Há algo de sedutor no reino dos quadrinhos brasileiros: faz um tempinho que profissionais de outras áreas das artes visuais estão se voltando para a produção de HQs. Wagner Willian é um dos principais exemplos. O autor de Bulldogma e O Maestro, o Cuco e a Lenda veio das artes plásticas para se tornar um nome de peso do mercado. Agora, é a vez da renomada ilustradora Luli Penna entrar nesse mundo. Mas, afinal, o que tanto chama a atenção dos criadores?

A resposta está em Sem Dó, da própria Luli, publicada pela editora Todavia. Quase nenhuma outra mídia permite uma versatilidade na linguagem tão grande, um controle total sobre os sentimentos do espectador – só o cinema ganha nesse quesito, pois a imagem em movimento é irresistível. Mas a imagem estática também cativa, engana, emociona, choca. Esse é o ensinamento da artista num dos melhores lançamentos de 2017.

 

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Capa de Sem Dó, da editora Todavia

 

A São Paulo dos anos 1920, momento no qual se passa a trama, é uma contradição enorme. Por um lado, a modernidade vai tomando a nova metrópole de assalto – e pode ser vista no trânsito de bondes, na indústria em desenvolvimento, no estímulo ao consumismo encontrado em propagandas que inundam revistas e rádios.

Porém, hábitos e crenças continuam os de província, principalmente aqueles que dizem respeito às mulheres: elas devem trabalhar em atividades leves e manuais, ser submissas às vontades familiares, ter nenhuma liberdade amorosa.

Os passos da jovem protagonista Lola, apaixonada por um homem recém-chegado à cidade, poderiam refletir a vida de qualquer garota da época. Isso porque Luli se baseia em histórias de família para criar o contexto emocional de um amor indecente perante os olhos recatados da sociedade.

Essa relação entre larga escala (a cidade em ebulição) e intimidade (sentimentos escondidos) se traduz na escolha pelo plano detalhe como elemento narrativo mais importante – aquele close extremo, com o objetivo de mostrar de perto certos aspectos de objetos e pessoas. Cenas quase inteiras possuem apenas esse tipo de enquadramento. A técnica tem tanta força na HQ que muitas vezes nem é preciso ver o personagem: chapéus, roupas e utensílios diversos ajudam a distingui-los uns dos outros.

 

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É como se o leitor, por estar tão perto dessas figuras, tivesse um contato mais profundo com elas, sabendo de antemão o que pensam. Basta um pequeno gesto ou expressão e tudo se revela, sem a necessidade de palavras.

As palavras, aliás, aparecem de forma sutil e inusitada: ao invés de em balões, os diálogos estão em cartelas de fala, as mesmas dos filmes mudos. Uma piscadela da autora para a época da história, que combina deliciosamente com a proposta da obra.

A relação das pessoas com o entorno também tem importância nesse retrato de época. Enquanto o plano detalhe revela questões psicológicas, os panoramas de praças, ruas e fachadas reforçam a mudança física ocorrendo no município. Pois, se Sem Dó pode ser considerada estudo de personagens, vale incluir São Paulo como uma das protagonistas analisadas.

Dá até pra fazer um paralelo entre esse cenário e o Brasil atual: ambos com capacidade enorme para crescer em tecnologia e infraestrutura, mas atrasados em valores básicos de cidadania, respeito e humanidade.

 

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São Paulo é personagem essencial em Sem Dó: aqui, a grandiosidade da estação da Luz vista pelos olhos de um forasteiro

 

E, quando se chega ao final, ainda há tempo para surpresas. Apesar do romance e das observações sociais encaminharem o enredo para um lugar, Luli o leva para um caminho inesperado, alterando toda a percepção que tínhamos do quadrinho até então. Como no livro, que depois virou filme, Desejo e Reparação, uma mentira muda para sempre a relação entre os personagens. Às vezes, o melhor é deixar o passado guardado numa caixa.

 

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