Existe uma geração de baby boomers, nascida pouco depois da metade do século passado, que mudou para sempre o quadrinho independente norte-americano a partir da década de 1980. Daniel Clowes, Chester Brown, Seth e os irmãos Hernandez ofereceram uma abordagem mais mundana às histórias, tratando questões do cotidiano de forma direta, sem maquiagem.

Existe um outro cartunista que pode ser considerado herdeiro direto desses caras – sendo tão talentoso quanto eles. Natural de Sacramento, Califórnia, Adrian Tomine (pronuncia-se toe-mi-nay, graças à ascendência japonesa) sempre foi um prodígio das HQs. Começou a produzir desde moleque, logo sendo publicado pela principal editora canadense de quadrinhos, a Drawn & Quarterly. Pouco tempo depois, se tornou colaborador da renomada revista New Yorker.

Daquelas coisas inexplicáveis, apenas um conto seu foi publicado no Brasil – na antologia Comic Book: O Novo Quadrinho Norte-Americano, da Conrad. Entretanto, isso vai mudar (e torçamos para que seja ainda neste segundo semestre, aguarde). Chris Ware definiu o trabalho de Tomine como “quadrinho sobre adultos”, ao invés do simplista “quadrinho para adultos”, já que traduz toda a complexidade da vida madura. Quem sou eu pra contrariar.

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Retrato do artista quando feito por ele mesmo


A rotina tem seu encanto
A típica HQ tomineana tomou forma na adolescência do rapaz (ainda hoje um menino, só 44 anos de idade): enredos curtos, personagens tentando viver da melhor maneira (e muitas vezes falhando miseravelmente nesse propósito), formalismo estético.

No ensino médio, em 1991, criou o zine Optic Nerve, espécie de laboratório para o que faria na sequência da carreira, que durou sete números ao longo de quatro anos. Nem tudo reluz como ouro aqui – algumas tentativas soam exageradas, principalmente as autobiográficas, seja apostando no humor ou no psicodélico. Mas, na ficção, acerta o alvo. A primeira história mostra a paranoia de um desocupado, o dia todo sentado no sofá ralhando com a esposa, em relação ao cachorro do casal.

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Man’s Best, abertura da edição nº 1 do zine Optic Nerve. Duas páginas de um pequeno terror psicótico, desenhado de maneira bem pesada – não sei por que me lembra o David Mazzucchelli experimental

Logo, o autor entraria de cabeça em seus temas favoritos: pequenos episódios do dia a dia de pessoas comuns, pontos de virada em vidas ordinárias. Tudo inspirado pelos filmes de Woody Allen e Martin Scorsese, e pelos mangás de Yoshihiro Tatsumi – com uma grande pitada do cinema independente de John Cassavetes. Tramas que começam repentinamente e terminam sem conclusões, como se os envolvidos cuidassem de seus problemas antes mesmo da página inicial – e seguissem com os afazeres após o the end.

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Com somente dezoito anos, Tomine já fazia caber em uma única página todo um espectro de emoções e possibilidades narrativas, como visto em Train I Ride


Começo de primavera

Embora existisse cuidado com a aparência e conteúdo da Optic Nerve, incluindo a criação de capas coloridas em papel cartão e seção para cartas dos leitores, a “profissionalização” só chega em 1995. A publicação deixa de ser um livrinho grampeado vendido pelo correio e passa a ser editada pela Drawn & Quarterly, ganhando um melhor aspecto enquanto produto (mais páginas, maior dimensão). No interior, uma evolução do que já existia: o formato de contos curtos continua, porém mais refinados, tanto na arte como nos roteiros.

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De 1995 pra cá, saíram quatorze números da revista. Cada nova edição é aguardada como se fossem eventos únicos do quadrinho americano, até pela periodicidade espaçada entre cada uma. Posteriormente, são sempre coletadas em álbuns – quatro, até o momento: Sleepwalk and Other StoriesSummer Blonde, Shortcomings Killing and Dying

Tomine, com frequência, é comparado a Raymond Carver, um dos maiores ficcionistas dos Estados Unidos no século 20. Culpa do estilo seco de escrita, sem cacoetes literários grandiosos, e dos personagens retratados. Ambos têm afinidade por derrotados, traumatizados, quase marginalizados. Seres em luta interior contra si mesmos, coadjuvantes da própria existência, que pouco pensam no mundo exterior por conta da rotina asfixiante.

Também fomos felizes
Um dos trunfos do quadrinista é não fazer juízo de valor a respeito de suas criações. Elas nunca são colocadas como vítimas, nem têm fraquezas exploradas de forma sensacionalista. São quem são, sempre contraditórias, portadoras de várias verdades sobre si.

Em Summer Blonde, por exemplo, o solitário Neil culpa os demais pelos fracassos amorosos enquanto invade vidas alheias. O tímido jovem Scotty, em Bomb Scare, se mostra tão cruel com os amigos como aqueles que lhe fazem bullying na escola. Harold, o bonachão escultor amador de A Brief History of the Art Form Known as “Hortisculpture”, não perde oportunidades de revelar o machismo e racismo escondidos em sua personalidade – mesmo sendo casado com uma mulher negra. Shortcomings, única história longa no formato graphic novel do autor, também apresenta protagonistas dúbios, desprezíveis, humanos – no caso, o casal Ben e Miko Tanaka lutando pra reviver um relacionamento morto.

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Quando Tomine coloca duas pessoas pra conversar, elas falam como indivíduos, com voz própria. É como se as palavras usadas só poderiam sair da boca delas. Apesar de não ser um diálogo naturalista à la Brian Michael Bendis (cheio de interjeições, pausas, repetições etc.), passa veracidade às cenas, ajudando na construção das relações, ponto fundamental das tramas


Fim de verão

Por algum tempo, o Tomine adolescente usou traços sujos, cheio de hachuras e formas brutas. Logo superou essa estética, caminhando para o espectro oposto, com linhas limpas, meio-tons e sombras chapadas. Seu estilo, então, passou a gritar a influência de Daniel Clowes.

Mestre em captar emoções, é capaz de desenhar feições para qualquer sentimento humano imaginável. Algo necessário para os roteiros centrados nos diálogos, no jogo de ação-reação entre pessoas. Até a composição das páginas toma parte nisso: os vários quadros (espalhados em grids de três ou até quatro colunas horizontais) dão um ritmo mais lento à leitura e ajudam a escoar o texto.

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A partir de 2011, o artista entra naquela que pode ser considerada a terceira fase de sua arte. O formalismo estético em preto e branco dá lugar a um misto de estilos, incluindo cores. A mudança começa tímida em Scenes from an Impending Marriage, coletânea de esquetes sobre seu casamento feita com traço solto e cômico, e explode nas Optic Nerve 12 a 14 (que formam o excelente álbum Killing and Dying). Cada uma das seis histórias é contada de um jeito diferente – vinte quadros por página, uso somente de recordatórios, redução dos cenários ao mínimo de detalhes possível, imitação dos layouts de tiras de jornal etc.

Vontade de fazer algo novo também é sinal de maturidade – e Tomine, faz tempo, é um dos artistas mais maduros das HQs mundiais. Em breve, os leitores brasileiros finalmente descobrirão isso.

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(Antes de ir embora, vale clicar aqui pra conhecer também as capas e ilustrações feitas para a New Yorker. Narrativas completas em uma única imagem é algo para poucos – e, definitivamente, algo para Tomine)

 

 

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3 comentários sobre “Adrian Tomine, autor de quadrinhos sobre adultos

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