Pequena na altura, gigante no talento. Aos 24 anos, a quadrinista, ilustradora, designer, animadora e mestranda em Comunicação e Semiótica Raquel Vitorelo tem uma das produções mais singulares das HQs nacionais, sempre experimentando soluções que fogem do óbvio, seja na narrativa ou no aspecto físico de seus trabalhos.

Durante o FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos 2018, que rolou no fim de maio em Belo Horizonte, Raquel lançou TILT, obra única até para seus padrões. Livre das amarras de uma história pra servir como fio condutor, o quadrinho segue mais o formato de um ensaio, quase um fluxo de consciência a respeito das dores (literais e metafóricas) da existência. É um mergulho nas memórias sobre as disfunções do próprio corpo da artista (principalmente uma enxaqueca crônica), cheio de lirismo e poesia, cada página feita com uma técnica diferente – lápis de cor, colagem, guache, esferográfica, imagens de exames neurológicos.

Conversei com ela por e-mail sobre esse que foi fácil um dos melhores lançamentos do evento mineiro. Além de explicar seu processo de criação, Raquel comenta um assunto que precisa ser debatido a sério, agora: o pouco reconhecimento da produção feminina nacional, que cria quadrinhos magistrais lidos por quase ninguém. O que elas, e principalmente os homens, precisam fazer pra reverter essa situação vexatória, na qual as mulheres são desprezadas enquanto artistas?

 

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Capa de TILT

 

Raquel, TILT é mais uma obra sua bastante autobiográfica, assim como Tomboy, Página Solo e Crônica (parte da Série Postal). De onde vem essa vontade de falar sobre si mesma?

Acho que é uma mistura do meu egocentrismo (risos) com esse “conforto desconfortável” de explorar o que você já conhece, mas também de se expor e tentar não ter tanto medo de passar vergonha. Ainda mais quando falo de coisas muito particulares da minha experiência humana/fisiológica.

Sei lá… Eu sempre fui uma pessoa introvertida e tive uma autoestima bosta na adolescência, me sentia muito solitária. Mas conforme eu me politizava, pude enxergar que muito do que eu considerava errado em mim estava na verdade atribuído a expectativas exteriores. Nesse sentido, acho que as narrativas são ferramentas poderosas, seja para explicar sintoma ou poesia. Tento ser o mais sincera possível, na esperança de alguém se identificar e se sentir menos sozinho, e também porque acho que botar essas vivências no mundo são uma forma de politização.

Outra característica de seu trabalho que se repete em TILT é o uso de técnicas variadas de desenho. Quando você percebeu a viabilidade de contar histórias sem seguir um único padrão, usando várias ferramentas narrativas ao mesmo tempo?

Me intriga muito pensar em técnica, suporte e linguagem. Eu gosto de desenvolver uma identidade visual para cada trabalho e experimentar processos criativos diferentes, porém também me preocupo cada vez mais com a viabilidade desses processos.

Acho que passei a me preocupar mais com isso depois de trabalhar na webcomic Judite, que nunca terminei. Eu tinha inventado um processo absurdo de selecionar passagens do Livro de Judite, da Bíblia, e literalmente recortar trechos pra remontar a história visualmente. Se na época eu pudesse ter me dedicado mais ao projeto, teria ido até o final. Mas precisei dar muitas pausas por causa da faculdade, e se tornou muito desgastante passar por todo esse processo de seleção, recorte e composição toda vez que ia desenhar uma página.

Foi um aprendizado, porque percebi que, apesar dessas linguagens estarem à nossa disposição, o autor tem esse “inconveniente fatal” do qual a Virginia Woolf falava, principalmente autoras mulheres (e que evidentemente poderia se aplicar aos autores periféricos, LGBT+ etc.). Na prática, pra mim isso quer dizer que é preciso ser mais pé no chão – o que não significa que a gente deva se segurar nas experimentações, mas, sim, levar em conta a importância do planejamento de produção.

E como esse estilo misto se encaixou em sua visão artística na criação de TILT?

Eu comecei a conceber o quadrinho em 2016 e a desenhá-lo no decorrer de 2017. Uma das questões de trabalhar no TILT é que trata de uma história ainda em desenvolvimento, de uma experiência que era de um jeito em 2016, de outro em 2017 e de outro em 2018.

Essa mutabilidade também foi se traduzindo na minha relação com a estética e linguagem dessa obra. A princípio, a ideia era sempre trabalhar com um grid de nove quadros “à la Watchmen” porque queria me desafiar e ver como eu lidaria com essa limitação. Mas me vi questionando até onde isso era realmente benéfico pra narrativa.

