Faz tempo que Rafael Coutinho deixou de ser apenas “o filho da Laerte” ou um mero quadrinista. Hoje, ele é um verdadeiro empreendedor, um dos mais importantes fomentadores do quadrinho nacional. A lista de iniciativas nas quais está envolvido é enorme: fundou a (já finada) editora Narval Comix; criou A Nébula, plataforma Medium para autores publicarem seus trabalhos online; foi um dos organizadores da antologia O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015, ao lado de Clarice Reichstul; é curador da Des.Gráfica, feira anual realizada no Museu da Imagem e Som de São Paulo (MIS), voltada à produção independente e experimental de HQs.

E quando alguém com esse currículo, que ainda inclui obras cultuadas como Cachalote (feita em parceria com o escritor Daniel Galera) e O Beijo Adolescente, anuncia projeto novo, todo mundo para pra escutar – mesmo que esse projeto tenha sido revelado há vários anos.

As duzentas páginas de Mensur representam sete anos de trabalho de Coutinho. É fácil uma das obras nacionais mais aguardadas da última década e uma das apostas mais óbvias para a lista de melhores leituras em 2017. E o melhor: a espera para lê-la está acabando, pois a Companhia das Letras fará o lançamento oficial no dia 16 de março.

A trama trata de violência, morte e a jornada de um personagem para vencer seus conflitos pessoais. Gringo, protagonista da história, praticou uma luta alemã originada no século 15, chamada mensur, na época da faculdade. Palavras de Coutinho: “Anos depois, ele vaga por diversas cidades brasileiras, um tanto sem rumo, disposto a trabalhar no que pintar, ainda mantendo uma forte e conturbada relação com a luta”. Saber apenas isso já está de bom tamanho antes de ler a HQ, segundo o autor. “Mais do que isso, estaria entregando demais”.

A seguir, confira a conversa que tive com ele por e-mail. Falamos sobre as dificuldades de um longo processo de criação, os significados desse tema um tanto quanto obscuro e a pressão de entregar um quadrinho esperado ansiosamente pelos leitores.

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Capa de Mensur: HQ tem lançamento marcado para o dia 22 de fevereiro

 

Rafael, Mensur já tomou bastante tempo de sua vida. Lembro que estava anunciado pra 2011 ou 2012. Por que esse projeto teve uma gestação tão demorada?

Rafael Coutinho: Foi meu primeiro voo solo longo e tive que aprender a fazer sozinho todas as etapas de algo assim. Montei um livro de cem páginas, então percebi que eu e a história pedíamos por mais espaço, mais tempo narrativo. A coisa foi se avolumando e ganhou no seu primeiro ano pelo menos 140 páginas. A partir daí, por ter excedido o prazo que havia calculado e negociado com a RT (detentora dos direitos pra audiovisual) e também com a editora, tive que me virar por conta, sem o dinheiro que tinha pra fazer o livro. Ou seja, encaixar o projeto no meio da enxurrada de coisas que compõem meu dia-a-dia como artista freelancer e (na época) dono de uma pequena editora.

A editora não ia bem, exigia muito do meu tempo. E aí as coisas começaram a se empilhar: O Beijo Adolescente, que se tornou uma forma de fazer quadrinhos e pagar parte dos meus custos, projetos de ilustração de livros, como As Aventuras do Barão de Munchausen. Em cima disso tudo (ou por baixo, não sei dizer), tive dois filhos no período – Valente, hoje com quatro anos e meio, e Ariel, com um aninho. Nos mudamos também de bairro, buscando mais qualidade de vida (o que mudou completamente a minha vida, vale dizer).

Então, o Mensur se tornou um projeto muito próximo da minha rotina, porque minha relação com o livro era essa: estar sempre muito longe de acabar, mas pensando e criando mecanismos pra produzir um pouco, aos poucos. Emocionalmente, era como se eu vivesse o livro nos meus tempos livres, em conversas solitárias enquanto resolvia pendências como ir ao banco, a reuniões ou mesmo ao banheiro. E pra que não virasse um peso insuportável, desenvolvi uma relação de resignação simbiótica. Tudo o que vivi e senti nesse período se expressou de certa forma no livro.

Essas mudanças pelas quais você passou talvez sejam a principal dificuldade de uma obra feita a longo prazo, né? Afinal, tudo muda na pessoa: a forma de desenhar, as motivações, as crenças etc. Algumas obras desse tipo se tornam maravilhas (me vem à cabeça o Here, do Richard McGuire). Mas também existe o risco de elas fugirem muito do conceito inicial. Talvez o artista possa perder o tesão da coisa, não dá pra prever. Quanto do Mensur original, lá de trás, permanece no quadrinho que será lançado?

