Come with me, I thought he said
But that’s not him anymore, he’s dead
What’s it like to be so free
So free it looks like lost to me
I’ve got to lose this skin
I’m imprisoned in

(Lose This Skin, The Clash)

O impacto de uma obra no leitor/espectador, ao menos pra mim, conta muito na hora de analisá-la. Lembro de quando assisti a Providence, filme de Alain Resnais. Admito, entendi quase nada, mas captei sua força dramática brutal. Na revisão, tudo se iluminou. As cenas sem explicação desataram seus nós, as peças do quebra-cabeça narrativo se encaixaram.

Gume, novo zine de Paula Puiupo, lançado semana passada no FIQ 2018, me deixou com sensações idênticas. A autora gosta desses jogos, nos quais a cronologia desaparece, o relato subjetivo fundindo-se com o objetivo. A primeira leitura causou estranheza – e também choque ao término, pois dava pra perceber as intenções mordazes do roteiro. A releitura apenas confirmou: Puiupo é uma grande discípula de Resnais e de seu trabalho em definir o funcionamento da memória.

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Capa de Gume, da luso-brasileira Paula Puiupo

A HQ começa com a protagonista, Sôfi, numa delegacia. Foi lá pra pedir ajuda – ou, talvez, tenha sido levada à força, não se sabe. Ela só se lembra do próprio nome – não recorda mais nada sobre si mesma. Faz exames na cabeça em busca de alguma doença, “tudo normal”, diz o médico.

A partir daí, a garota embarca numa torrente de lembranças para definir a própria identidade. Na verdade, ao espremer o enredo de Gume, sai algo bem simples, abordado inúmeras vezes na arte: a descoberta sexual na juventude. A diferença agora está no modo labiríntico usado pela quadrinista pra contar essa história.

Voltando a Resnais: não houve cineasta mais hábil que esse mestre francês para trabalhar com a memória. Suas maiores obras (a citada Providence, Hiroshima Meu Amor, O Ano Passado em Marienbad etc.) giram em torno do tema – tentar lidar com o passado, encontrar respostas para o presente, encarar a escuridão do futuro. Nas mãos dele, a memória é uma entidade física, que emerge do inconsciente para transformar a matéria. Verdades viram dúvidas; mentiras, realidade; ficção, fato.

Puiupo trilha esse mesmo caminho. Faz simbolismos excêntricos, desenha formas disformes, engana o leitor como pode. Assume o próprio aspecto fragmentário das lembranças da personagem, criando um fluxo de consciência que culmina no reconhecimento da própria identidade. Cortar a carne para assumir o que se é.

Gume tem só 21 páginas de história – e um universo dentro delas.

 

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Um comentário sobre “Um passeio em busca da identidade – “Gume”, de Paula Puiupo

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