Emil Ferris é audaciosa. Em 2017, no alto dos 55 anos de idade, e após parte de seu corpo ter ficado paralisada por conta de uma doença, publicou sua primeira HQ, Minha Coisa Favorita é Monstro. Não foi um lançamento qualquer. Um calhamaço com mais de quatrocentas páginas, recheadas de assuntos densos, discussões artísticas e filosóficas, segredos para serem desvendados. Ganhou prêmios ao redor do mundo, incluindo três Eisner e o Fauve D’Or do Festival de Angoulême, na França.

Como se não bastasse, tem aquele final. Uma imagem e seis palavras que concluem de forma arrebatadora um longo e arrepiante clímax de sonho, formado por imagens fazendo referências a momentos anteriores da história. Um final que, na verdade, não soluciona nenhuma das pontas abertas do enredo. E também adiciona novos mistérios a uma trama sem data para terminar – pois o futuro segundo volume da obra talvez seja lançado no final do ano que vem, talvez leve muito mais tempo pra ficar pronto.

Só alguém corajoso consegue fazer um quadrinho como esse. Só quem não tem medo da monstruosidade da vida seria capaz de criar uma verdadeira conquista temática e estética para essa mídia como Emil Ferris em Minha Coisa Favorita é Monstro.

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Capa da edição nacional de Minha Coisa Favorita é Monstro, lançamento da Cia. das Letras, que conta com um trabalho magistral de adaptação do letreiramento original para o português, feito por Américo Freiria e sua filha, Jessica

 

Contos da Cripta
A simples existência da HQ deve ser considerada um ato gigantesco de amor de Ferris pela arte. A doença que quase a matou foi um dos motivos para iniciar esse projeto – ela teve de reaprender a desenhar com a mão esquerda (e praticamente reaprender a viver). Depois, veio a dificuldade para encontrar uma editora que topasse imprimi-lo. 48 empresas recusaram-no até a Fantagraphics entrar na parada. Teve mais: a primeira tiragem do livro ficou presa por meses num porto do Panamá, por conta de problemas financeiros da transportadora.

E quando finalmente a obra chega ao público, só assombro. Parecia que a autora era veterana do ofício. Parecia que refinou por anos o estilo de narrar antes de lançar sua obra-prima. Nem parecia que comeu o pão que o diabo amassou para publicá-la. Nem parecia ser uma novata à beira da terceira idade. Pois o negócio é o seguinte: Minha Coisa Favorita é Monstro não precisa passar pelo teste do tempo. Já está entre os grandes quadrinhos norte-americanos. E isso numa década de clássicos instantâneos (Aqui, do Richard McGuire; Intrusos, do Adrian Tomine).

À primeira vista, impressiona o escopo do roteiro. Situações pessoais se tornam comentários a respeito de assuntos universais, e vice-versa. A protagonista Karen Reyes tem dez anos. Vive na Chicago do final dos anos 1960 com a mãe e o irmão, uma família com ascendência latina. A HQ reproduz o diário da personagem, menina cheia de criatividade e fanática por histórias de monstros – ela se desenha como uma lobismoça (ou menina-lobo? Gosto mais do primeiro termo). Sua missão: desvendar o assassinato da vizinha, uma misteriosa mulher judia.

A trama policial é apenas uma das ramificações do enredo, que inclui relações familiares, descobertas amorosas, luto, Holocausto, digressões estéticas sobre arte, pedofilia, traumas infantis, gibis de terror, racismo e um punhado de outros temas mais ou menos importantes. Se fosse pra escolher apenas um gênero para definir o trabalho, seria o surrado “história de amadurecimento”. Mas a mistura de diferentes estilos narrativos acaba sendo a característica marcante.

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Cofre do Horror
Karen vai aprendendo na marra o quão pesada pode ser a vida. Na ânsia de descobrir os segredos dos adultos, acaba se vendo presa em meio à monstruosidade de mentiras e violências, impossibilitada de voltar à inocência. É separada da amiguinha de escola, pois “menina não deve imaginar a mocinha do filme ficando com outra mocinha no fim”. Aprende que, algumas décadas atrás, pessoas eram mandadas para morrer em campos de trabalhos forçados apenas por serem de uma etnia diferente. Descobre que gente crescida pode tocar crianças em locais proibidos e fazer coisas ruins para elas.

