Existem poucas coisas nos quadrinhos nacionais (mundiais?) semelhantes ao que Bárbara Malagoli faz. A artista e ilustradora, natural de Santos, não conta histórias: ao invés de usar enredos com começo, meio e fim, prefere viajar por conceitos metafísicos, tratando de assuntos graves como a posição de uma pessoa frente à imensidão do universo ou o embate entre realidade e inconsciente.

Neo Cortex, sua nova HQ lançada na feira Des.Gráfica, em São Paulo, no começo deste mês, segue o estilo formal característico de outras obras. Páginas inteiras sem quadros – geralmente sem balões, somente recordatórios. Escolha perfeita para se chegar ao estilo reflexivo, de se estar presente em outro plano da realidade, que os temas abordados pedem.

Bati um papo com Bárbara por e-mail a respeito desse lançamento, seu estilo próprio de linguagem, a diferença entre quadrinhos e ilustração, e outras coisas mais.

 

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Capa de Neo Cortex

 

Bárbara, a primeira versão de Neo Cortex surgiu em 2015, numa publicação sua na Nébula (iniciativa do Rafael Coutinho para quadrinhos digitais). Qual é o sentimento de retornar para uma obra feita lá atrás?

Tive a sensação que esse quadrinho tinha mais coisa a oferecer, que poderia voltar para aquele universo e expandi-lo um pouco. Foi muito lindo, pois o conceito central ainda faz sentido para mim. É um projeto no qual eu consigo transitar entre idéias filosóficas, científicas e poéticas.

Essa é sua primeira HQ “solo”, já que as outras saíram em meio a antologias ou jornais?

Na verdade, no FIQ 2015 eu lancei meu primeiro quadrinho solo, o Glitter Galaxxia. Foi uma experiência muito legal e ainda penso em imprimi-lo novamente. Mas, para a Des.Gráfica deste ano, queria trazer algo novo. No Neo Cortex, a narrativa estava mais madura e os desenhos mais pesados, e acho que isso acabou combinando mais com minha fase atual.

Você gosta de abordar questões maiores que a vida, digamos assim. De onde vem essa profundidade no olhar para o mundo?

São questões 100% pessoais e, claro, assuntos que tenho muito interesse. Gosto de trazer temas que deixem as pessoas desconfortáveis de uma maneira sutil – um ponto de vista que considera que crenças e valores tradicionais são infundados -, mas, ao mesmo tempo, que elas se sintam vivas e apreciem sua existência. É como uma sessão de auto-análise em quadrinhos (risos).

 

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Ainda sobre essa questão, os temas de Neo Cortex surgiram de alguma ideia específica? Ou você trabalha num fluxo de consciência?

Na época que fiz esse quadrinho, estava obcecada com a série Cosmos, que me inspirou bastante para o conceito-chave desse projeto, falando do espaço e o comparando com nosso próprio corpo. A partir disso, comecei a pesquisar mais sobre o cérebro, como funciona a memória etc. Quis fazer uma relação entre a matéria e a consciência.

Sobre a linguagem: a maioria dos seus quadrinhos tem como característica o uso da página inteira como elemento narrativo. Como você chegou a esse estilo?

Nessa obra e em Frumello, da antologia Topografias, decidi ir por esse caminho gráfico. Acho que é uma maneira do leitor absorver cada página individualmente e refletir sua mensagem com um certo respiro, fazendo um parâmetro com sua vida pessoal. A parte mais legal é quando recebo os feedbacks dos leitores e vejo que cada um assimilou o quadrinho de uma maneira diferente e interessante.

Seu traço também é bastante único. Aliado às cores, tem um jeito quase industrial, digital, mas sem perder a ternura, graças às curvas que você coloca nos objetos. Como é seu processo de desenho e colorização? Tudo é feito no computador ou existe alguma etapa no papel?

Todos os meus trabalhos começam no papel como rascunhos de idéias. Depois, alguns deles viram digitais. Nesse caso, a massa de cores e composições são muito importantes e têm um peso para que a identidade do quadrinho fique equilibrada. Gosto de montar a atmosfera do projeto por meio da paleta de cores, um tipo de universo peculiar e único.

 

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Existe muita diferença entre fazer quadrinho e criar uma ilustração?

Sim. O pensamento de ilustração acaba sendo algo mais estático, prezando mais a parte estética. Nos quadrinhos é necessário que haja movimento, cenário, narrativa e uma certa desfragmentação da cena. Em Jinx, minha HQ publicada com o pessoal do grupo Novo Amanhecer, estou explorando mais o conceito de “quadrinho clássico” com balões e composição de cenas. Está sendo um grande desafio, porém muito divertido.

Quais artistas mais te inspiram atualmente?

Aqui do Brasil, sou apaixonada pelo traço e força do trabalho da Lovelove6. A Paula Puiupo e a Julia Balthazar me surpreendem a cada dia que passa com sua evolução de traço descomunal. Os trabalhos do Gabriel Góes, Mateus Acioli e Wagner Willian são impecáveis e finos. Dos gringos, sou fã incondicional do Taiyo Matsumoto, BlexbolexMichael DeForge.

Gostaria de comentar algo meio subjetivo, a partir de uma percepção minha. Na Des.Gráfica, reparei que poucos homens paravam na sua mesa (ou em mesas que só tinham mulheres) – e não estou contando caras que já conheciam seu trabalho anteriormente ou colegas artistas. Ainda há resistência masculina em relação a mulheres fazendo HQs, principalmente obras independentes e experimentais?

Sim. Em geral, caras que não estão muito inseridos no mundo dos quadrinhos independentes acabam passando reto e dando mais valor para artistas homens, pra variar. Isso não me afeta muito, pois existem muitos homens e mulheres que gostam do nosso trabalho. Só fico chateada por ainda existir tanta ignorância e falta de informação.

 

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A antologia Topografias foi um dos grandes lançamentos nacionais de 2016. Como é a sua relação com as outras minas (Taís Koshino, Lovelove6, Paula Puiupo, Julia Balthazar e Mariana Paraizo) que estiveram presentes nessa obra?

Gosto muito de todas, do fundo do meu coração. Porém, o mais importante da nossa relação é que não precisamos ser super próximas na área pessoal para fazer um projeto como Topografias. Basta ter respeito e união, que é o que não falta entre a gente. Somos todas muito diferentes e de lugares distintos, mas acho que a admiração que sentimos umas pelas outras foi o que nos uniu.

 

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