A Wikipédia define o termo “ensaio” da seguinte forma: “texto literário breve, situado entre o poético e o didático, expondo ideias, críticas e reflexões éticas e filosóficas a respeito de certo tema”. Não é algo simples de se criar, até por escancarar a opinião do autor a respeito de determinado assunto – geralmente relevante ou polêmico.

Não sei se dá pra definir como um gênero das HQs, mas que existe algo semelhante a um “quadrinho-ensaio”, isso existe. Como seria uma obra nesses moldes? Basicamente, um experimento de linguagem.

Se não me falha a memória, o primeiro que li a se enquadrar nessa definição foi À Sombra das Torres Ausentes, do Art Spiegelman. Vale contextualizar: desde as fatídicas eleições presidenciais norte-americanas em 2000, quando George W. Bush se elegeu em circunstâncias polêmicas, Spielgelman estava inquieto, analisando se voltava ao mundo dos quadrinhos após anos somente redigindo textos e criando capas para revistas. Aí, chega o ainda mais fatídico 11 de setembro de 2001.

Na época, Spiegelman morava na parte Sul de Manhattan, razoavelmente próximo ao local onde se erguiam as Torres Gêmeas do World Trade Center. As imagens dos aviões se chocando contra os prédios – e dos prédios indo ao chão – mexeram com ele. Alguns dias depois do atentado, criou uma antológica capa para a New Yorker em parceria com Françoise Mouly, sua esposa e editora do periódico. Mas faltava colocar mais para fora, expurgar os demônios que lhe rondavam, assim como tinha feito em Maus com relação ao Holocausto.

torres capa

Capa da edição nacional de À Sombra das Torres Ausentes, publicada pela Cia. das Letras

O mal-estar que sentia foi aliviado graças a um mergulho febril em sua mídia por excelência. Spiegelman devorou tiras clássicas americanas do final do século 19/início do 20: de Os Sobrinhos do Capitão (Katzenjammer Kids) a Hogan’s Alley, passando pelos trabalhos do ilustrador Gustave Verbeek, Little Nemo in Slumberland, Pafúncio e Marocas (Bringing Up Father). Da leitura desse material, nasce À Sombra das Torres Ausentes.

Publicado primeiro no jornal alemão Die Zeit, o projeto se baseia em tiras gigantes, do tamanho da página de jornal. A política é o centro aqui: o autor vocifera contra republicanos e democratas, faz observações sobre os costumes americanos (em especial o culto à violência), expõe as feridas de um país que, atacado em seu próprio solo, não tinha ideia de como se reconstruir. Tudo sob um ponto de vista paranoico e depressivo.

Ao mesmo tempo em que homenageia os clássicos antigos, Spiegelman faz uma reflexão profunda sobre a evolução da América ao longo de um século. Antes, as tiras remetiam a uma nação em pleno desenvolvimento, com certo resquício rural, pré-capitalismo predatório; hoje, revelam como o famigerado “sonho americano” virou pesadelo.

(Clique na galeria abaixo para ver as páginas da HQ em tamanho maior – ou abra cada uma em diferentes abas do navegador)


Ano passado, duas grandes HQ nacionais também tomaram rumos originais para comentar um estado de coisas. Tá aí uma boa definição: se existe algo de concreto no conceito de “quadrinho-ensaio”, é a vontade de falar sobre um assunto atual, no calor do momento, sem ter a necessidade de chegar a uma conclusão definitiva – ou a qualquer conclusão. Incidente em Tunguska, de Pedro Franz, nem mesmo apresenta um tema.

Tunguska é uma região remota da Sibéria, na Rússia. Em 1908, o local teve mais de mil quilômetros quadrados de floresta destruídos pelo impacto de um objeto celeste. Pela ausência de evidências sobre o que de fato havia acontecido, várias teorias foram desenvolvidas – envolvendo naves alienígenas, experimentos de Nikola Tesla e buracos negros. Anos depois, descobriu-se o óbvio: tudo culpa de um asteroide, que explodiu antes mesmo de tocar o chão.

