2017 foi um excelente ano para o mercado editorial de quadrinhos. A pesquisa Nielsen BookScan revela que, ano passado, a venda de HQs cresceu 52% em relação a 2016 no Brasil. No total, foram quase 2 milhões de unidades comercializadas, cerca de 700 mil a mais comparando-se com o período anterior.

Segundo a entidade que produz o estudo, os dados são provenientes do “balcão de vendas” de livrarias, e-commerce e demais varejistas, em pequenas e grandes cidades do País. Impressiona um resultado desse porte em pleno ano de crise econômica pesada, no qual ainda se teve um aumento visível no preço de capa dos livros.

Somado a isso, tem-se a sensação de que nunca foi tão fácil ler gibi por aqui: de resgates históricos a reimpressões de títulos esgotados, passando pela estreia nacional de artistas estrangeiros consagrados, coleções em formato de luxo e lançamentos de álbuns produzidos ao longo de anos a fio. O cardápio foi imenso, cheio de qualidade.

Em meio a esse cenário, indico a seguir as dez melhores leituras (de materiais inéditos) feitas por mim em 2017 – considerando que não li algumas candidatas à lista, como Rugas, de Paco Roca; Estudante de Medicina, de Cynthia B.; Condado de Essex, de Jeff Lemire; e Desaplanar, de Nick Sousanis, entre outras.

 

Os 10 melhores lançamentos no Brasil

 

10. O Barril Mágico de Lena Finkle, de Anya Ulinich (editora WMF Martins Fontes)
barrilmágico

Ansiedades, certezas, decepções e realizações amorosas são sentimentos universais – e também o âmago da personagem título, uma mulher madura em busca de vida nova após se desvencilhar de um casamento-prisão. Lena Finkle tem muito da autora Anya Ulinich: as feições, a nacionalidade russa, a vida de imigrante nos Estados Unidos – porém, nunca se revela se a história é 100% biográfica.

Realidade ou ficção, Anya criou um relato tocante, engraçado, revoltante, sobre a conexão entre pessoas em tempos modernos de apps de relacionamento. Com desenhos que variam entre o fotorrealismo e o caricato, a depender do tom da cena, é uma HQ injustamente esquecida em meio à enxurrada de lançamentos.

 

9. Ugrito #12 – Arrecém, de Diego Gerlach (Ugra Press)
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Gerlach é o líder de uma cena independente específica, interessada em produzir obras sem freios morais, cheias de referências populares, escatologia, humor negro, violência. Arrecém (parte da coleção Ugritos, da Ugra) foge um pouco dessa pecha “underground“: a trama sobre um mendigo guardador de carros que acredita estar sendo perseguido pelo diabo em pessoa está mais para estudo de personagem que comentário político.

O traço tosco do autor – de uma tosquice com propósito – chama a atenção pela simplicidade cheia de personalidade. Poucos desenham mal tão bem como Gerlach. Cheia de sutileza e coração para falar da loucura de pessoas sem nada no mundo, Arrecém ainda coloca o tinhoso pra dançar funk numa esquina, na cena mais engraçada do ano.

 

8. As Pessoas São Frágeis e Ignorantes, de Lovelove6 (independente)
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Gabriela Masson, a Lovelove6, deve ser a quadrinista mais politizada do País. Suas tiras curtas e trabalhos mais longos sempre buscam o combate, abordando sem concessões temas como feminismo, erotismo, sexualidade ou questões filosóficas sobre a vida. As Pessoas São Frágeis e Ignorantes reúne materiais publicados na Internet de 2014 a 2016. E o massacre ao leitor, no bom sentido, é brutal aqui.

Ela expõe suas dúvidas em relação ao conceito de arte; questiona a necessidade de legitimação dos quadrinhos como algo erudito; denuncia o modo desleixado com que o judiciário brasileiro encara o feminicídio; revela a estereotipização da mulher na cultura popular; constrói paralelos entre a noção de ordem presente na sociedade humana e na vida selvagem. Ufa. Lovelove6 não brinca em serviço – e sempre ganha a batalha.

 

7. Boxe, de Alexandre S. Lourenço (La Gougoutte)
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Entre jabs, uppercuts e ganchos, Alexandre S. Lourenço encontra novas formas de se criar quadrinho, assim como tinha feito em Você é um Babaca, Bernardo. Desta vez, conta a história de um boxeador longe da juventude, lutando (em todos os significados da palavra) pra cuidar do filho pequeno. O desenho miúdo característico de Lourenço se refinou, com cada vez mais detalhes para serem observados.

Além de adotar um tom sóbrio, sem apelar para o melodrama barato, o álbum brilha principalmente na sequência de abertura: 13 páginas sem requadros contendo uma luta na íntegra, com todos os movimentos, golpes e esquivas inerentes. Um grande balé de pés e braços, coreografado milimetricamente. Em termos de linguagem, Boxe ganha de nocaute no primeiro assalto.

 

6. Paciência, de Daniel Clowes (Nemo)
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Clowes possui dois clássicos incontestáveis – Ghost World (relançado em 2017 no Brasil) e Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro. Pois pode acrescentar mais um no currículo. Paciência é uma ficção científica de viagem no tempo menos parecida com a típica ficção científica de viagem no tempo. Um casal de ordinários ralando pra viver com alguma dignidade quando, de repente, seus sonhos são sepultados. O rapaz, então, volta pro passado pra tentar mudar o futuro.

