2021, Ano 2 da Era Pandêmica Moderna. Ano no qual a produção de HQ nacional pareceu começar a entrar nos eixos após um 2020 de vacas magras. Tivemos antologias, coletâneas e obras fechadas do porte que víamos em períodos normais. Falta igualar a quantidade da oferta desse material – o que só vai acontecer quando as feiras presenciais voltarem. Perifacon já tem data para maio, Poc Con para junho, CCXP para dezembro. Vem aí o FIQ também? E outras cidades e regiões, Norte, Nordeste? Não adianta: o quadrinho independente precisa da presença física dos leitores, tanto em mostras como em comic shops, para florescer devidamente.

E essa questão se replica em outros cantos do mercado. A maioria das publicações das editoras brasileiras é de gibi estrangeiro, por exemplo. Levantamento de Douglas Utescher, um dos proprietários da loja Ugra Press, revela que menos de 20% de todos os lançamentos das seis maiores casas brasileiras do segmento (Cia. das Letras, Darkside, Mino, Nemo, Pipoca & Nanquim e Veneta) são nacionais. Não faço juízo de valor, até porque a maior parte de minha lista a seguir é internacional, porém esse assunto precisa ser olhado com atenção. A ótima geração atual de artistas jovens (e nem tão jovens assim) não pode ficar relegada apenas a um nicho de zines, mesmo com os pequenos selos, como a Escória Comix e a Pé-de-Cabra, fazendo um trabalho primoroso.

Dito isso, vamos às HQs. Como sempre, não li alguns candidatos a melhores do ano, como Pele de Homem (editora Nemo), de Hubert e Zanzim; A Rosa Mais Vermelha Desabrocha (Cia. das Letras), de Liv Strömquist; Cinema Panopticum (Darkside), de Thomas Ott; Brega Story (Brasa), de Gidalti Jr., entre outros. As indicações não estão no formato de ranking, e entraram somente livros inéditos lançados em 2021.


Stuck Rubber Baby

A década de 1990 viu uma explosão do gibi independente na América do Norte – e um artefato chave para essa detonação foi Stuck Rubber Baby – Quando Viemos ao Mundo (Conrad), de Howard Cruse. Incontáveis criadores LGBTQIA+ foram atingidos e inspirados por seus estilhaços (a mais famosa sendo Alison Bechdel, mas entram na conta contemporâneos dessa obra, como Ariel Schrag, Coollen Coover e David Kelly, e gente mais jovem, como Tillie Walden e Aline Zouvi). Cruse, já veterano dos quadrinhos com temática queer em 1995, fez um gibi gay que não se limita a ser gibi gay: é dos mais complexos panoramas a respeito dos direitos civis nos EUA dos anos 1960 vistos nessa mídia. Humano e sombrio, leve e engraçado, conta uma história pessoal sobre sexualidade inserindo-a em contextos sociais muito maiores que o protagonista. O desenho underground usa pontilhismo para trazer maior peso dramático a uma imensa galeria de personagens, mais parecidos com pessoas reais do que com rabiscos no papel, de tão tridimensionais que são. Só uma reclamação em relação à edição da Conrad: o formato menor que a versão estadunidense deixa as densas páginas, cheias de detalhes na arte, balões e textos, “apertadas”. Mesmo assim, se você tiver de ler apenas uma HQ do ano passado, esta é a escolha certeira.

Isolamento

Outro retrato de um período histórico relevante (no caso, a situação brasileira nesta pandemia) foi Isolamento (independente), de Helo D’Angelo. O livro, produzido via financiamento coletivo, compila a primeira temporada da tira homônima publicada em 2020 no Instagram da autora, incluindo material inédito. Na estrutura narrativa está seu grande trunfo: cada página tem doze quadros que representam janelas num prédio. Por ali, o leitor espia a rotina de pessoas confinadas durante a quarentena, incluindo negacionistas, jovens casais, migrantes e trabalhadores em home office. Daqui a anos, a obra será uma fotografia inescapável do atual caos vivido em nosso país. Entre as coletâneas envolvendo mais de um artista, a melhor é 11:11 (independente), que reúne histórias de terror de Jéssica Groke, Felipe Portugal, Lalo e Diego Sanchez. Escrevi sobre ela aqui, por isso não me alongarei. Cada conto traz uma visão distinta a respeito desse gênero, mas todos revelam igualmente como o simples ato de viver pode se transformar em algo aterrorizante. Enterrei Todos no Meu Quintal (independente), de Luckas Iohanathan, é apenas o segundo quadrinho do autor, embora pareça ter anos de experiência no ramo. A história tem certa semelhança com a de Polina, de Bastien Vivès, no sentido de contar a vida de uma mulher ao longo de décadas, com foco em seus relacionamentos e sua ligação com a arte que pratica. Porém, Luckas supera e muito o francês, seja na capacidade de narrar de forma fragmentada, sem perder a coesão, ou pela sensibilidade de aprofundar a psicologia dos personagens somente com pequenas soluções visuais, dispensando a palavra escrita para isso.

