Wagner Willian é um caso bastante curioso no cenário dos quadrinhos brasileiros. Até o começo do ano passado, ele era um desconhecido nesse mundo. Tinha, sim, reconhecimento em diversas outras cenas, como a de artes plásticas e literatura. Afinal, já tinha publicado o elogiado livro de contos ilustrados Lobisomem Sem Barba. Porém, pertencia a outra turma.

Corta pra hoje em dia: lançou Bulldogma, considerado por muitos (eu incluso) um dos projetos mais relevantes das HQs nacionais nos últimos anos; recebeu prêmios diversos (como o Grampo e HQMix); teve sua nova obra (O Maestro, o Cuco e a Lenda, ainda em produção) escolhida para o ProAc, a ação de inventivo cultural do Estado de São Paulo; e, acima de tudo, se tornou um nome querido na indústria.

Conversei com o Wagner por e-mail a respeito dessa virada profissional, detalhes de O Maestro, a semelhança dos quadrinhos com diferentes formas de arte e outras coisas mais.

 

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Ilustração completa da capa e contracapa de O Maestro, o Cuco e a Lenda

 

Wagner, como avalia essa mudança na sua carreira em tão pouco tempo?

Eu demorei muito para tomar coragem (porque é disso que se trata) e fazer minha primeira história em quadrinhos. As HQs possuem uma linguagem poderosa, com imensas possibilidades narrativas, e exigem um trabalho dispendioso, lento, em que tudo é muito difícil.

Mas ver um universo tomando forma, personagens ganhando vida, é algo verdadeiramente mágico, contagiante, por conta dessa questão demiúrgica que a linguagem permite. Senti que estava na hora de me arriscar nessa seara. E, ainda bem, tem dado certo. Só posso avaliar isso com um sorriso largo no rosto.

Você é um artista que experimenta as mais diversas mídias possíveis. Os quadrinhos vão se tornar algo frequente na sua vida? Ou, após dizer o que pretende nesse formato, vai partir pra outras formas de arte?

Virei um viciado, obcecado por cada fase do processo de um quadrinho. Já tenho pelo menos três projetos que estão em polvorosa. Agora, eu penso muito em conteúdo/forma, conceito/estética ou como queira considerar. Pra cada narrativa, existe o suporte que melhor a expressa. Às vezes é a música – em outras, pode ser a escultura. Quando achar que aquela ideia, história ou sentimento se expressar melhor pela linguagem das HQs, estaremos lá mais uma vez.

Uma dúvida que me ocorreu aqui: dá pra aplicar alguma técnica ou linguagem das artes plásticas, por exemplo, aos quadrinhos? A produção em diferentes mídias é muito diferente uma da outra?

Toda linguagem possui similaridades. Compor uma página é compor uma pintura. Criar pontos de interesse dentro de uma narrativa é conduzir o olhar para uma cor mais forte ou forma destoante dentro de uma tela. No processo de pintura a óleo, muitas vezes clareia-se uma área, mas sem acrescentar branco a tinta e, sim, escurecendo o arredor.

Traduzir isso para um diálogo em quadrinhos, por exemplo, seria embrutecer a linguagem dos outros personagens, mantendo o principal intacto em sua fala normal. E essa pequena fala acabaria ganhando um brilho a mais. Faz sentido?

Faz, sim. Tudo parte das emoções de uma obra, né? De o quê pode ser realçado pra gerar certo sentimento no leitor. Falando agora sobre seu novo projeto, O Maestro, o Cuco e a Lenda. Você escolheu um tema e abordagem completamente diferente de Bulldogma. Antes, fez uma história cheia de referências, metalinguagem, que fala sobre a própria dificuldade de fazer arte, algo estranho e surreal digno da mente de David Lynch. Agora, vai pra um enredo mais infantil, uma espécie de aventura mesclando a descoberta da vida pelo olhar de crianças e comentários sobre a relação com a família (ao menos, isso é o que eu entendi vendo tudo o que já foi divulgado). Qual a maior dificuldade em transitar por entre obras tão distintas? Ou melhor, existe dificuldade nisso?

Não o classificaria tanto como infantil. Há elementos de aventura, fantasia, alguns detalhes históricos, mas predomina um teor sombrio por algo que foi suprimido pela memória. E, não, não existe dificuldade em trabalhar com obras distintas. O que existe são as questões que cada gênero aborda.

 

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Página de O Maestro, o Cuco e a Lenda: assim como em Bulldogma, Willian segue brincando com diversas formas de diagramação

 

E de onde veio a motivação/inspiração para fazer O Maestro?

Estava trabalhando em uma HQ chamada Silvestre. Narra a história de um velho caçador que se depara com várias lendas enquanto avança em uma caçada mortal. Uma delas é a do cuco. Eu gostei tanto dessa lenda, havia ganhado tanto corpo, que preferi retirá-la da história e desenvolver algo só pra ela.

