Eu nunca me dou bem com listas dos melhores do ano. Sempre deixo passar aquele livro comentado por todos, aquele filme louvado pela crítica ou aquele álbum que mal nasceu e já se tornou clássico. Admito, sou relapso para comprar (e conferir) obras recém-lançadas. Espero os preços caírem em eventuais promoções – afinal, não há salário que aguente a quantidade enorme de cultura disponível para consumo.

Por isso, não farei uma “lista dos melhores quadrinhos de 2015™”. Ainda não li vários daqueles que, tenho certeza, fazem parte do grupo dos mais incríveis lançamentos no Brasil ano passado. Exemplos: Dupin, do Leandro Melite; A Propriedade, de Rutu Modan; Ardalén, do Miguelanxo Prado; Mate Minha Mãe, do Julles Feiffer, As Aventuras na Ilha do Tesouro, do Pedro Cobiaco etc.

Então, indico a seguir algumas das boas leituras feitas ao longo do ano velho.

O amor, em todas as suas nuances
bluepills
Quando alguém fizer uma obra tão tocante e humana como Pílulas Azuis, por favor, me avise. O suíço Frederik Peeters relata os primeiros anos de sua relação com a esposa. A princípio, nada de mais, não fosse pelo fato de ela possuir o vírus HIV. Com composições experimentais e um traço disforme, que pouco se assemelha ao seu desenho sóbrio e limpo dos últimos anos, o autor mostra como o amor supera o medo, o preconceito, a dúvida. Uma melhores leituras de 2015 – e também da vida.

Mergulho em uma mente perturbada
talco
Talco de Vidro é o mais ambicioso projeto de Marcello Quintanilha. Ao longo de 160 páginas, desconstrói o modo tradicional de narrar, inserindo uma voz onisciente que se mistura à da protagonista, para oferecer um complexo estudo psicológico digno dos filmes de Ingmar Bergman. A dentista Rosângela tem tudo na vida, incluindo um casamento feliz e um apartamento duplex em Niterói, mas vive em função do desprezo que nutre pela prima, uma garota humilde do subúrbio. No fundo, Talco de Vidro fala muito sobre o comportamento mesquinho de uma fatia da classe média alta brasileira. HQ pesada e de peso daquele que hoje é o mais maduro quadrinista brasileiro.

Nacionais em combustão
darkmatter
Que ano impressionante para o quadrinho nacional. Só o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), em Belo Horizonte, por exemplo, contou com mais de 120 mesas de artistas independentes. Ou seja, HQ pra dar com pau. Li poucas dessas, mas duas são fantásticas. Lavagem, do Shiko, é um estudo social do Nordeste profundo travestido de história de terror sobrenatural – já escrevi sobre essa obra aqui. Luciano Salles preferiu a ficção científica em Limiar: Dark Matter, uma viagem minimalista contra o autoritarismo em um futuro distante – que na verdade é mais presente do que parece. Fico impressionado como os álbuns de Salles se assemelham, em temática e em visão de mundo, aos grandes clássicos da ficção distópica, como Admirável Mundo Novo ou 1984. É o homem lutando contra o sistema criado por ele mesmo.

Maravilhas da Image
zero
Comentei alguns dos títulos atuais da Image Comics ao longo do ano (aqui e aqui). Falar bem da editora já virou clichê. Mas não tenho culpa se as séries mais originais do mercado americano são impressas com seu selo.
O jovem roteirista tcheco Ales Kot finalizou Zero, uma trama de espionagem cujas páginas possuem, na mesma proporção, ação desenfreada e diálogos reflexivos sobre identidade, violência e morte. Olho nesse cara: seu talento é do tamanho de seu engajamento político em questões caras como racismo.
Southern Bastards continua a brutal saga do Sul americano moderno contada por Jason Aaron – e que possui colorização genial por parte de Jason Latour, cujo destaque é a exploração da cor vermelha.
Foram só quatro edições de Sex Criminals em 2015. Mas Matt Fraction e Chip Zdarsky continuam entregando um romance maluco com comédia pastelão, orgasmos que congelam o tempo e roubo de bancos.

Super-heróis da narrativa
moonknight
A curta passagem de Warren Ellis pela atual fase do Cavaleiro da Lua, publicada por aqui em dezembro pela Panini, foi um sopro de inventividade: cada um dos seis números era uma história fechada, com diálogos e exposição reduzidos ao mínimo para que as tramas fossem contadas quase que exclusivamente pela arte frenética de Declan Shalvey. O herói enfrenta fantasmas punks e entra em uma viagem alucinógena em meio a corpos decompostos – apenas dois exemplos desse delírio maravilhoso escrito por Ellis.
Mas o grande acontecimento do ano no quesito super-herói só poderia ser o final da já mitológica Gavião Arqueiro (Hawkeye) de Fraction e David Aja. A revista representou um novo paradigma para o mercado, inaugurando a abordagem low-profile que hoje domina os títulos de Marvel e DC. A conclusão amarrou os nós soltos do enredo e ainda fez referências a todos os pequenos elementos narrativos presentes nas edições anteriores (objetos, ações, diálogos). Mais um exemplo do trabalho feito com amor pela equipe criativa. Que tenhamos mais Hawkeyes em 2016.
Preciso citar ainda uma leitura daquelas que mudam vidas. A Panini começou a republicar Homem-Animal, do Grant Morrison, lançando o volume 1 durante a Comic Con Experience. Bem antes, eu li a série completa em uma edição importada. E não estava pronto para aquilo. Tudo o que o escocês viria usar em sua carreira já estava lá em Homem-Animal: tramas mirabolantes, metalinguagem, panfletagem política. É o gibi de super-herói em toda sua relevância social e inutilidade cultural, em toda sua megalomania e intimismo. Clássico obrigatório, como todos os clássicos obrigatórios devem ser.

Inéditos no Brasil (por enquanto?!)
beard
Três graphic novels originalmente lançadas nos EUA em 2014, lidas por mim em 2015 e que poderiam muito bem ser lançadas em português em 2016. Já comentei a obra de arte Here, de Richard McGuire, aqui, num dos primeiros textos deste blog. Confira por lá minhas opiniões. Só gostaria de reforçar minha admiração pela influência silenciosa de McGuire no quadrinho autoral norte-americano contemporâneo. This One Summer, das primas canadenses Mariko e Jillian Tamaki, reinterpreta de forma sensível a tradicional história de adolescentes descobrindo a dureza da vida. Stephen Collins também usou lirismo para falar de preconceito, isolamento e solidão em The Gigantic Beard That Was Evil, no qual a barba do protagonista choca uma cidade asséptica.

Cenário online
watching
Rafael Coutinho criou A Nébula, uma plataforma Medium para quadrinistas publicarem seus trabalhos. Durou alguns meses apenas, mas contou com uma produção de peso dos mais variados autores – Diego Sanchez, Odyr, Magenta King, Pedro Franz, Raphael Salimena e outros feras. Do lado estrangeiro, vale citar a página Subnormality!, de Winston Rowntree, e a história Watching, sobre um viajante temporal que acompanha uma garota doente num hospital.

Ufa! Que 2016 seja tão movimentado quanto o ano que acabou.

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Um comentário sobre “Algumas boas leituras de 2015

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