Usando um clichê surrado, banhado em cores psicodélicas, o autor americano comenta a força do amor em meio a um mundo inescrupuloso. Exemplo perfeito de algo que pode ser considerado um “quadrinho adulto” – não por conter violência e sexo, mas por tratar de temas sérios de forma madura.

 

5. Sem Dó, de Luli Penna (Todavia)
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Poucas estreias nas HQs nacionais foram tão poderosas como a de Luli Penna em Sem Dó. Ok, a ilustradora tinha experiência anterior em tiras, mas essa foi a primeira vez em uma narrativa de fôlego. Escrevi uma resenha há pouco tempo a respeito do livro, um retrato social e psicológico da São Paulo dos anos 1920 envolvendo um romance proibido. Atenção para a reviravolta de cair o queixo no final da trama – nem parece que Luli é uma novata nessa arte.

 

4. Angola Janga, de Marcelo D’Salete (Veneta)
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O que esperar de um título produzido ao longo de onze anos? Nem imagino o que se passou pela cabeça de D’Salete momentos antes de lançar Angola Janga. Talvez pressão, por esperar boa receptividade do público? Se for o caso, pode dormir tranquilo. O trabalho costura com perfeição o registro documental e liberdades artísticas para narrar a trajetória do Quilombo dos Palmares, num épico cheio de dor, alma, sangue e História (com agá maiúsculo).

O autor afinou ainda mais seu elegante estilo de transição de quadros, fazendo com que a tarefa de ler um catatau de 400 páginas seja feita com a leveza de um passeio no parque com brisa no rosto. Não tem espaço para discussão: é um dos quadrinhos brasileiros mais importantes de todos os tempos. A posição neste ranking é pura formalidade.

 

3. Mensur, de Rafael Coutinho (Cia. das Letras)
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A gestação de Mensur também foi longa – custou sete anos da vida de Coutinho. Mas o resultado compensa cada segundo de espera. O artista está no auge, inventivo como nunca na construção da página, criando soluções visuais únicas para um tema igualmente singular: a jornada de Gringo, cuja mente se mergulha na culpa a respeito de certa situação vivida quando jovem. O personagem é um zumbi errante, andando de lá pra cá sem propósito – só encontra a si mesmo durante a prática da obscura luta alemã de espadas que dá nome à edição.

Sustentando o enredo, há uma profunda análise da masculinidade, do que é ser homem e dos atos que isso implica – como o machismo, a lealdade, a tomada de posição em relação aos próprios sentimentos. Mensur marca fundo, tal qual um sabre cortando a pele.

 

2. Úlcera Vortex, de Victor Bello (Escória Comix)
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Não dá pra acreditar que Úlcera Vortex tenha nascido da cabeça de apenas uma pessoa. Sinopse (uma tentativa, na verdade): o cientista Loépio de Deus encontrou a cura do câncer ao encolher gente para assassinar tumores. No entanto, nem a fama oriunda da descoberta o impede de sofrer preconceito de seus pares acadêmicos, incluindo o arqui-rival Mharles Márcio, graças a seu mau hálito tenebroso. Na tentativa de fabricar um enxaguante bucal potente, cria um portal dimensional no próprio estômago – e, agora, precisa salvar a civilização que lá mora.

O que se segue é tão doentio quanto – uma mistura de esquetes dos Trapalhões, sci-fi de quinta categoria, kung fu, RPG, diálogos inspirados em Hermes & RenatoSenhor dos Anéis, seriados de monstros japoneses e a “jornada do herói” de Joseph Campbell.

Os dois volumes da HQ independente são uma explosão catártica, anarquista, insana, hilária, com desenhos ridículos e uma baita noção de ritmo narrativo. Um filme trash dublado na programação da TV aberta em plena madrugada – só que melhor. Victor Bello é o Tolkien verde e amarelo, o George R. R. Martin da boca do lixo nacional.

 

1. Aqui, de Richard McGuire (Cia. das Letras)
aqui

Eu falei bastante sobre Aqui em 2015, quando de seu lançamento nos Estados Unidos. E admito a dificuldade de analisar uma obra que chega pra mudar o jogo no qual essa mídia é jogada. A partir de um canto de sala, McGuire passeia pela história do mundo – e por tudo aquilo que nos faz humanos. Quadrinho do ano, da década, do século, da vida.

 

Menções honrosas

-Um Pequeno Assassinato, de Alan Moore e Oscar Zárate (Pipoca e Nanquim);
-Elric – O Trono de Rubi, de Julien Blondel, Didier Poli, Robin Recht, Jean Batisde e Julien Telo (Mythos);
-Alho-poró, de Bianca Pinheiro (La Gougoutte);
-O Homem que Passeia, de Jiro Taniguchi (Devir);
-Moby Dick, de Christophe Chabouté (Pipoca e Nanquim);
-ZDM – Vol. 7 – Punição Coletiva
, de Brian Wood, Riccardo Burchielli, Andrea Mutti, Nathan Fox, Danijel Zezelj, Cliff Chiang, David Lapham e Shawn Martinbrough (Panini);
-Pantera Negra – Uma Nação Sob Nossos Pés
, de Ta-Nehisi Coates, Brian Stelfreeze e Chris Sprouse (Panini);
-O Maestro, o Cuco e a Lenda, de Wagner Willian (Texugo);
-Neo Cortex, de Bárbara Malagoli (independente).

 

Que 2018 seja um ano mais recheado de quadrinhos – de todos os tipos, gêneros e nacionalidades.

 

 

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