A estrutura principal se manteve, mas, depois disso, quase nada. Escrevi seis tratamentos de roteiro e apresentei ao meu editor André Conti – e lembro claramente do quanto mudei em função das considerações dele e do meu entendimento que o conteúdo estava ruim. Não sei se é algo que de fato melhora, sinceramente, e não sei se eu teria feito uma boa história se tivesse mais um ano confortável pra trabalhar direto nela. Confesso que depois de todo esse tempo, ainda não sei se sou um bom contador de histórias, porque é um processo que transborda, sabe? Em muitos momentos, não tenho pleno domínio do que está acontecendo ali. São vidas que não são a minha, as desses personagens, e preciso entendê-las ao máximo para que me deem satisfação, para me sentir seguro em falar disso ou daquilo sobre eles.

Sinto claramente que precisei aprender coisas a respeito da minha vida e da dos outros pra poder resolver pontos do livro, como se o roteiro precisasse da minha maturidade pra se resolver. Imagino que isso vá num crescente, mas sei que não se aplica a todos os projetos narrativos. Estruturas longas trazem consigo esse tipo de relação, na qual não é só resolver esquerda e direita, estruturar roteiro e descobrir texturas, cores narrativas, atos, clímax, cenas. Vira essa outra coisa, que não é melhor ou pior.

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Qual foi o momento em que você olhou pro trabalho e falou “é isso, terminei”?

Semana passada (risos). Houve muitos momentos em que tive esse estalo. Eu chamaria de “falsos positivos”, porque realmente celebrei o fim umas dez vezes. Talvez seja um mecanismo que encontrei pra me manter empolgado com o processo – ou eu realmente terminei e não consegui aceitar isso, esticando um pouco mais. Mas com quadrinhos há muitas etapas, né? Teve o momento de o roteiro se encaixar, depois os rascunhos, arte-final e depois um longo período de pequenos ajustes, páginas extras. O “final final mesmo” foi realmente em dezembro, quando finalizei as últimas páginas, imprimi, li e senti que estava quase tudo ali. Mas, se eu deixasse, teria pelo menos mais umas quarenta páginas. Então, o “terminei” é mais um “precisa terminar aqui” do que a sensação de ter resolvido tudo.

A HQ chega cheia de expectativa por parte do público, de outros quadrinistas e especialistas em geral. Afinal, seu nome tem um peso enorme. Como você encara essa pressão de entregar algo que não pode ser menos que excelente?

Gosto da pressão. Tento me exigir ao máximo em todos os projetos que faço, mas não acho que seja assim tanta pressão. Sou quadrinista e artista gráfico em um país que não dá muita importância pra leitura, muito menos pra quadrinhos. Em brincadeiras com amigos, chamamos o quadrinista famoso de “celeridade j”. Ninguém vai pra A Fazenda, pro BBB. Essa é a maravilha, e a angústia, da coisa de ser autor e artista no Brasil: você tem de ser muito resiliente e jogar um jogo de entrega, ao mesmo tempo em que precisa perceber a insignificância de si mesmo num contexto mais amplo, popular. Pode ser muito libertador abordar temas e aspectos da criação que seriam intragáveis se passados no Faustão, porém é triste constatar esse limite no alcance do público.

Mas há nuances nessa relação ainda não exploradas. Creio que todos os autores brasileiros sentem esse zeitgeist de corrida do ouro. Há minas de ouro não encontradas e que nos motivam de alguma forma a produzir, nos organizar. Sou movido por todas essas coisas: um desejo de ser reconhecido fora, de ganhar prêmios e ficar rico fazendo o que gosto, ao mesmo tempo em que nutro a busca por transcendência, essa consciência de que tudo isso é bobagem e o importante é achar um fluxo criativo constante, de conexão com meus colegas, sintonia com minha vida, meu trabalho, filhos etc. Tenho muita sorte, essa é a verdade. Tenho muito espaço pra fazer só o que gosto – e busco isso sempre. Nunca parei. Minha mulher e família me dão muita força, além das pessoas que me chamam pra fazer trabalhos inusitados e com muito espaço para uma criação livre, não pautada.

Mensur é uma obra de fôlego, algo que não víamos vindo de você desde Cachalote, em 2010. Comente mais sobre as diferenças do processo criativo comparado a uma narrativa seriada, como Beijo Adolescente, por exemplo.

Desenvolvi um trejeito de deixar que a história se auto-conduzisse, que fosse movida por outras estruturas que não as formais da construção narrativa. Talvez todo projeto grande seja assim, como escrever um romance ou fazer um documentário, não sei. Mas sei que achei algo novo, e quero manter isso e entender melhor a questão para outros projetos.

