Adoro ouvir (ler) o que outros têm a dizer (escrever) sobre quadrinhos. Por isso, e também pela minha incapacidade de conseguir manter um mínimo de periodicidade em postagens, imaginei uma coluna nova pro blog. É bem simples, uma situação de vitória para todos os lados: um quadrinista escrevendo sobre um quadrinho que mudou sua vida. Pode ser algo famoso, underground ou que só a pessoa conheça. Não importa. Artista também pode – e deve – expor seus pensamentos/filosofias sobre a mídia com a qual trabalha.

Para a estreia, um combo matador: Aline Zouvi, autora de Síncope, dona de um talento e sensibilidade artística enormes, comenta sobre Fun Home, graphic novel da americana Alison Bechdel, publicada em 2006. E não haveria hora melhor para relembrar esse clássico.

A editora Todavia acaba de relançar a obra, esgotada há anos (saiu pela primeira vez pela Conrad, em 2007). A nova edição se vestiu com uma capa cheia de sutilezas, e aproveita a antiga – e ótima – tradução do editor André Conti. Já está em estoque nas lojas.

FunHome.jpg

Mais sobre a obra quem vai te contar é a Aline.


Por que ler Fun Home?

(Acho que quase ninguém nascido depois de 1980 tenha uma cabeceira, mas…) Quase todo mundo tem sempre aquele livro de cabeceira. Um livro que a gente releu oito vezes e que só não relê uma nona, talvez, por autopiedade. Creio que Fun Home ocupe esse espaço na minha vida. Seja por prazer ou pela pesquisa, é o conjunto de páginas que mais (re)folheei até o momento.

Fun Home me fez acordar enquanto leitora de HQs – e também como leitora de qualquer outra coisa. Espero que esta reedição (que alívio!) acorde muitos outros leitores, também. Ou que, pelo menos, lhes deem aquela boa empurrada que faz o cérebro coçar.

Não sei se é necessário relembrar a força de Alison Bechdel enquanto artista. Procure saber sobre a série produzida por ela ao longo de vinte anos – Dykes To Watch Out For (1983 a 2008) – que mudou pra sempre a história da representatividade de mulheres LGBT nos quadrinhos. Além de Fun Home e seus desdobramentos (um prêmio Eisner na conta e uma adaptação para musical na Broadway), vale também conferir Você É Minha Mãe? (Companhia das Letras, 2012), segunda HQ autobiográfica da autora.

Ler um quadrinho autobiográfico pode ser chato pra cacete. Não vou deixar de reconhecer isso. Fun Home encanta por guiar o leitor em uma viagem egocêntrica que se torna cada vez mais sedutora porque explora muito bem a alteridade presente em cada experiência de Bechdel, por meio das associações entre a narrativa de sua vida e as narrativas e vidas dos escritores admirados por ela e por seu pai, Bruce Bechdel.

Bruce é, ele mesmo, o espelho de Alison – algo que ela tenta aceitar e refutar ao longo da obra inteira. A narrativa nos mostra uma reflexão dura e arrebatadora acerca dos anos de infância e juventude da quadrinista. Aos dezoito anos, revelou ser lésbica à família. Pouco tempo depois, o pai se suicidou – e ela descobriu, somente após essa morte inesperada, que ele era bissexual.

bechdel.jpg

Bechdel cria um plasma entre a sua vida e a vida dos outros ao trazer para o nível do texto (e da duplicação em desenho, a materialização) autores como James Joyce, Marcel Proust, Albert Camus, Virginia Woolf, F. Scott Fitzgerald, Oscar Wilde, Colette, entre outros – sem, necessariamente, transformar a HQ em masturbação intelectual intransponível.

A humanidade dos autores que aparecem em Fun Home e a semelhança entre suas dificuldades e as de Bechdel (e as de sua família) acabam sendo o que há de mais cativante nessas relações. E, além de materializar o outro, a autora revisita traumas do início da vida ao desenhá-los – reconstruindo, assim, sua relação com a própria identidade ao confrontar-se com a história e com a sexualidade do pai.

Toda a aparente austeridade da HQ é sempre quebrada pela frieza sarcástica própria de Bechdel, criada em uma família de agentes funerários, tendo vivido sua infância alegre (a parte Fun do título) em uma Funeral Home. Bechdel revê sua história e, junto a isso, repensa a materialidade e a forma dos quadrinhos ao moldar sua narrativa. É esta mistura amarga entre diversão e trauma que proponho a você, caso não tenha lido Fun Home. Tenho certeza que não irá se arrepender.

 

autorretrato (1)

Aline Zouvi é quadrinista, cartunista e escritora. Pesquisou os quadrinhos autobiográficos de Alison Bechdel no mestrado em Teoria Literária (Unicamp). Vencedora do prêmio Dente de Ouro 2018 (categoria Quadrinhos) e finalista do Prêmio HQMix (categorias Arte-finalista Nacional, Novo Autor e Publicação Independente), é colunista do blog Balbúrdia. Mais sobre ela em instagram.com/alinezouvi

 

 

 

Curta a página de O Quadro e o Risco no Facebook e siga o blog no Instagram!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s