Cromáticas

Cromáticas (Trem Fantasma), do argentino Jorge Zentner e do espanhol Rubén Pellejero, também utiliza com maestria os aspectos de uma mídia baseada na imagem (onomatopeia, diagramação, paleta de cores etc.). Os criadores fazem pequenas crônicas de realidade fantástica, com temas como vingança, desejo, culpa, nostalgia. Não existem desfechos concretos ou entendimento fácil: abertas a múltiplos significados, oferecem vislumbres de vidas vazias em busca de alguma redenção. É o tipo de obra que só poderia existir como gibi. Continuando nas HQs hermanas, Um Tal Daneri (Comix Zone), de Carlos Trillo e Alberto Breccia, trilha o mesmo caminho das tramas curtas, de resolução rápida e impacto duradouro. Um noir ainda mais desesperançoso que os clássicos do gênero, pois reflete as consequências da ditadura do país enquanto o regime acontecia, protagonizado por um velho detetive de ombros caídos, com texto afiado como navalha e um Breccia no auge de sua fase expressionista. Vindo de mais longe, do Japão, enfim chegou ao Brasil o monumento dos quadrinhos mundiais Vida à Deriva (Veneta), de Tatsumi Yoshihiro, obra que relembra com riqueza de detalhes a criação do gekigá, provavelmente o primeiro movimento de quadrinistas com foco em histórias maduras, surgido na década de 1950. Fiz um longo artigo a respeito da carreira de Tatsumi aqui.

Incidentes da Noite

Ano passado viu mais obras de dois fundamentais artistas contemporâneos, ambas pela Mino. André, o Gigante, do estadunidense Box Brown, narra a vida de André Roussimoff, atleta francês superpopular da luta livre nos anos 1970 e 1980. É um conto cheio de melancolia sobre aceitar as próprias imperfeições, no estilo direto e funcional de Brown. Ei, Espera…, do norueguês Jason, deve ser seu livro mais triste, pois comenta as implicações da morte sob o ponto de vista de uma criança. Tem uma cena específica de dilacerar o coração, a qual, nas mãos de um artista menos hábil, com certeza penderia para o sensacionalismo. Mas Jason nunca deixa de lado seu tradicional minimalismo no desenho e na construção da página, alcançando grandes resultados emocionais – com ele, menos é mais. Da mesma forma, A Espera (Pipoca & Nanquim), da sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim, consegue extrair reflexão de um enredo pesado no quesito drama. Baseado na trajetória da própria mãe, Gendry-Kim relata a separação de um sem número de famílias causada pela Guerra da Coreia. Grama, seu quadrinho anterior, revelou sua sensibilidade impressionista; agora, o estilo mudou, ficou mais dinâmico, com maior uso de sobreposição de imagens e de espaço negativo. Incidentes da Noite (Veneta), do francês David B., mexe com sentimentos diferentes: mergulha o leitor num mundo surreal de mistério, aventura e delírio pelas livrarias de Paris, misturando lendas urbanas com história oficial e literatura. A edição reúne todos os capítulos lançados pelo autor ao longo dos anos, embora a trama não tenha sido finalizada até hoje (e nem se sabe quando B. retomará o trabalho…). Isso não importa, pois essa viagem criativa não deve ser encarada com a frieza estrutural dos manuais de roteiro.

Carniça e a Blindagem Mística – Volume 2: A Tutela do Oculto

O épico cangaceiro Carniça e a Blindagem Mística, de Shiko, ganhou seu segundo volume, A Tutela do Oculto (independente). Indo mais fundo na relação das personagens com entidades sobrenaturais, a HQ encanta por ter o que contar em diferentes níveis: no objetivo (a história de banditismo e vingança inspirada em diversas situações reais) e no subjetivo (o subtexto a respeito da emancipação feminina e a luta contra a opressão). Pra deixar ainda melhor, as aquarelas de Shiko nunca estiveram tão belas. O italiano Gipi é mais um a escolher esse método de pintura – e não só ele. Em Umahistória (Veneta), ele desenha com diversas ferramentas, da aquarela à esferográfica e nanquim, para refletir a mente estilhaçada de um escritor doente. Memórias de antepassados que se fundem aos fatos do presente, ficção que se reproduz na realidade, tudo representado por metáforas visuais de lirismo único – não existe autor igual a Gipi em nenhum canto do mundo. Naturezas Mortas (Faria e Silva), do belga Zidrou e do espanhol Oriol, também aposta em uma estética de pintura para emular os quadros do catalão Vidal Balaguer, considerado um dos precursores do modernismo local. O roteiro gira em torno dos últimos momentos do pintor antes de seu desaparecimento no fim de 1899. Com toques de realismo mágico, é uma ode à criação artística como refúgio de um mundo duro.

Por fim, mas não menos importante, impossível não citar Rusty Brown (Cia. das Letras), de Chris Ware. O belo volume nacional reproduz a versão norte-americana com excelência: estão contidas ali quatro histórias interessadas em investigar a condição humana. Admito que ainda não consegui ler o livro inteiro, mas já devorei anos atrás uma dessas histórias, Lint, na qual cada página mostra um ano na vida do personagem título. É a característica fragmentada de Ware, criada a partir de diagramas com múltiplas formas de leitura, elevada à enésima potência. Se Lint sozinho briga pelo título de melhor gibi do quadrinista, imagina Rusty Brown inteiro?

Que em 2022 possamos ver muitos mais quadrinhos de qualidade, assim como o fim da pandemia e o fim da destruição do Brasil.

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