Não sou inocente de dizer que histórias longas são melhores porque mais profundas, pois não é uma relação causal. Elas exigirão do autor de uma forma muito aguda, demandando muita paciência – e podem te derrubar num buraco depressivo. É como conviver com uma dívida de banco impagável ou com uma doença que melhora e retrocede: aquilo começa a te consumir por dentro e todos ao redor são afetados por isso. Pelo menos foi assim pra mim, como já comentei. Gosto de estruturas mais curtas, mas foi importante saber como é conviver com uma história por tanto tempo. Só não sei se quero repetir.

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Queria agora analisar a trama, que tem o mensur como ponto central. Por que escolher como tema algo tão obscuro e específico? Qual a relação entre essa luta alemã do século 15 e o Brasil atual, já que o protagonista percorre o País?

Não sei porque… Me senti atraído quando vi em um livro do Peter Gay, O Cultivo do Ódio, e passei a pesquisar com mais afinco. Senti algo ali e apresentei a proposta pra Cia. das Letras e para a RT. Não sei como funciona isso de escolher uma história ou tema, gosto de pensar que fui escolhido. A prática do mensur me remetia muito a questões sobre masculinidade e violência. Durante um tempo ao longo do processo de roteiro, tentei pensar a luta no contexto alemão. Mas ficou claro pra mim, logo nos primeiros meses de pesquisa, que eu não tinha recursos suficientes (e nem interesse, pra ser sincero) para desenvolver a trama dessa forma. Sempre quis que minhas histórias falassem com nosso País – ou sobre ser brasileiro, de uma forma ou de outra. É onde me sinto mais conectado e confortável.

Logo depois de ter lido sobre o mensur, fui pra Ouro Preto com o Daniel Galera participar de um evento literário, e foi quando entrei em contato com essa coisa das repúblicas da cidade. Visitei uma delas e fui muito bem recebido, conversei muito sobre como funcionavam – e tinham várias semelhanças com a estrutura hierárquica das fraternidades da Alemanha que praticam a luta. Foi ali que consegui enxergar a trama principal.

Pra mim, o mensur está muito próximo de outros rituais violentos amplamente praticados no Brasil, como MMA, trotes universitários, rodeios, competições variadas. É sobre o mundo dos homens – ou melhor, o mundo machista – e ritos de passagem. A agressão como demonstração de resistência e virilidade, tanto física como no âmbito das relações sociais. E numa outra ponta, estupros coletivos, violência policial, até mesmo práticas de corrupção em grupo, nos quais sempre a maioria dos participantes é masculina. Sempre achei que havia algo aí que conversava com o mensur, mesmo sendo um pouco difícil de se fazer a ligação. Mas, que fique claro, não acho o mensur igual ao estupro coletivo, por exemplo: falo apenas na relação entre ritual de violência e masculinidade.

Acredito que após essa batalha cansativa para publicar Mensur, você se afaste um pouco da produção de quadrinhos, se dedicando mais aos projetos nos quais sempre está envolvido. Estou certo ou errado?

Vou dar um tempo nos livros, a não ser que apareça algo muito especial pra ilustrar. Mas pretendo realmente tirar este ano para outras coisas, voltar a estudar. Cheguei a um ponto no qual esgotei minhas soluções gráficas e narrativas. Preciso desse tempo, pois não quero sentir que estou fazendo mais do mesmo.

Continuarei conduzindo o que já estava em andamento, como a parceria com o MIS e a Des.Gráfica. O evento acontecerá novamente no fim do ano e agora estamos conversando sobre uma programação de cursos coordenada por mim, se tudo der certo. O projeto envolve fazer e imprimir livros também: desenvolvi junto ao MIS um site de pesquisa para publicações, chamado CMYX, que mede a intenção de compra dos leitores. Como ficou pronto no fim do ano passado, agora é a época de começar a falar e divulgar o projeto.

Sei que continuarei a viajar à convite do Sesc para dar aulas, além de divulgar meus livros e lançá-los pelo Brasil. Há também alguns eventos de quadrinhos dos quais pretendo participar, então já tá muito bom por enquanto. Mas a sanha de começar algo novo vai pintar em algum momento, só espero conseguir segurá-la até o fim do ano. Preciso viver um pouco sem aquela sensação de dívida. Foram dez anos contando e produzindo histórias e livros sem parar. Quero voltar a pintar, pensar projetos plásticos, escrever, ler mais. E quero muito ser um pai mais presente, curtir meus filhotes enquanto ainda são pequenos.

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2 comentários sobre “Os detalhes da produção de Mensur – entrevista com Rafael Coutinho sobre sua nova HQ

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