A proposta do projeto Tabu, da editora Mino, era bem ousada: dar três temas proibidos, relacionados a mulheres, para três quadrinistas jovens e emergentes, e ver o que saía dali. E o que saiu é bastante revelador sobre a capacidade de Amanda Miranda, Lalo e Jéssica Groke.

Apesar de ser vendido como um projeto no qual as três HQs devem ser lidas em conjunto, cada uma atua de forma independente. Se fossem lançadas separadamente, fariam tanto sentido como fazem juntas. Apesar da ligação conceitual, é a força criativa individual o mais importante.

Abaixo, uma crítica para cada obra.

 

Juízo, de Amanda Miranda

CAPA_juízo

2019 foi um ano iluminado para Amanda: além de vencer o Prêmio Dente de Ouro para publicações independentes, na categoria Quadrinho, com Hibernáculo (publicado em 2018), ela lançou duas obras que elevaram seu jogo. Uma delas é Sangue Seco Tem Cheiro de Ferro, poema visual sobre o fim do mundo (ou o fim das relações humanas?).

A outra é Juízo, um tipo raro de gibi nacional: aquele que busca ser um comentário maior sobre alguma questão da sociedade, que tenta forçar a linguagem da mídia para frente, que usa subjetividades ao longo de toda sua extensão… e, ainda assim, não abre mão de uma narrativa objetiva – uma história, com começo, meio e fim. Várias obras por aí optam por apenas um ou outro dos itens citados, quase nunca todos ao mesmo tempo.

As ilustrações feitas por Amanda, formadas por corpos rasgados, metamorfoseados, em composições oníricas, já indicavam um interesse pelo body horror do cineasta David Cronenberg. Sua primeira HQ, Infestatio, também ia ao encontro dessa estética. E, em Juízo, esses conceitos finalmente se tornam o foco de um quadrinho feito por ela.

A loucura começa na capa, um rosto com aparelho ortodôntico diabólico, sem a parte inferior da mandíbula. Parece mais um frame do filme Gêmeos – Mórbida Semelhança ou Crash – Estranhos Prazeres. E a imagem engana, pois quem vai ler passa a esperar um enredo de gore puro, quando na verdade o terror espreita por outras frestas. Como um bom suspense psicológico, o assustador está naquilo não dito (e no não mostrado).

Da mesma forma que Sangue Seco, há certa dissonância entre texto e desenho. Um parece não corresponder totalmente ao outro, um parece esconder coisas do outro. Reflexo da própria trama, envolta nas intenções secretas da protagonista Luciana ao visitar um dentista. O enredo começa da forma mais mundana possível, com a personagem se preparando para a consulta. Aos poucos, entramos numa escalada de estranheza. Diálogos se tornam dúbios, pessoas e cenários parecem dar dicas de algo a mais acontecendo, interlúdios na ação principal trazem novas questões para serem analisadas. Tem até um cena de cirurgia que se transforma em algo inesperado – e você se pergunta se é aquilo mesmo que está vendo.

Quando a verdade sobre os fatos se revela, por mais que era possível antevê-la, o choque é brutal. E aí se entende as intenções de Amanda: demonstrar o quase inescapável papel a ser desempenhado pelas mulheres na sociedade. Uma obrigação de gerar, de educar, de se fazer encaixar, de se dissolver em prol do outro, colocada sobre os ombros de geração após geração – como bem indica o epílogo.

Juízo, por si só, vale por vários projetos do porte de Tabu.

juizo

 

Cina, de Lalo

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Enquanto Queda, a obra-prima de Lalo lançada em 2018, mais parece uma viagem lisérgica de uma personagem em busca da própria identidade, Cina funciona num outro ritmo, bem cadenciado. Até mesmo o design das páginas, a maioria com um padrão de quadros bem definido, ajuda a trazer sobriedade. Isso não significa que a autora criou agora um material burocrático, pelo contrário: a lentidão e a aparente falta de ação são necessárias para a reflexão proposta.

Tem muito dos ensinamentos do filósofo grego Epicuro nesta história, que gira ao redor da relação de uma médica, Agria, e sua paciente, cujo nome é o mesmo da HQ. Fica implícito que Cina tem alguma doença grave, talvez terminal. Porém, ao invés de se desesperar, pede ajuda para se suicidar. “Eu já disse. Não é a vida… Bom, talvez ela tenha a ver, mas… eu só realmente quero morrer”, ela diz em determinado momento.

