Nesse fim de semana, 8 e 9 de julho, rolou em São Paulo, no Sesc Belenzinho, a sexta edição do Ugra Fest, feira de quadrinhos e publicações independentes/alternativas. Passei por lá nos dois dias e, olha, foi muito melhor do que poderia imaginar.

Tinha fácil bem mais de cem artistas, distribuídos em corredores que ficaram cheios graças à boa presença de público, interessado não só em comprar, mas trocar ideia. A programação contou com palestras, debates, exposições.

Pra quem visitou a feira valeu muito a pena. E para os artistas? Conversei com alguns deles sobre a importância do Ugra Fest para a cena nacional dos quadrinhos. Mais do que fazer arte, criar HQs dessa forma quase artesanal é um ato de guerrilha cultural.

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Douglas Utescher
Idealizador, junto com sua esposa Daniela Cantuária, do Ugra Fest. O casal mantém a Ugra, loja de quadrinhos localizada em São Paulo

“Organizar essa feira tem um pouco a ver com aquela questão romântica de que aqui todo mundo faz por paixão e tal. Mas existe uma questão mais prática, que é a de entender que eventos como esse tem o papel de dar suporte para os autores, oferecer um espaço para se construir um público. A Ugra nunca pensou os projetos em que está envolvida só como consumo. Esse espaço tem o objetivo de aglutinar cabeças pensantes sobre o assunto, na esperança de que as pessoas saiam daqui com ideias e aconteça desdobramentos que nós, como organizadores, nem temos como prever.”

 


Marcatti
Símbolo do quadrinho underground brasileiro e criador do personagem Frauzio, foi o homenageado da sexta edição do Ugra Fest

“Ser homenageado é sempre legal, pro ego é uma delícia. Fico meio encabulado, sem graça, mas é do caralho. Mas ser lembrado num evento que tem o foco no alternativo – e não é só a publicação independente, mas independente e alternativa -, que tem o foco no trabalho de contundência… Isso não tem preço. Eu tô na minha casa. Ficava tentando pensar como seria ver releituras do meu trabalho, seu personagem tomando outras formas. Você vê como o personagem se monta de forma diferente na cabeça de cada um. Isso é muito grandioso.”

 


Manzanna (Anna Mancini)
Mineira de Juiz de Fora, é ilustradora e quadrinista. Já lançou zines e publicou materiais na internet

“É até curiosa essa ideia de ser um trabalho muito autoral, independente, individual, porque eu vejo que, num ambiente como esse, o que acontece é que seu trabalho deixa de ser seu. Chega em pessoas e elas opinam, compram o que você faz, não só financeiramente, mas também sua ideia. É legal ver a pessoa lendo seu trabalho pela primeira vez e reagindo de algum jeito. Pela internet, onde eu publico bastante, as pessoas têm reações, mas não substitui o que acontece aqui. Além disso, à medida que você chega num lugar desse, encontra coisas que dialogam, coisas muito diferentes entre si… Dá pra sentir que não é um trabalho tão solitário assim. E isso ganha até outros recortes, de resistência política, de conseguir contornar certas barreiras de “quem pode” ou “não pode” publicar, o que “pode” ou “não pode” ser dito. Se você lembrar do descaso enorme com a cultura em nosso País, eu não acho que um zine ou um artista só seja uma grande potência revolucionária. Mas, olhar pra esse evento e não enxergar a relevância política, é um equivoco também.”

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Diego Gerlach
Idealizador do selo Vibe Tronxa Comix. Criou a série de zines Know Haole, além de outros trabalhos com viés político e humor escrachado

“Esse tipo de evento é propício para a formação de novos praticantes no meio do zine, quadrinho, publicações como um todo. Até por essa coisa mais horizontal, de a grande maioria dos autores serem independentes, pessoas que se auto-editam e têm condições de passar adiante dicas preciosas pra quem tá começando – desde coisas como o material a ser utilizado pra se criar histórias, manhas de edição, como lidar com bureau de xerox. Eu mesmo sempre procurei absorver o máximo possível com pessoas que tinham mais experiência. É uma oportunidade bem rara de encontrar todo esse pessoal concentrado. Pra mim, é um vasto repositório de conhecimento.”

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Frida e Xavier Ramos
Irmãos paulistanos no início da carreira nos quadrinhos, ambos desenham e escrevem roteiros. Frida tem 13 anos; Xavier, 17

Xavier
“É nosso primeiro evento com mesa. A gente faz quadrinhos há dois anos, o primeiro foi lançado em junho de 2015. Neste ano, não lançamos nada ainda. Estamos produzindo uma história um pouco mais longa, diferente das outras. A mesa esteve bem movimentada, com o pessoal interessado, querendo conhecer. As pessoas são superacolhedoras e, apesar de estarmos no meio de vários artistas consagrados, não intimida nem um pouco.”

Frida
“Já estamos acostumados em conhecer novos autores. A gente começou distribuindo nossos gibis de graça. Era importante ter a opinião deles. Depois de um tempo, já nos conheciam, lembravam. Daí, eles falavam ‘tem que melhorar isso, aquilo, tá muito bom, vocês tão no caminho certo, mas vão treinando, sempre’.”

