Tem algum tempo que não falo de gibi nacional independente. Por isso, aqui vão breves comentários sobre três obras interessantes – duas bem recentes e uma lida no início do ano passado.

Kitnet, de Ivo Puiupo

Pintura, fotografia, animação… Difícil achar campo artístico no qual Puiupo não atue, mas inegável que é nos quadrinhos onde ele mais brilha. Suas HQs tendem a um experimentalismo gráfico interessado em desnortear o leitor pelo contraste entre texto e imagem – basta se lembrar do excelente Gume, um dos melhores lançamentos do FIQ 2018, e Óbice, coletânea de pequenas crônicas poéticas sobre o cotidiano. Ano passado, pelo selo Sapata Press, lançou Kitnet, obra que reflete, no calor do momento, a respeito da paranoia gerada pela pandemia. A urgência do assunto casou com a tradicional descompressão narrativa do autor, fazendo emergir uma temática recorrente em suas obras: a batalha entre realidade e inconsciente. Toda a monotonia do protagonista – o próprio artista vivendo isolado em seu apartamento – só é quebrada pelo barulho da campainha, tocada várias vezes ao dia por alguém nunca encontrado. O medo do desconhecido, a solidão, a ameaça palpável chamada Covid-19: são várias as questões que se empilham em uma situação que pode ou não estar acontecendo. Puiupo tem a capacidade de fazer trabalhos com subtextos escondidos, para serem descobertos ao longo de diversas leituras. Kitnet é mais um exemplo disso. A HQ pode ser lida na íntegra aqui.


Dias, de Lume

Outra obra que engana em relação a seu verdadeiro significado é Dias, de Lume (pseudônimo artístico de Luiza Nasser). Na primeira página, um recordatório indica que vamos acompanhar a trama de um filme, contada por algum narrador onisciente. A personagem principal, uma jovem mulher que retorna a seu país após um longo período no Oriente, busca se reconectar com a vida de outrora. Reencontra a família, vai a um show, conversa com estranhos, mas nada parece preencher seu vazio, talvez de cunho existencial, talvez por ela não ser capaz de reproduzir as sensações vividas durante o retiro do outro lado do mundo. São comentados ainda o estado de espírito da garota, suas vontades e inquietações. E aí, quando menos se espera, toda a metalinguagem, a questão da “obra dentro da obra”, é colocada em xeque e o leitor enfim entende o que estava lendo. Ao esconder suas intenções à vista de todos, Lume transforma um relato simples do cotidiano em algo com frescor narrativo – inclusive, dá até pra fazer um paralelo entre essa jornada e o medo da retomada da vida social pós-Covid. As páginas de Dias não foram feitas em papel ou no digital, mas sim em madeira, num estilo próximo ao da xilogravura, o que também atua na construção de sentidos: num enredo sobre buscar a própria identidade, nada melhor que as pessoas e cenários retratados serem, quase sempre, silhuetas.


Eu Elemental, de Daniel Brás

As cores saturadas da nova HQ de Daniel Brás chamam a atenção logo de cara. Para um livro a respeito da ligação humana com a natureza, a escolha por tons fortes representa a vida pulsante encontrada no planeta – fazendo a fauna, a flora e as águas desenhadas saltarem das páginas. E, parando para pensar, o quadrinho segue o “grande tema” dos outros dois gibis analisados, que é chegar ao âmago de si próprio, respondendo à pergunta “quem sou eu?”. Se Kitnet e Dias apontam para um psicologismo ligado à pandemia, Eu Elemental trata de outra pauta indispensável à humanidade: a conversação da Terra e de seus recursos. Logo no começo, o protagonista Euclides vai a um lago para mergulhar, literal e metaforicamente. Ele se transforma em peixe, macaco, ave, experimentando as diversas perspectivas da existência; em contato com a natureza, aprende como todo ser está interligado num único e grande sistema – caso um elemento esteja fora de sintomia, tudo pode desmoronar. As sequências sem texto são construídas com bastante fluência, enquanto certas cenas pecam um pouco pela verborragia. Nada grave, mas mais momentos de silêncio seriam bem-vindos. No fim, a história volta ao começo, tal qual o aspecto circular da vida e a capacidade humana de se reconstruir. Alcançaremos um estado de elevação para mudar nossa trajetória? Aí já é outra história…

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