TILT não é completamente linear, é uma mistura de memórias, relações, pensamentos – é um pedaço do meu cérebro. Fez muito sentido inventar algo diferente a cada página, porque, além de simbólico em relação a essa trajetória percorrida, é visual e narrativamente intrigante.

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A produção do quadrinho foi tranquila? Pois levou bastante tempo pra ficar pronto…

TILT é o meu maior quadrinho em quantidade de páginas até então e foi feito meio aos trancos justamente por eu nem sempre estar em condições físicas pra trabalhar nele. A verdade é que todos nós estamos o tempo todo exaustos, o padrão é esse. Aí, me dei conta de que eu precisava arranjar formas de terminar esse projeto apesar do cansaço, da dor etc., senão não sairia nunca.

Eu poderia dizer que segui um cronograma, que tinha disciplina, que foi tudo lindo, mas aparentemente não dá pra agendar crises de enxaqueca (risos). Eu já tinha um boneco com thumbnails de todas as páginas e com a história que queria contar, e resolvi que nada nesse mundo ia me impedir de desenhar a HQ. Ia rolar, não importava como. Em parte, minha solução foi ligar o foda-se e priorizar o prazer que eu tinha com um processo que me parecesse interessante de verdade.

Quais artistas te inspiram a fazer esse tipo de trabalho misto?

Tem a Philippa Rice, mais conhecida pelo Soppy, que tem um trabalho muito interessante chamado My Cardboard Life, com diversas brincadeiras com a questão da narrativa e do material usado. Recentemente, me apaixonei pelo My Favorite Thing Is Monsters, da Emil Ferris, cuja história é narrada por meio dos desenhos da própria protagonista do livro.

Outro trabalho importante pra mim foi a antologia Topografias, do Selo Piqui. Cada artista desenvolveu uma linguagem muito particular usando técnicas diferentes. Achei interessante ver na obra como um todo essa espécie de unidade (aparentemente) desconexa, mas que no final funciona.

Você experimenta também utilizando diferentes formatos, tipos de papel etc. No TILT, escolheu um papel brilhante com gramatura alta, excelente pra reproduzir as cores utilizadas. Perigeu tem papel vegetal, e assim por diante. Qual a importância da questão física de uma HQ para você?

A experiência de manusear o papel e interagir com ele faz parte da leitura do quadrinho impresso, por isso acho indispensável pensar nisso. Não sei se é por causa da minha profissão (sou também designer) ou por ter estudado essas questões do suporte, mas para cada projeto eu faço bonecos, testes em papéis diferentes etc. TILT é minha primeira obra impressa em gráfica – e mesmo assim fiz pelo menos três bonecos e testes de impressão em casa.

No caso do Perigeu, que faço na minha impressora, a primeira edição era impressa em papel manteiga. Troquei para o vegetal, com gramatura maior, depois de perceber que as pessoas tinham receio de manusear o quadrinho pela fragilidade.

Ainda que muitas vezes seja inconsciente, o leitor valoriza muito essa interação física, pois, além de visual, é tátil. E claro, existe toda a questão de como o suporte pode exercer função dramática – acho que no Perigeu mesmo isso fica mais evidente.

Mais artistas deveriam dedicar maior atenção a esse quesito físico?

Eu não diria que eles deveriam se dedicar, já que cada um tem sua forma de trabalhar, mas acho que pensar esses aspectos não só valoriza a publicação como pode trazer algo novo para a narrativa também. É algo a se considerar, porque passa despercebido principalmente para quem não tem experiência com produção gráfica.

Acho que a primeira pessoa que me abriu os olhos para isso foi o ilustrador Odilon Moraes, com quem fiz um curso sobre livro ilustrado. Ele havia levado para o curso diferentes livros de sua coleção, com todo tipo de experimentação: furos no meio das páginas, formato alongado etc.

Nem todos devem ser um Chris Ware, porém acho que raramente esse tipo de abordagem ocorre ao quadrinista em detrimento de uma abordagem mais cinematográfica – ou de uma narrativa clássica e aristotélica.

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TILT foi lançado durante o FIQ. Qual o principal aprendizado de participar de um evento desse porte?

Participei da Feira Plana de 2017, mas estava em uma mesa conjunta organizada por algumas quadrinistas do Zine XXX. De lá pra cá, tomei coragem pra me inscrever sozinha e me preparei melhor, participando da Ugra Fest, Des.gráfica e alguns outros eventos. Mas com certeza o FIQ foi diferente de tudo na minha vida.