A princípio, seria um livro infantil. Mas a história queria mais. Virou um quadrinho de 40 páginas. Esse cuco insaciável não se conteve, queria mais e mais! 140, 180. Terminei, então, nas 208 páginas completamente esgotado. Enfim, o bicho se deu por satisfeito. Por enquanto.

Esse “por enquanto” foi misterioso… Queria comentar sobre seu modo de divulgar sua produção. Pra Bulldogma, você preparou uma campanha de marketing invejável, poucas vezes vista no mercado editorial nacional como um todo. Pro Maestro, seguiu compartilhando páginas finalizadas, por vezes até pedindo sugestões dos leitores e colegas de profissão. Por que considera tão importante interagir com o público antes mesmo da obra pronta?

É um jeito de fazer com que o leitor participe, sinta que faz parte daquilo também, uma forma clara de tornar essa relação mais próxima. Acredito que isso traga uma sensação valiosa para ambos.  E, se realmente existir esse valor emocional, qual a vantagem? Mais leitores? Espero que sim.

Mas existe um limite nisso tudo. Uma história ou um personagem não deve estar à mercê da vontade de seus leitores. Quando muito do autor. A trama deve se encerrar em si mesma, e a vida dos personagem cabe estritamente a eles. É broxante ver o autor alterar sua obra para não desagradar o público, algo que acontece em algumas novelas, seriados e sabe-se lá deus onde mais.

Por falar na relação de uma obra com o público, o Brasil vive um momento assustador em relação a liberdades individuais e artísticas, vide o fechamento da exposição Queermuseu em Porto Alegre, peças teatrais sendo banidas por juízes pela fato de “ofenderem a moral” etc. Sua arte, principalmente ilustrações e quadros, é provocadora, indomável. Como se sente em relação a isso tudo que está acontecendo?

É lamentável todo esse cenário, esse inferno moral e tacanho. Imoralidade para mim são os 51 milhões que foram desviados de um benefício sócio-cultural, por exemplo. Como você disse, são tempos assustadores. À arte não cabe censura, não cabe regras. Ela é amoral. Seus critérios estão acima do julgamento comum, não é boa nem má. Ela apenas é. É arte. E é justamente essa distância do humano, ainda que seja um mergulho para dentro dele, que a faz ser algo sublime.

 

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O Maestro foi seu projeto aprovado para o ProAc. Por que decidiu buscar esse incentivo? Como foi o processo?

Eu entrei nessa área dos quadrinhos pelo caminho inverso. Geralmente, publica-se de maneira independente e depois se parte para uma editora. Atualmente, tenho recebido um ou outro convite para falar sobre o mercado e tal. Preciso ter conhecimento de causa para isso. Então, resolvi me auto-publicar, conhecer o fabuloso mundo do lado de lá. O ProAc é um dos melhores editais por tornar essa realização possível, assim como o Rumos, do Itaú Cultural, que também abriu portas pra essa linguagem. Espero que outras iniciativas privadas e governamentais surjam cada vez mais.

Como todo edital, fica essa expectativa e ansiedade imensas de estar concorrendo com outras obras incríveis – e os dias até o resultado final parecem eternos. Muita energia é despendida nesse processo. Mas essa é a graça da coisa. Foi a minha terceira tentativa apresentando o mesmo projeto. Quando vi meu nome entre os selecionados, a felicidade não coube em mim.

A presença de quadrinhos em editais desse tipo dá um maior reconhecimento pra mídia como um todo. Pra você, as HQs já são reconhecidas como forma artística? Se não, quando irá acontecer? Ou melhor, esse reconhecimento como “grande arte” é mesmo necessário?

Até onde eu saiba, os quadrinhos são a Nona Arte. Mesmo estando na nona posição, não fica atrás de nenhuma das outras. Pelo contrário, é uma das mais completas. Pode ter texto ou não, sua narrativa pode ser sequenciada ou simultânea, ou mesmo não ter narrativa alguma. É abstrata, é figurativa, invoca todos os gêneros, subverte conceitos. Para mim, a resposta é óbvia. É uma arte imensa! E qual a necessidade desse reconhecimento pelo público geral? Acho que retorno à questão dos editais e incentivos na área.

Quais quadrinhos você leu ou está lendo ultimamente? O quê tem chamado sua atenção?

Um dos autores que me impulsionou a fazer quadrinhos foi Daniel Clowes. Recentemente li o Paciência, publicado pela Nemo. É algo vibrante! Dérangés, da Violaine Leroy, vi poucas páginas e estou completamente fascinado. Já te falei que abri uma editora? Pois é. Quem sabe… Qualquer coisa do Ward Zwart, que desenhos! E tem essa polêmica em cima do Sadboy, do Berliac, outro monstro de narrativas. Dos nossos, cito O Mar, do Diego Sanchez, e Mensur, do sempre grande Rafael Coutinho.

 

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Um comentário sobre ““A vida dos personagem cabe estritamente a eles” – entrevista com Wagner Willian

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