Das HQs nacionais a serem lançadas ainda este ano, Angola Janga é de longe a mais esperada. Marcelo D’Salete passou onze anos preparando a obra, que narra a jornada do Quilombo dos Palmares, um dos momentos mais ricos e esquecidos da história brasileira.

Cumbe, seu quadrinho anterior, é um desbunde: forte não só pelo desenrolar dramático dos personagens no contexto da escravidão no Brasil, mas principalmente pela linguagem, aliando longas sequências sem texto a um uso apuradíssimo da transição de quadros, para criar sentimentos que não podem ser desenhados ou escritos. Nem parece que D’Salete é um jovem com menos de quarenta anos de idade, tamanho controle narrativo e maturidade.

Com mais de 400 páginas, dá pra esperar muito de Angola Janga – cujo nome significa “pequena Angola” e era a forma como os próprios quilombolas chamavam Palmares. Conversei com D’Salete por e-mail a respeito do processo criativo da obra, a importância do resgate histórico desse tema e as implicações sócio-culturais que levam o Brasil a varrer pra debaixo do tapete questões raciais.

 

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Capa de Angola Janga, lançamento da editora Veneta

 

Marcelo, no começo do ano eu bati um papo com o Rafael Coutinho, que também gestou uma obra por anos a fio – Mensur tomou sete anos da vida dele. Qual a relação que você acabou criando com sua HQ?

Angola Janga foi realmente um projeto de longo prazo. Em certo momento, não pensava muito no fim, mas apenas em cada fase e capítulo. Finalizei a maior parte do livro em agosto deste ano, mas ainda foram necessários muitos acertos e revisões. Penso que foi a própria obra que escolheu o momento certo de ficar pronta e ser lançada. Pra mim, sem dúvidas, é meu principal trabalho até agora.

O Brasil evita ao máximo entender/encarar/analisar a própria história. Palmares, por exemplo, é abordado como pouco mais que uma nota de rodapé dentro do contexto histórico do período colonial. Qual a importância de recontar a trajetória dessa “nação dentro de uma nação”?

Não é a toa desconhecermos a história de Palmares. O Brasil pensado e propagado pela elite busca sistematicamente apagar e escamotear as narrativas dos grupos desfavorecidos. Grupos que, em todo caso, são maioria. A invisibilidade dessas narrativas é parte do dispositivo de subcidadania e exclusão que impera desde o momento pós-abolição. O objetivo da elite que temos no poder é a perpetuação dessas formas de opressão.

E dá pra dizer que uma dessas formas de opressão é o obscurantismo no qual nosso País está mergulhado. Sua obra vem para clarear aspectos escondidos de nossa história, inspirar a resistência contra o sistema dominante. Até que ponto a arte consegue ser elemento político-social? Você pensou, em algum momento, que Angola pudesse representar algo assim?

Espero que possa ajudar a revermos nossa história e identidade. A arte, por si só, é apenas um elemento. Mas em sociedade ela pode inspirar e catalisar ideias e movimentos sociais importantes. Mais do que nunca precisamos de debate e de ideias. O obscurantismo sobrevive a partir da negação do debate e da propagação do medo irracional.

Ainda sobre o presente, antes de falarmos sobre o passado: existe hoje uma “fetichização” da escravidão, uma espécie de saudade nostálgica desse período, como você bem relata nesse texto sobre um rótulo usado pela cachaça Ypióca – e existem outros exemplos, incluindo grifes de roupas usando estampas que remetem ao período. Isso tem relação com a onda reacionária que ameaça cobrir o Brasil e o mundo, fazendo crescer a divulgação de ideias racistas/higienistas/fascistas?

Isso mostra como ainda temos diferentes modos de ver nossa sociedade. É um campo em disputa. Os discursos do movimento negro contemporâneo foram importantes para desconstruir o mito da democracia racial e combater a ideologia de uma colonização suave, sem violência. Entretanto, isso não é consenso por aqui.

Há grupos reacionários que ainda tendem a ver a colonização como um processo tranquilo e positivo. Isso justifica o racismo, a manutenção de grande parcela da população sem direitos e a naturalização da morte ou aprisionamento de jovens negros e pobres. Rafael Braga, Cláudia e Amarildo não são casos isolados: expõe a sistemática selvagem de um poder elitista ao extremo.

Agora, sobre o longo período de pesquisa feito por você. Como foi se voltar para a realidade vivida em Palmares na época? E qual a relação desse passado com o presente?

Desde quando iniciei as pesquisas, notei a importância de encontrar as narrativas certas para falar desse tema. A colonização e escravidão foram processos de extrema violência. Os antigos quilombos eram estratégias de sobrevivência dos grupos negros. E, para além de Palmares, eles existiram em todo o Brasil, grandes e pequenos, de diferentes formas e meios. Compreender essa história é compreender nosso País, nosso continente e, inclusive, a relação com os antigos reinos africanos por meio do Atlântico Sul.

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Você teve contato com comunidades quilombolas que tentam sobreviver atualmente?

Nesses anos, tive contato com alguns amigos quilombolas, sim. Sempre peço para contarem sobre a origem da sua comunidade. E isso é algo extremamente complexo e diversificado. Quilombos de fugitivos, como Palmares, é apenas uma forma de quilombo.

