Nos últimos anos, uma mulher reinou não só no cenário americano de quadrinhos, mas global: poucos artistas publicaram como ela, num intervalo curto de tempo, tantas obras de qualidade, universais e cheias de simbologias a respeito dos grandes temas da vida (amor, morte, relacionamentos). Ainda assim, só um punhado de pessoas em nosso país deve conhecê-la.

Eu sei que o casal do meio a toa leu. O Plano Crítico, também. O tradutor e jornalista Érico Assis foi além, chamando-a de “a maior quadrinista do mundo”. E ela realmente faz por merecer o título – tanto no aspecto criativo como físico (deve medir mais de 1,80 m de altura, fácil).

Por isso tudo, e por ter lançado um excelente gibi ano passado e já contar com outro engatilhado para o fim de 2019, precisamos falar sobre Eleanor Davis.

Eleanor-Davis-self-portrait

Eleanor Davis por ela mesma

 

Prodígio independente
Aos 36 anos, Davis faz parte do catálogo de editoras especializadas do meio, como Fantagraphics e Drawn & Quarterly. Mas seu negócio mesmo esteve na autopublicação e produção independente em pequenos selos. Em 2007, fazia zines quando foi convidada para a antologia Mome. No ano seguinte, teve uma HQ escolhida para a coletânea Best American Comics (além de desenhar a capa da edição). 2009 marca o primeiro ponto de virada na carreira: venceu o Russ Manning Promising Newcomer Award, prêmio voltado para jovens talentos, entregue durante a cerimônia do Eisner, que já homenageou gente do calibre de Scott McCloud, Kevin Maguire e Jeff Smith nas décadas anteriores.

A mudança de patamar acontece mesmo em 2014 com o lançamento de How to be Happy, compilação de histórias lançadas em vários formatos ao longo dos anos. O livro foi muito bem recebido por público e crítica, estando presente em diversas listas de melhores HQs daquele ano. Esse é o pontapé de uma sequência iluminada de trabalhos, que a estabeleceram como uma das principais forças criativas norte-americanas da última década.

Versatilidade
Não existe uma característica definidora dos quadrinhos de Davis. Ela desenha com lápis, aquarela, esferográfica, nanquim, lápis de cor, digitalmente ou qualquer outra técnica disponível. Usa traços firmes ou soltos, dependendo do enredo. Conta tramas diretas e politizadas, baseadas na realidade, em alguns projetos, enquanto apela para metáforas, cheias de poesia e sutileza, em outros. É verdadeiro camaleão em todos os aspectos, do desenvolvimento do roteiro à arte. Por isso, talvez o atributo mais visível de suas obras seja a capacidade de sempre surpreender o leitor.

Peguemos o conteúdo de How to be Happy, por exemplo:

howtobehappy

In Our Eden mostra um grupo construindo uma sociedade utópica baseada no Éden bíblico – e todos os compromissos e conflitos éticos para tal. Alguns não suportam o peso de uma ideologia, enquanto outros aprendem que ser fiel a si mesmo é tão ou mais difícil

nina

Nita Goes Home também tenta analisar traços do comportamento humano a partir de uma construção social diferente da atual. No caso, um futuro em que frutas são cultivadas em pequenas comunidades, isoladas das grandes metrópoles contaminadas pela poluição. Duas irmãs visitam o pai doente – e as frutas, tal qual brinquedos da infância ou objetos antigos, representam as memórias de um passado idílico, intocado pela vida adulta

 

São histórias mais complexas do que aparentam, alegorias para falar de assuntos sérios sem pedantismo. E aí, do nada, Davis tira da cartola algo parecido com um sketchbook. You & a Bike & a Road é um gibi-diário da jornada de bicicleta que a autora fez, em 2016, partindo da cidade de seus pais no Arizona até sua casa, na Georgia – uma distância de quase 3 mil km. Desta vez, a abordagem é direta, um relato documental dos quase dois meses de viagem feito na urgência do momento – todo dia, ela desenhava um resumo do que tinha acabado de vivenciar. O resultado não poderia ser mais cru.

