A HQ desconhecida mais influente da história. Here, do ilustrador Richard McGuire, é algo inclassificável: não existe (ao menos, não que eu lembre) nada igual a ela dentro dos quadrinhos americanos. Foi lançada como um conto curto há mais de duas décadas e no ano passado ganhou versão ampliada. Quase anônima, mas ainda assim icônica e revolucionária o bastante para inspirar artistas, do independente ao mainstream, desde a década de 1990 até hoje.

Era 1989 e a edição anual da antologia Raw, editada por Art Spiegelman e sua esposa Françoise Mouly, publicava mais um capítulo de Maus (a aclamada graphic novel sobre o Holocausto só seria concluída dois anos depois). Naquela revista, no entanto, uma história bizarra, com apenas seis páginas em preto e branco, intrigou os leitores.

Chamada Here, apresentava o que acontecia em um canto de sala através dos tempos. Os quadros divididos mostravam o futuro, o passado e o presente daquele local. Tudo misturado em um só único fluxo temporal (essa versão pode ser lida aqui na íntegra; abaixo, uma amostra dela).

Here_1989

here__1989

De repente, uma nova forma de se fazer quadrinhos era criada. O quadro, a menor unidade narrativa dessa mídia, agora poderia ser fragmentado. Com isso, era possível revelar vários pontos de vista diferentes, separados pelo tempo, em um mesmo espaço. McGuire juntou o século 20 aos primeiros momentos de formação da Terra, dinossauros aos índios americanos. Fez um pequeno tratado antropológico sobre a efemeridade de nossas vidas.

A verdade é que Here abriu um leque de oportunidades para os criadores. Chris Ware já comentou que o trabalho de Richard teve profunda influência em sua carreira. Frank Quitely dificilmente teria criado o que ficou conhecido como “diagramação 3D” em We3 se não existissem aquelas seis páginas. O atual gibi do Gavião Arqueiro, da Marvel, feito por Matt Fraction e David Aja, também tem os dois pezinhos na experimentação de McGuire.

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O novo Here: cada canto de nosso planeta é um microcosmo da jornada humana no universo

Chegamos, então, à republicação de Here ocorrida em dezembro passado. O autor vinha trabalhando há anos em uma versão expandida, mais próxima a uma graphic novel. O resultado é soberbo. Agora, não mais pequenos quadros representam o canto de uma sala, mas, sim, páginas duplas inteiras, como pode ser visto aí em cima. O que já era impactante, torna-se fulminante: o leitor tem à disposição amplas janelas para uma nova experiência que atravessa bilhões de anos.

Não existe uma trama, um enredo propriamente dito. A obra é formada por temas que vão e voltam conforme se avançam as páginas – alguns deles já haviam surgido na versão curta de 1989 e são aprofundados aqui: a construção de uma casa, o desenvolvimento de uma família, a mudança nos padrões de comportamento ao longo dos séculos. Momentos aparentemente aleatórios, mas que dialogam entre si, por meio de associação de ideias (a evolução técnica da arte, mostrando um pintor do século 19 e uma sessão caseira de cinema em 1973) ou similaridade temática (mães segurando seus bebês em diferentes décadas do século 20).

A força da HQ, no entanto, vem muito da oposição de imagens. Vê-se a banalidade de uma faxina ao lado de Benjamin Franklin discutindo política; uma festa de casamento sucedida por um velório – e, entre eles, um painel que mostra a natureza no século 13. Essas contradições – piegas, bem-humoradas, ternas, melancólicas – refletem sobre nossa contraditória história.

here2A arte traduz essa inquietação, mudando de acordo com o período abordado. Quando a Terra ainda era uma bola de gás, pinceladas grossas; o tempo atual, por sua vez, é retratado com desenhos feitos no computador e colorização digital. Há ainda lápis de cor, aquarela e outras técnicas.

Em suma, Here fala sobre a inevitável passagem do tempo. É o tempo o fator primordial para as mudanças do mundo. Ao tratar desse tema espinhoso, McGuire repete a façanha que ele mesmo atingiu décadas atrás: revolucionar a mídia em que trabalha ao mesmo tempo em que cria uma obra emocional de múltiplos significados. Ao ler Here, recordam-se a alegria e o peso de ser humano.

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