Logo no começo de Skim, a primeira graphic novel das primas canadenses Mariko e Jillian Tamaki, a protagonista adolescente Kimberly vai a um encontro de “bruxas” na floresta, com conhecidos mais velhos da melhor amiga. Lá, tem comida, alguém cantando melodias suaves, outro jogando orégano numa fogueira por motivos místicos. Mas o principal momento é sentar em roda e revelar há quanto tempo permanecem longe do álcool. “Você não achou estranho, eles todos falando sobre estarem sóbrios?”, pergunta a menina. “Bom, era também o grupo de AA da minha irmã”, dá de ombros a melhor amiga. Na página seguinte, as jovens descobrem que o ex-namorado de uma colega de escola se suicidou.

É ao redor dessa combinação de fatos mundanos, expectativas frustradas, humor agridoce e surpresas trágicas da vida que os quadrinhos das Tamaki giram em torno. Vencedoras (várias vezes) dos principais prêmios do mercado norte-americano, incluindo Eisner, Ignatz e Harvey, ganharam fama mundial a partir de Aquele Verão, de 2014, publicado no Brasil pela Mino alguns anos depois. O que os gibis delas – sejam os feitos em parceria, individualmente ou com outros colaboradores – têm de tão irresistíveis para crítica e público, mesmo contando histórias aparentemente já contadas?

De carne, osso e celulose
Talvez o motivo do sucesso seja o estilo da escrita da roteirista Mariko. Boa parte de seus quadrinhos se encaixa dentro das histórias coming of age, aquelas nas quais jovens passam por um processo de amadurecimento. Não sei se chegam a formar um subgênero, mas a realidade é que estão por aí há décadas em variadas mídias, com diferentes abordagens – de O Apanhador no Campo de Centeio a Clube dos Cinco, passando por Os Incompreendidos, Juno e O Sol é Para Todos. Natural, então, que os enredos de Mariko se assemelhem a algo que o leitor já tenha lido ou visto. Só que, na prática, a autora faz outra coisa. Moderniza a estrutura básica desse tipo de obra ao mostrar a adolescência do século 21 de forma intimista, a partir do ponto de vista feminino, enquanto foge de sentimentalismos, sem dar lições de moral, sem julgar as atitudes dos personagens. É muito mais um slice of life que uma aventura para descobrir o mundo.

Outra quebra do paradigma acontece ao transformar os protagonistas em meros observadores das questões graves do roteiro. Estão geralmente lidando com as consequências dos acidentes de percurso na vida de pessoas próximas – ao mesmo tempo em que tentam escapar das armadilhas de suas próprias trajetórias. É uma mensagem interessante a deixada pela autora: o fardo da maturidade sempre ronda a leveza da juventude, até que invariavelmente acabam se entrelaçando – e a primeira deixa marcas indeléveis na segunda. De repente, termos como morte, luto, depressão, isolamento, gravidez, suicídio e decepção amorosa passam a fazer parte do cotidiano.

Mariko tem um padrão na forma de narrar: os fatos são mostrados a partir das lembranças e reflexões dos personagens. Os capítulos de Skim são no estilo de entradas em um diário; Aquele Verão funciona como se alguém recapitulasse suas férias; Laura Dean Vive Terminando Comigo (gibi com arte de Rosemary Valero-O’Connell) é contado na forma de e-mails da protagonista para uma colunista de site de relacionamentos. Apesar de isso parecer um cacoete literário, faz sentido, por conta da proposta de ser um olhar do jovem para si mesmo. Dentro desse formato, a fluência do texto se destaca. Os diálogos são mais verossímeis do que realistas – adolescentes não se expressam necessariamente igual a como a roteirista escreve, embora ela escreva exatamente como adolescentes se expressam. Isso demonstra um bom ouvido, uma capacidade de escutar pessoas de verdade e reproduzi-las no papel. Sem exagerar nos trejeitos ou gírias, seus adolescentes soam como pessoas.

Skim
Aquele Verão
Laura Dean Vive Terminando Comigo

De carne, osso e nanquim
Talvez o motivo do sucesso seja o estilo da arte da desenhista (e eventualmente escritora) Jillian. A artista consegue se adaptar ao teor do enredo, usando linhas contínuas ou pinceladas quando necessário. Skim conta acontecimentos mais sérios, e pra acompanhar isso, ela utiliza traços finos e delicados, trazendo a cor cinza para preencher os espaços deixados pelo branco e preto. Aquele Verão, que pode ser lido por uma faixa etária menor, é feito de desenhos mais arredondados, expressões faciais mais estilizadas, além de ser toda em azul. Sua tira de humor online SuperMutant Magic Academy, sobre estudantes com poderes paranormais, se aproxima de um caderno de esboço, como se feita com caneta marcadora.

Já na coletânea Boundless, se destaca seu lado abstrato, impressionista, longe de padrões narrativos. Juntando histórias solo publicadas na internet e em antologias, o livro revela a capacidade de Jillian como cronista de uma modernidade marcada pelas relações digitais e pelo culto à personalidade, à la Adrian Tomine. Toques fantásticos a assuntos do cotidiano, à la Jorge Luis Borges ou Haruki Murakami, dão um peso dramático diferenciado ao que poderia ser banal. No conto The ClairFree System, uma análise a respeito dos padrões de beleza vira uma apresentação de vendas (ou vice-versa); 1.Jenny fala da construção de uma personalidade para as redes sociais; Bedbug mostra como se livrar de uma infestação de percevejos, embora a frustração em relação à vida não possa ser removida com facilidade. Mais uma vez, o foco está em jovens – apesar de não tão novos como os imaginados por Mariko – e seus relacionamentos, decepções, considerações.

Voltando à arte: Jillian é dos grandes exemplos de uma geração de quadrinistas, atualmente ao redor dos quarenta anos de idade, cuja principal característica é não ter característica alguma. A maleabilidade se torna não apenas uma ferramenta de criação, mas de expressão pessoal. Eleanor Davis faz parte desse grupo, ao lado de gente como Ezra Claytan Daniels e Michael DeForge (apesar de este ser um pouco mais jovem que os demais).

Skim
Aquele Verão
Boundless
Boundless
Boundless

Mas talvez o principal motivo do sucesso de Mariko e Jillian esteja nos grandes momentos de narrativa gráfica extraídos dos pequenos dramas da vida. E, com a mesma habilidade, discorrer com propriedade a respeito da existência de jovens mulheres com pouco protagonismo social, sejam elas asiáticas, lésbicas ou alguém considerado fora de um padrão imposto de beleza. Nos quadrinhos contemporâneos, a juventude nunca foi tão doce e dolorosa.

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