A HQ, na verdade, só tem alguma relação com esse acontecimento por cause do nome. Franz está mais interessado na questão da inexplicabilidade de alguns fatos da vida, de um mistério impossível de ser resolvido. Falei lá no começo que esse tipo de quadrinho está mais para um experimento de linguagem. E não existe melhor exemplar disso do que Incidente em Tunguska.

tunguska

Capa já revela um projeto gráfico diferenciado: nem mesmo o nome da obra de Pedro Franz é mostrado

Nenhum personagem é desenhado: somente seus diálogos aparecem em recordatórios, geralmente em páginas duplas, com cenários reais ou abstratos ao fundo. Por não vermos seus rostos, podem ser qualquer pessoa, em qualquer lugar. As conversas giram em torno de assuntos banais, mas escondem muito mais do que aparentam.

São relacionamentos terminados, casais que hesitam em revelar sentimentos, amigos tentando definir o que é arte ou analisando as letras de um disco. No meio disso, exercícios de composição gráfica a lá Mondrian ou Malevitch e um traço que transita entre o total abstracionismo e o barroco (pela quantidade de detalhes de alguns desenhos).

A mensagem de Franz pode ser difícil de ser captada – e essa é a graça da coisa. Nessa obra, um dos grandes mistérios do século 20 se transforma em algo tão complexo como discutir uma relação ou tentar entender o mundo que nos cerca. Vale lembrar que o projeto é um trabalho de mestrado do autor, do qual também fazem parte uma exposição (realizada em Florianópolis no ano passado) e dissertação homônimas. Ou seja, chamá-lo apenas de quadrinho não condiz com a grandeza dessa ideia.


Apocalipse Nau
, de Eloar Guazzelli, segue por esse caminho: buscar respostas para uma questão impossível de ser respondida. Qualquer sinopse dessa HQ encontrada pela internet cita o atentado ao jornal francês Charlie Hebdo como assunto central. Acontece que Guazzelli não aborda o tema de forma direta.

O livro se divide em capítulos curtos, semelhantes a pequenas crônicas. Parecem tiradas de um caderno de esboços, dado seu traço bastante livre, sem qualquer preocupação estilística. Esse formato espontâneo nasce da situação em que Guazzelli se encontrava quando soube dos assassinatos em Paris: em férias, na praia, com a família.

A partir daí, de maneira semelhante ao ocorrido com Spiegelman, o artista discorre a respeito do impacto de uma tragédia global na vida de um indivíduo. Em meio a um turbilhão de pensamentos, retorna à infância para relembrar como descobriu as atrocidades da ditadura militar, questiona seu próprio trabalho enquanto artista, comenta a relação com os filhos ao mesmo tempo que analisa o mundo violento no qual terão de viver.

A principal pergunta de Guazzelli fica nas entrelinhas: pra que criar um quadrinho – ou qualquer tipo de arte – se existem coisas mais relevantes e urgentes pelo mundo afora? A resposta é o próprio Apocalipse Nau. Sem racionalizar aquilo ao nosso redor, perdemos o contato com o real. Ainda mais num país de extremos, como o nosso (nesse sentido, a HQ não envelheceu um segundo desde seu lançamento). Viver sem pensar nem mesmo é existir, como já disse René Descartes.

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Capa de Apocalipse Nau, da editora NÓS


Com certeza, existem outros “quadrinhos-ensaio” por aí. Mas já me estendi demais sobre o assunto. Que surjam outras obras instigantes como essas – e que nos façam pensar, discutir, discordar, refletir.

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6 comentários sobre “Spiegelman e o “quadrinho-ensaio”: experimentos com a linguagem das HQs

  1. Tá aí gênero (se a gente pode chamar assim) que eu não conhecia muito bem, mas por meio desse texto fiquei bem interessada, principalmente por ser um gênero mais subjetivo. Vou procurar ler esses quadrinhos citados para conhecer melhor.

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  2. Muito inteligente essa percepção, Thiago. Tem uma outra HQ que pra mim é ensaística, mas aí menos no sentido visual e mais no todo e no texto que é Você é minha mãe?, da Bechdel. Ela tem essas características de tentar embasar teoricamente um pensamento, usando de sua experiência pessoal, suas memórias, sem medo de ser ficcional ou de não chegar a uma conclusão.

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  3. Seu texto me lembrou o “Asterios Polyp” do David Mazzucchelli. Foi a primeira HQ que li que me fez pensar que o roteirista, no caso o Mazzucchelli, realmente tentou experimentar. A forma como ele desenha e/ou constrói os quadros é parte da narrativa. Impressionante.

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