Tem muito do peso de traumas ocorridos na infância rondando a HQ. A relação direta entre fatos ocorridos nos primeiros anos de vida e distúrbios psicológicos (depressão, fobia social, ansiedade) na fase adulta é comprovada cientificamente. Ferris mostra esse círculo vicioso de humanos fraturados machucando, física e metaforicamente, outros humanos, que por sua vez vão crescer para machucar mais humanos.

Mas o roteiro não se limita a mostrar a maldade da existência. Graças ao irmão, Karen toma gosto por visitar museus. Sinestésica, ela literalmente sente a arte emanando dos quadros por meio de sensações que se cruzam – como o cheiro de “grama verdinha, sanduíche de piquenique com salame e mostarda” ao ver Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, de Georges Seurat, ou o aroma de “lareira” quando na frente de Sabá de Bruxas, de Cornelis Saftleven. A arte transforma-se em refúgio contra a perversidade da realidade.

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SuspensEstórias Chocantes
A parte estética do quadrinho também carrega muito de suas mensagens. A autora desenha todos os espectros de traços possíveis entre o fotorrealista e o rascunho rápido. Isso tudo usando apenas canetas esferográficas – esse livro é um feito gigantesco, não canso de comentar…

O jornalista Ramon Vitral foi ao ponto: Minha Coisa Favorita é Monstro representa uma ponte entre a HQ autoral independente feita a partir da década de 1980 nos Estados Unidos (Art Spiegelman, Françoise Mouly, Daniel Clowes, Charles Burns) e a geração da EC Comics dos anos 1950.

A editora de Bill Gaines foi um tremendo sopro criativo surgido no pós-Segunda Guerra Mundial, representando uma saída aos comics de super-heróis, então em baixa. Um time invejável de artistas, o melhor já reunido sob um mesmo teto, fazia gibis de diversos gêneros para variados públicos leitores. Esse seria o futuro inevitável do mercado. No entanto, começou o ataque de entidades conservadoras aos títulos de terror e suspense da casa, culminando na criação do Comics Code Authority, órgão com objetivo de autorregular o conteúdo das publicações (existia a vontade de outras editoras restringirem o sucesso financeiro da EC, mas o assunto fica para outra hora…).

O underground comix é outra forte influência para Ferris. Impossível negar a marca de Robert Crumb em seu estilo, principalmente nas hachuras e formas humanas. Dá pra enxergar ainda as mulheres da Wimmen’s Comix, em relação à franqueza do ponto de vista feminino na trama.

Portanto, esse trabalho costura três momentos fundamentais do quadrinho moderno americano: a EC Comics e sua diversidade temática; o underground e a abordagem autobiográfica livre de amarras; e o boom autoral independente dos 1980, marcado pela visão amarga da realidade e a fusão entre o relato objetivo e subjetivo.

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O Assombro do Medo
A obra de Ferris é perfeita? Não. Duas ou três sequências se alongam um pouco e começam a ficar enfadonhas, embora voltem aos trilhos rapidamente. Arte não precisa ser livre de falhas, na real. Porém, é tudo tão amarrado, as coisas fazem tanto sentido, que fica difícil não se impressionar. A prosa da artista, usando trejeitos infantis por conta da narradora, oferece um bom ritmo para a leitura. E não tente devorar tudo de uma vez; essa é uma obra que precisa de tempo para ser digerida.

Quase no final da HQ, após ter passado por várias provações, Karen comenta:

Deitei e olhei para o céu. Quando eu apertava os olhos, as estrelas pareciam os fios de pérolas enrolados na caixa de joias da mamãe. Eu só pensava nos segredos que agora eu sei, e também nos mistérios e nas coisas que perdi…

Assim como as aventuras da lobismoça representaram seu amadurecimento forçado, Minha Coisa Favorita é Monstro será uma espécie de rito de passagem para o leitor. Quem experimentar, não esquecerá.

 

 

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