Fiquei muito exausta e muitíssimo feliz! É uma experiência cheia de criatividade, voltei pra casa me coçando pra fazer mil quadrinhos e com muitas amizades novas. Sem dúvidas é isso que o FIQ tem de mais valioso: as pessoas.

Concordo em tudo com sua visão. E gostaria de abordar um assunto tratado lá no FIQ. No último dia do evento, várias artistas se reuniram para uma rápida troca de ideias sobre o papel das mulheres, principalmente das mais jovens, no mercado nacional. Uma das constatações foi o pouco reconhecimento da produção feminina – fato confirmado pela virtual ausência das quadrinistas em um documentário recém-lançado sobre a cena das HQs independentes no Brasil.
Só que existe o outro lado. Dos materiais lançados no FIQ que pude conferir até agora, os mais instigantes, experimentais e provocadores foram feitos por mulheres. Vivemos então num paradoxo: em geral, mulheres são pouco lidas, mas várias delas criam obras essenciais para qualquer pessoa interessada em quadrinho. Como lidar com essa situação complexa?

Acho que ninguém sabe ao certo como lidar, contudo existem coisas que todos nós podemos fazer pra tentar mudar. Lembro que nessa roda de conversa no FIQ, duas pautas me marcaram bastante: primeiro, a importância de envolver os homens nessas questões, que não são particulares às mulheres. Segundo, e isso foi um relato trazido por uma das expositoras, é a forma com que alguns homens simplesmente se recusavam a conferir certas mesas ao notar que o autor era mulher.

É preciso que o público masculino reconheça o problema de discriminação de gênero e se envolva com ele. Nesse sentido, acho que é possível promover mudanças, desde atitudes individuais, como ler e indicar mais autoras e não-binárias para amigos, até atitudes coletivas, ao garantir a participação delas em eventos.

Infelizmente, isso não é algo novo. Já na literatura, muitas autoras assumiam pseudônimos ou assinavam com suas iniciais pra esconder o fato de que eram mulheres, porque isso repercutia nas expectativas do leitor e até nas vendas do livro. Acho que o caso mais conhecido é o da J. K. Rowling, autora de Harry Potter. Nos mangás, temos a Hiromu Arakawa, autora do aclamadíssimo Fullmetal Alchemist, que alterou seu nome verdadeiro (Hiromi) para soar mais masculino, mais “apropriado” para um autor de mangá shounen, mais voltado ao público juvenil.

Seu público leitor inclui homens?

Felizmente, sim! Embora a grande parte dos meus leitores seja mulher – o que de forma alguma é ruim, claro. Mas acho que, em geral, muitos homens têm na cabeça que existe um “quadrinho de mulher”, quase como se fosse um gênero literário. Em outras palavras: machismo.

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Agora, queria saber de outras dificuldades que você encontra: as relacionadas a ser uma artista independente, sem ter editoras ou um aparato maior por trás.

Além da questão financeira, que é a mais evidente, é difícil conciliar os projetos profissionais com os autorais. A sensação é de que sempre falta tempo, pra trabalhar mais, desenhar mais, estudar mais, dormir mais…

Sem contar que hoje é esperado que cada um seja empresário de si: é preciso se promover, gerenciar redes sociais, administrar loja virtual, envios pelo correio (maldito correio!). São dezenas de responsabilidades secundárias à produção criativa, mas que têm consequências importantes se deixadas de lado.

Pra finalizar o papo: qual quadrinho mais tocante que você leu ultimamente?

Eu estava decidida a não ler Ayako, do Osamu Tezuka, porque a história me parecia terrível demais (risos), mas meu pai leu e me convenceu, principalmente depois de me mostrar o prefácio da edição brasileira, escrito pelo Rogério de Campos, que faz uma contextualização histórica e política bem bacana, ainda mais pra nós que não temos tanto contato com a história oriental.

As coisas que acontecem nesse mangá são de fato horríveis (risos), mas é uma obra incrível. As personagens são complexas – e as condições que fizeram de Ayako, a protagonista, ser quem ela é parecem condená-la à maldição de sempre alguém querer possuí-la, como um objeto mesmo, após tantos anos desumanizada. É o tipo de trabalho que precisa ser lido e relido.

 

 

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3 comentários sobre ““A experiência de interagir com o papel faz parte da leitura do quadrinho impresso” – entrevista com Raquel Vitorelo sobre “TILT”

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