Isso faz o livro, e também está na forma dele. Difícil explicar…

Ainda sobre essa questão: quadrinhos autobiográficos são um gênero muito popular, seja em grandes publicações ou em zines independentes. Eu só não tenho certeza se todos justificam essa temática. Muitas vidas oferecem nada ou quase nada de fatos relevantes para virarem arte. Qualquer vida vale ser contada por uma obra?

Deborah: Tem uma coisa no quadrinho autobiográfico: é muito sedutor falar sobre sua vida, muito tentador transformar o que você faz num retrato. E mesmo quando é de um jeito autodepreciativo, pra falar dos defeitos, porque parece verdadeiro escrever a respeito de coisas que você acha impensáveis para si mesmo, isso não deixa de ser uma sedução também. Mas, sei lá, acho que é algo que se esgota. É difícil fazer isso bem. E foi um esforço nosso ir por outro caminho.

Eu digo essas coisas porque por muito tempo fiz quadrinho assim, achando que estava sendo muito verdadeira sobre minha vida. E ainda tem a questão de ficar apaixonado pela própria vida. Acho que isso é um risco, fica enjoativo de fazer. Quando a gente começou o livro, e falando do mestrado da Sofia, fui entendendo outras possibilidades de narração.

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E narração é algo com o qual vocês brincam bastante. Acho que o Viagem se encaixa perfeitamente no conceito de “quadrinho-ensaio”. Como surge uma obra assim?

Sofia: O Viagem é bem um ensaio mesmo, nessa ideia de estar ensaiando, numa tentativa de algo que não está pronto. Sobre nossa abordagem, não chamaria de reflexiva, mas de contemplativa, porque é uma coisa não de ficar pensando sobre algo, mas de tentar olhar, se colocar num estado onde você diminui a frequência de seus pensamentos, sentimentos, todo tipo de estímulo que fica surgindo o tempo todo dentro de você, e tentar ver o que está à sua disposição no mundo.

A gente falou muito sobre isso, de que o livro tem muito de olhar o mundo, olhar minha casa, minha gata. Por olhar tanto, você aprende a gostar das coisas, porque nota que sempre existe mais do que você percebeu à primeira vista. Esse é um jeito bom de não se apaixonar pela própria vida, do jeito que a Deborah comentou antes, e poder se apaixonar pelo mundo. E não sei se faltam obras assim. Quando surge algo bom, aquilo preenche um vazio que você nem sabia que existia.

Deborah, seu desenho evoluiu bastante de 2017 pra cá, mas sempre dentro de um mesmo estilo. Vejo muito do Adrian Tomine em você, na capacidade de conseguir revelar os personagens pelas expressões faciais deles. Queria saber se esse desenho é seu mesmo ou se você tenta buscar uma estética com ele. Em outras palavras: você sempre desenhou assim ou passou a desenhar assim por querer alcançar algo?

Deborah: Eu tenho muita dificuldade de entender meu traço. Pra mim, não existe como uma coisa definida. O que posso dizer de esforço consciente é não me fixar num estilo, poder trabalhar minha habilidade para servir ao que estou produzindo no momento – se eu precisar que seja mais naturalista, que eu consiga. O que eu faço pra isso acontecer é desenhar muito, bastante. E nesses últimos anos, isso foi entrando cada vez mais na minha profissão como ilustradora. Você vai ganhando mais firmeza na mão, bem um exercício físico mesmo.

Mas eu realmente não gostaria de ter um estilo, no sentido de “isso com certeza é dessa pessoa”. Prefiro que essa unidade fique num campo mais sutil. Pra falar de inspirações, Tomine é uma puta referência pra mim. Tem o Winsor McCay também, cada dupla de páginas dele eu quero chorar (risos). A gente tava olhando pra coisas fora dos quadrinhos também, tipo pintura. Nosso livro tem muita referência do William Morris. Aquelas aberturas de capítulos partiram totalmente de um padrão dele.

Sofia: E também A Famosa Invasão dos Ursos na Sicília, do Dino Buzzati. Esse é tão lindo! Ele tem esse quê meio infantil, de livro ilustrado, que é tudo o que a gente queria fazer na vida.

Pra terminar, a pergunta que não quer calar: essa parceria vai seguir por muito tempo?

Deborah: O que você acha, amiga? (risos)

Sofia: Já estamos trabalhando numa coisa nova, em quadrinho. A gente fica tendo muita ideia juntas, tem tipo uns oito projetos pendurados. Mas, sim, com certeza.

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