Apesar de desastroso em vários aspectos, o ano de 2016 foi positivo para os quadrinhos no Brasil. As livrarias transbordam de materiais nacionais e estrangeiros como eu nunca tinha visto. Por isso, apontar as melhores obras em meio a tantas HQs é uma tarefa bastante difícil – até porque dinheiro não nasce em árvore…

Abaixo, segue a indicação de algumas das leituras mais interessantes do ano passado. Já adianto que deixei passar várias daquelas que poderiam facilmente estar na lista, como Uma Noite em L’Enfer, de David Calil; Os Últimos Dias de Pompeo, de Andrea Pazienza; Ruínas, de Peter Kuper; Desconstruindo Una, de Una; Sopa de Lágrimas, de Gilberto Hernández, entre outros.

Duas judias entram num avião…
propriedade
Regina Segal viaja com sua neta Mica para Varsóvia, na Polônia, com o objetivo de reaver uma propriedade da família perdida durante a Segunda Guerra Mundial. Lá, várias questões do passado da idosa, intocadas por décadas a fio, voltam à tona. A israelense Rutu Modan escreve e desenha A Propriedade, um bem-humorado, melancólico e terno comentário sobre as escolhas forçadas que as pessoas precisam fazer em momentos extremos. Além disso, a autora faz uma análise de como a identidade judaica é encarada nos tempos atuais. A obra foi lançada no finalzinho de 2015, mas é tão brilhante que merece ser incluída na lista.

Contatos imediatos com um buldogue
bulldogma
A ficção se mistura com a ficção em Bulldogma: estamos lendo um quadrinho feito por Wagner Willian ou pela protagonista Deisy Mantovani? A HQ começa falando sobre a falta de foco das gerações mais jovens, nascidas com a tecnologia ao seu redor, e vai se transformando lentamente em ensaio sobre os limites da linguagem dos quadrinhos – e da arte em geral. O autor praticamente cria um gênero aqui, a anti-ficção científica, ao subverter todas as expectativas contidas na trama. Como Deisy relembra a certa altura, a respeito da velha discussão do sentido de uma obra: o que vale mais é a viagem ou o destino final? Nem um, nem outro. Em Bulldogma, o mais importante é mergulhar na psique de uma personagem rica e verossímil, que mais parece sua vizinha e amiga do que um desenho em papel.

A nata brasileira
bernardo
Em Você é um babaca, Bernardo, Alexandre Lourenço faz o melhor experimento com  a linguagem das HQs no ano, introduzindo uma forma de leitura não-linear baseada na posição dos quadros: o primeiro quadro da página 1 tem sequência no primeiro quadro da página 2 e assim por diante. Tudo para criar uma sensação de repetição e conformidade, assim como a vida do protagonista. Quadrinhos Insones, de Diego Sanchez, compila tiras geniais sobre os dilemas da vida juvenil (amor, introspecção, rebeldia). O melhor autor brasileiro também publicou em 2016: Marcello Quintanilha fez Hinário Nacional, com histórias curtas que giram em torno de traumas e medos silenciados dos personagens. Uma delas, a que dá título ao livro, é obra-prima.
Grande Sertão: Veredas, versão de Eloar Guazzelli e Rodrigo Rosa para o clássico de Guimarães Rosa, saiu lá em 2014, em tiragem limitada e caríssima. Somente ano passado ganhou edição mais acessível ao público. Ainda bem, pois a adaptação transforma os jogos linguísticos de Rosa em uma pesada visão do sertão. Impossível não citar ainda Bianca Pinheiro, a maior força feminina do cenário nacional atualmente. Ela teve nada menos que três álbuns publicados: DoraBear – Volume 3 e Mônica – Força.

Image Comics: a casa do trabalho autoral americano
fadeout
A conclusão de The Fade Out, escrita por Ed Brubaker e desenhada por Sean Phillips, mostra que o gênero noir – o verdadeiro noir, honrando a história do cinema e da literatura – está vivo e passa muito bem. Mais que um estilo de história, o noir é um estado de espírito: o mundo é ruim e nada pode mudar isso. Essa minissérie em doze partes narra a investigação do assassinato de uma jovem atriz da “Era de Ouro” de Hollywood – e talvez seja o melhor trabalho da dupla.
Aqui no Brasil, material da Image finalmente é publicado com certa regularidade. Saga, de Brian K. Vaughan e Fiona Staples, chega ao terceiro encadernado. Mas o destaque fica com o primeiro volume em português de The Wicked+The Divine, de Kieron Gillen e Jamie McKelvie, uma viagem maluca sobre adolescência no mundo moderno, fama, imagem e deuses em meio a mortais.

Para o alto e avante
sw
Quando as sagas envolvendo super-heróis já pareciam não importar mais, Jonathan Hickman tira da cartola suas Guerras Secretas. Esse épico coloca um ponto final na trama iniciada pelo escritor anos atrás, quando assumiu os títulos Vingadores e Novos Vingadores. Com a ajuda da arte pintada de Esad Ribic, Hickman cria o melhor evento da Marvel ao juntar diversos gêneros, incluindo ficção científica, policial procedural, jogos políticos e drama familiar. Outro grata surpresa a aparecer em nosso País foi a curta passagem de Ales Kot por Bucky Barnes: O Soldado Invernal. O ex-parceiro mirim do Capitão América e ex-assassino comunista agora é a última proteção da Terra contra ameaças alienígenas. Kot pega esse pano de fundo um tanto estranho para escrever sobre as consequências da guerra sobre o indivíduo, além de viajar em conceitos cósmicos, atualizando o trabalho de Jim Starlin para as novas gerações. Tudo isso com os desenhos lisérgicos de Marco Rudy.
E ainda tivemos a conclusão de Miracleman, o trabalho mais aclamado de Alan Moore que quase ninguém tinha lido – a série, publicada ao longo dos anos 1980, esteve no meio de uma enorme confusão por direitos autorais. Se os editores de quadrinhos tivessem sensibilidade, o gênero super-herói teria morrido após Moore finalizar sua passagem pelo título. Ele pega um personagem inglês moribundo dos anos 1950, cópia descarada do Capitão Marvel (Shazam), e o reformula de uma forma madura como jamais havia sido feito até então – e que jamais foi igualado. É a pedra fundamental do herói contemporâneo, é a maior história de herói já contada.

Raio-x dos Estados Unidos
dredd
O ano valeu também por duas belíssimas revisões do “sonho americano”. Juiz Dredd: América, escrito por John Wagner, criador do personagem, mostra como o cidadão comum pode ser esmagado por um estado controlador e desumano. Shade – O Homem Mutável, cultuada série noventista de Peter Milligan pela Vertigo, teve dois volumes publicados, ambos recheados de contracultura e tratando de temas tabu, como o assassinato de Kennedy, o fim da geração hippie e a perseguição aos comunistas.

2017, não nos decepcione. Traga ainda mais quadrinhos para nossas estantes. Amém.

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2 comentários sobre “Algumas boas leituras de 2016

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