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O ciclismo é o centro da narrativa. O álbum traz informações relevantes sobre o esporte e o planejamento de uma viagem como essa (incluindo explicações sobre os tipos de bicicleta, cuidados em relação à segurança e alimentação, como encontrar locais para acampar à noite etc.)

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No entanto, há espaço para a artista expor a si mesma de maneira surpreendentemente franca. Em vários momentos, duvida da própria força para concluir a aventura, enquanto as dores físicas se manifestam cada vez mais fortes

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São inseridos também comentários políticos a respeito de imigração, estado policial, machismo. Ao fim, You & a Bike & a Road é uma leitura bastante única: um “feel good comic” que revela a bondade humana em pequenos gestos, mas não se esquece de apontar as sombras que espreitam nossa sociedade

 

Hurt or Fuck, parte do número de estreia da coletânea Now, da Fantagraphics, volta ao estilo enigmático, ao mesmo tempo que mantém um traço sem preocupações estéticas. Vemos um casal em meio a jogos amorosos, daqueles jogados no início de uma relação, a busca por entender os sentimentos, o medo de se machucar que impede a entrega de si mesmo ao outro. É lindo, verdadeiro e arrepiante – tanto pelo lápis banal usado para desenhar como pela construção narrativa, que repete situações e frases dos personagens em contextos diferentes (e dolorosos).

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Hurt or Fuck, da Now #1

 

A melhor história da quadrinista? Eu cravaria a opção acima, não fosse um oponente poderoso: Why Art?, seu livro mais recente, de março do ano passado, uma espécie de ensaio com o objetivo de responder à pergunta do título – por que arte?

Convenhamos, analisar o que é arte, quais seus limites éticos e estéticos, qual seu poder como elemento social, é tão antigo quanto a própria arte. Em tese, a HQ seria mais uma entre tantas obras a abordar essas questões. Sabendo do quão banal o tema se tornara, Davis opta por fugir do academicismo e entrega um texto ligeiro, irônico, quebrando as expectativas do público mais uma vez.

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A primeira parte do quadrinho traz definições engraçadas sobre os “tipos” de arte. Existem os “comestíveis”, divididos em “de gosto ruim, mas bom para você” e “muito doce”. Várias pessoas evitam a primeira categoria, pelo fato de apontarem as mazelas do mundo e não serem de fácil digestão – no entanto, vão correndo se empanturrar com a segunda. Existe ainda a arte “dissimulada”, com grande valor comercial (mas seus criadores podem ficar na defensiva quando confrontados sobre o real valor do que produzem)

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A segunda parte foca na relação artista-obra. Em poucas frases, Davis opina sobre ego, a dualidade entre criação/destruição e a necessidade de sempre criar, não importando as adversidades encontradas. Why Art? é a prova definitiva de uma quadrinista no auge de suas capacidades artísticas

 

Seu próximo trabalho chama-se The Hard Tomorrow (veja a capa abaixo) e será lançado em outubro deste ano na América do Norte pela Drawn & Quarterly. Já é possível ler os três primeiros capítulos, de um total de sete, aqui, por 12 dólares.

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E vale conferir também outros materiais curtos, como:

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Libby’s Dad, sobre infância e violência familiar (a versão digital tem quarenta páginas e custa apenas 4 dólares)

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Love Story, feito para a Hazlitt Magazine, da editora Penguin Random House. Dá pra ler inteiro aqui

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E as adaptações de entrevistas reais conduzidas pelo Bronx Freedom Fund, entidade filantrópica de Nova York que ajuda cidadãos sem condições de pagar fianças por delitos de pequeno porte. Três delas estão na íntegra aqui

 

Ilustrações
Por fim, vale comentar do trabalho de Davis em periódicos, como nas revistas The New Yorker e The New York Times Book Review e no jornal The New York Times, entre outros. Abaixo, uma pequena seleção dessas artes.

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Davis-NYT-Tenant-Protection-bw

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E fica a dúvida: quando algum quadrinho dessa gigante será publicado no Brasil?

 

 

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