Os remanescentes atuais muitas vezes são de terras, às vezes doadas, que sofreram perdas e invasões devido à ação de fazendeiros poderosos. Em muitos casos, isso resulta em histórias de extrema violência contra essas comunidades. Vimos isso acontecer recentemente em Charco (MA) e Iúna (BA). Hoje, com a demora da titulação dessas terras, a violência no campo tem aumentado dramaticamente.

Quais fatos descobertos durante a pesquisa foram surpreendentemente inéditos para você?

Sobre Palmares, muitos: a tentativa de paz com Ganga Zumba; a forma como o local continuou mesmo depois da queda da capital Macaco, em 1694; os inúmeros personagens; o contato entre palmaristas e colonos da região; a participação do Terço dos Henriques na luta contra Palmares; o uso de soldados brasileiros nas duas margens do Atlântico, de Pernambuco até Angola… Enfim, o século XVII ainda é algo bem desconhecido pra nós.

E é de Palmares que surge um dos personagens nacionais mais icônicos, porém pouco celebrados: Zumbi. Por que ele não é encarado como herói nacional?

A região faz parte de disputas simbólicas acirradas em nossa história. No século XVIII e XIX, era apenas um caso extraordinário e, na visão da elite, perigoso. No século XX, Palmares começa a ser interpretado de outro modo, inclusive por intelectuais negros. Zumbi se tornou herói a partir de uma forte articulação do movimento negro, porém esse discurso ainda não é aceito nem reconhecido por toda a sociedade. E Palmares rompe, em muito, com o discurso de escravidão passiva adorado pela elite brasileira.  É uma disputa que ainda está em processo.

Sobre o enredo de Angola Janga: quão fiel é o elemento histórico e quanto de liberdade poética você adicionou?

Procurei ter o máximo de liberdade ao imaginar a história. Essa é uma narrativa muito pessoal. Quase tentei construí-la sem diálogos, mas acho que ainda não estou preparado para isso. Um dia quem sabe.

Apesar dessa liberdade, minha intenção era falar também do período e do conflito. Foi incrível imaginar e construir personagens como Zumbi, Ganga-Zumba, Zona, Acotirene, Andala, Domingos Jorge Velho. E, claro, um dos principais, que é o mestiço Antônio Soares, partidário de Zumbi.

Já que citou a questão de histórias sem diálogo: seu quadrinho anterior, Cumbe, é de longe uma das maiores experiências narrativas feitas nos últimos muitos anos no Brasil. Esteticamente, dá pra comparar Angola com Cumbe? O que você buscou na parte narrativa dessa nova obra?

Eu gosto muito do poder e das possibilidades do silêncio nas HQs. Angola Janga foi uma possibilidade de expandir esse dispositivo. Por outro lado, precisava também conseguir contar bem a história. E, diferente de Cumbe, minha cobrança em relação à legibilidade e entendimento foi grande. Em todo caso, penso que consegui um equilíbrio importante.

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Por falar em Cumbe, a HQ está rodando o mundo: saiu na França, Itália, Portugal e agora chega aos EUA pela Fantagraphics. Qual a importância desse reconhecimento internacional?

E o livro também foi publicado na Áustria e Alemanha. Percebo que há um interesse por essas narrativas. Fico feliz em saber que as pessoas podem conhecer um pouco mais sobre nosso País, história, cultura e conflitos. Essa narrativa, vale lembrar, não é apenas nacional, mas envolve todo o Atlântico, no mínimo.

E como é o processo de adaptação de uma obra para ser lançada em outras línguas?

Depende do local. Tive uma conversa longa com a ótima tradutora do Cumbe para o alemão, a Lea Hübner. Mas isso nem sempre é possível. Em todo caso, vale relatar, há termos utilizados nesse quadrinho que tornam a tradução e adaptação para outra língua algo complexo. A palavra “negro”, por exemplo, em outro contexto, pode assumir diferentes conotações.

De uns anos pra cá, artistas brasileiros se habituaram a contar histórias mais longas, passando das 150, 200 páginas (Cumbe mesmo tem umas 170). E isso não era algo comum por aqui – diferente de várias partes do mundo, onde esse formato de “obra de fôlego” existe há décadas. Tem alguma explicação pra essa nova tendência?

Não saberia dizer com certeza. Mas, talvez, esses trabalhos maiores tenham relação com o formato livro, algo que despontou entre nós nos últimos quinze anos. Histórias longas para publicação em banca são mais arriscadas em termos de mercado, creio. Já na livraria, esse tipo de publicação pode alcançar um público maior.

Quais quadrinhos e autores mais o inspiraram durante o processo de confecção de Angola Janga?

Difícil resumir. Foram muitos. Essas influências nem sempre são evidentes, mas fizeram parte das minhas leituras e explanações. Alguns são: Marcello Quintanilha, André Toral, André Diniz, André Kitagawa, Peter Kuper, Takehiko Inoue, Taiyo Matsumoto, João Pinheiro, Eloar Guazzelli, Wagner Willian, Rafael Coutinho…

Agora que terminou Angola, tem ideia do próximo passo que pretende dar em sua carreira como quadrinista? Você se embrenharia novamente em um projeto de longo prazo?

Não tão cedo. Tenho dois ou três projetos novos para começar, provavelmente sobre temas mais contemporâneos. Ainda estou estudando assuntos e possibilidades. E essas ideias são pra projetos com pouco mais de 100 páginas. Isso permite experimentar novas possibilidades de desenho e modos de contar.

 

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