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Os irmãos Xavier e Frida Ramos

 

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Exposição Marcatti 40: quarenta artistas brasileiros de diferentes estilos e gerações foram convidados a fazer suas próprias versões do Frauzio, o mais conhecido personagem de Marcatti

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Outra exposição foi o Panorama Nacional de Zines e Publicações Independentes, cujo objetivo era mostrar um recorte das revistas brasileiras, com os mais variados temas, formatos, linguagens e origens. O público era convidado a ler o conteúdo das publicações, que ficavam penduradas e acessíveis a qualquer pessoa

 

João Pinheiro
Ilustrador, artista plástico e quadrinista. Autor de Burroughs e Carolina, ambos pela editora Veneta

“Nos anos 1990, quando eu comecei a querer fazer quadrinhos, não tinha essa cena que existe hoje. Então, a maneira que a gente tinha era o fanzine, pra vender na escola, na faculdade. Voltar para o zine, com o lançamento do Cavalo de Teta aqui na feira, é uma coisa afetiva também. Muitas vezes, você não encontra tanto respiro de criatividade nas editoras, não sei por qual motivo, mas nos fanzines eu vejo aquela pulsação de uma coisa viva. No meu caso, é algo xerocado. Mas tem uns até profissionais, com impressão em risograf, nem dá pra chamar de fanzine. É arte, né.”

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Bruno Brunelli
Ilustrador e designer. Publicou o prólogo de seu primeiro quadrinho, Veludo dos 9 Infernos, no ano passado. Tem um perfil no Catarse para financiar a sequência do projeto

“Esse lance aqui é muito importante, porque tem a questão de conhecer a vivência do pessoal, como eles começaram. Você tem um networking pra trocar experiências, gibis, histórias. Se você não se fizer conhecido, você não vai ser conhecido. Não adianta nada ter boas ideias, produtos, mas ninguém saber quem você é. Com um evento desse, as pessoas vão se conhecendo e criando algum tipo de laço. Na próxima feira, já tem um ‘porra, te vi em algum lugar’. É bom ver que vale a pena investir na criatividade, lançar coisas. O pessoal vai olhar, curtir e ter uma recepção calorosa.”

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Thiago A.M.S.
Membro do coletivo Miolo Frito, que lançou a coletânea Bar, pela editora Mino

“Nosso coletivo sempre dependeu dessas feiras. Todas as pessoas que conhecem a gente são amigos ou nos conheceram num evento. A nossa divulgação sempre foi feita assim, no FIQ, Feira Plana etc. O contato pessoal faz muita diferença, pois não temos um comércio online. E, mesmo nas feiras em que não vendemos bem, fizemos contatos muito legais. Isso ajuda a fomentar a cena, se ajudar mutuamente, discutir impressão, a arte em si. Quem compra e consome tem, de certa forma, uma aspiração a produzir. O cara quer fazer quadrinhos, quer desenhar. Servir de inspiração pra quem tá começando é muito bacana.”

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Thiago A.M.S e Breno Ferreira, do Miolo Frito

 


Paula Petit
Brasiliense, é ilustradora e quadrinista

“O que eu gosto daqui, e é algo muito parecido com o FIQ e outras feiras das quais já participei: quando é um evento voltado para a publicação independente, a gente tem um contato muito mais forte com o público que consome. São pessoas que querem isso, então é muito mais interessante pra nós enquanto produtores de arte. Em eventos muito grandes, as diversas atrações e editoras de massa tiram o foco. O trabalho independente é diferente, tem muitas coisas no processo que são controladas pelas pessoas que estão fazendo. É uma qualidade diferente. Eu estive no Ugra Fest antes e foi uma experiência maravilhosa participar de uma produção tão plural.”

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Marcel Bartholo
Pós-graduado em Artes Visuais, ilustrador e caricaturista. Lançou a HQ Insubstituível no ano passado

“É minha primeira vez expondo no Ugra Fest. Isso abre espaço pra ter contato com um público que nem é necessariamente tão ligado ao mundo geek nerd, como em outros eventos do tipo. Acha bacana de acontecer em um Sesc, pois você pega um público curioso, que tá passando pra fazer outras atividades. Pra mim, este ano está sendo muito importante. Participei da Comic Con Experience ano passado, mas não dá pra ficar dependente só dela. A feira está cada vez maior e mais bem estruturada, sempre abrindo espaço para diversas áreas da produção gráfica independente.”

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Daniel Preto
Designer gráfico e ilustrador. Seu primeiro álbum, Weltschmerz, surgiu a partir de um trabalho de conclusão de curso para a faculdade

“Com essa obra, minha intenção era fazer um quadrinho com foco na própria linguagem, a relação dos personagens com os painéis, que explorasse a passagem do tempo. Eu apresentei o trabalho de conclusão de curso no ano passado, e agora lanço a versão definitiva, revisada e tal, pra colocar essa obra no mundo. Minha intenção é continuar lançando quadrinhos, apesar de não ver tanta perspectiva financeira a curto prazo. É um negócio que você vai trabalhando com o tempo. E essa feira é fantástica por isso: traz um público que não é necessariamente voltado para o entretenimento, formado por pessoas interessadas em conhecer esse aspecto autoral, caseiro.”

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Um comentário sobre “Ugra Fest 2017: a feira de quadrinhos alternativos na visão dos artistas

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