Para Aristóteles, o maior objetivo da existência humana é a felicidade – e a dificuldade em atingi-la reside no medo da morte, na impossibilidade de explicar o que ela representa. Epicuro resolve o impasse: a solução está em abraçar a morte como o fim do sofrimento terreno. O ato de morrer não envolve sensações ou estados de consciência, portanto não há a necessidade de temê-lo. Cina parece entender a mensagem. É possível encontrar ainda a discussão sobre a conexão entre desejo/prazer e dor/morte, impulsos que ajudam a moldar o comportamento humano desde sempre (para se aprofundar mais nesses temas, vale conferir De Olho Bem Fechados, de Stanley Kubrick, ou O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima).

No entanto, todos esses conceitos ficam subentendidos – o roteiro não quer ser uma aula de filosofia. Em poucos diálogos, e esse é um gibi com pouco texto, Lalo constrói novos sentidos para atos banais, como comprar alimentos, cozinhar um jantar ou cuidar de plantas. Para isso, faz quadros cheios de simbologia sutil: um galho sendo podado, um peixe tendo suas vísceras retiradas pelo vendedor do supermercado, cebolas sendo descascadas.

E, sendo realista, o enredo aborda uma assunto bem simples: como enfrentar o inevitável fim das coisas, o inevitável fim de tudo. A estranha relação amorosa das protagonistas dá mais peso a essas perguntas: um ente querido tem algum poder sobre a existência de outra pessoa?

Lalo fez um filme de Michelangelo Antonioni em formato de HQ.

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Piracema, de Jéssica Groke

piracema

Junto de Spinning, de Tillie Walden, e Aquele Verão, de Jillian e Mariko Tamaki, Piracema fecha uma espécie de trilogia lançada ano passado sobre jovens garotas entendendo o funcionamento da vida adulta. Os dois primeiros livros são graphic novels enormes, com espaço suficiente para demonstrar como se dá a adolescência feminina – temática tão pouco retratada em obras de diversas mídias, ainda mais se comparadas a trabalhos semelhantes envolvendo personagens homens. Em Tabu, Jéssica sofre por ter poucas páginas para desenvolver com maiores detalhes o desabrochar do interesse de uma menina por sexo. Mesmo assim, as metáforas e o estilo de desenho da autora valem a leitura.

Jéssica foi responsável pela melhor estreia nacional em quadrinhos de 2018, com Me Leve Quando Sair. Usando só lápis para desenhar e construindo cenas praticamente sem requadros, já tem uma forma pessoal de narrar. Aos poucos, temas também se tornam característicos em sua obra: ambas as histórias contam com viagens para o campo como uma forma de autodescobrimento.

Desta vez, o enredo se inicia numa aula sobre bebês (como nascem, são feitos etc.). Na sala, crianças de dez, onze anos. Um menino faz piada com grávidas, enquanto a menina que assumirá o papel de protagonista (seu nome não é revelado) só olha com desdém. Depois disso, tem o fim de semana numa chácara, que vai suscitar nela dúvidas e deslumbramento em relação ao próprio corpo.

A alegoria da piracema é interessante para jogar ambiguidade sobre os acontecimentos. O termo representa a “subida dos peixes” – o movimento de migração desses animais até a cabeceira dos rios, em busca de um lugar ideal para a reprodução. Ou seja: é a luta de uma espécie contra as forças da natureza para sobreviver. E o que realmente acontece com a protagonista sem nome e sua prima? Quais sentimentos são despertados e como isso vai moldar suas vidas a partir de então? A mão levantada na aula seguinte dá a deixa: sexo e desejo também são coisas intrínsecas ao universo das mulheres, ao contrário do que somos ensinados desde pequenos.

A única coisa que joga contra Piracema é a curta duração. Talvez, se fosse mais longa, a HQ conseguisse explorar melhor alguns pontos citados rapidamente, assim como aprofundar as ligações entre as personagens. Mas a mensagem (e a capacidade de se confirmar enquanto quadrinho) está lá.

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O saldo de Tabu é muito alto. Tem um quadrinho realmente diferenciado (Juízo) e outros dois bem sólidos em suas propostas. Nada que surpreenda quem acompanha essa atual excelente geração de meninas fazendo gibi.

 

 

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