Este blog completa dez anos de existência hoje. A jornada até aqui foi incrível, pois tive a sorte de acompanhar uma “era de ouro” do quadrinho independente brasileiro. Desde 2015, vi o surgimento de artistas geniais entregando obras do mais alto nível, mesmo sem visibilidade, editoras para dar suporte ou um grande público leitor para financiar suas carreiras.
Aí veio a pandemia e muita coisa mudou para pior (nomes essenciais se afastaram das HQs, enquanto uma produção focada em algoritmos de redes sociais ganhou projeção). Mas, neste instante, começo de 2025, a situação parece estar voltando a um eixo de normalidade – em outras palavras, quadrinhos feitos por gente boa, pelo prazer de fazer quadrinhos.
Para celebrar o aniversário d’O Quadro e o Risco, quero olhar para o futuro. Ao longo da próxima década, quais artistas vão cuidar com carinho da mídia que tanto amamos? Minhas dez apostas estão abaixo, em ordem alfabética. Quis indicar novatos (ou quase) pra você ficar de olho. Daqui a dez anos, me avise se eu estava certo.
Obrigado por ler O Quadro e o Risco!
O santista Atópico é jovem o bastante pra ter crescido sob a influência da Escória Comix e os quadrinhos publicados pela editora, como os de Lobo Ramirez e Victor Bello. Misturando a estética tosca (no melhor dos sentidos) desse tipo de HQ com anime, RPG e cultura de skate, ele talvez seja o artista da nova geração com as ideias mais próximas do trabalho do já veterano Gabriel Goés: enquanto Goés busca recontextualizar o super-herói mainstream, aplicando uma filosofia underground a Ditko, Kirby e afins, Atópico faz o mesmo com o tokusatsu, gênero da TV japonesa baseado em monstros e seres com poderes.
Seus gibis são infestados de personagens bizarros, como pizzas-demônios mutantes (em Jimmy Pizza come o mundo) e morcegos humanoides (Aquamarine). A porradaria se junta a momentos intimistas, nos quais os protagonistas questionam se o caminho tomado em prol de suas aventuras é o correto (como em Topboy X). A bela aplicação de retículas, o uso certeiro de close-ups, cheios de força emocional, e o cuidado em pensar o que ocorrerá em primeiro e segundo plano nos quadros são os destaques de seus desenhos crus.



Ouvi falar dessa brasiliense durante a CCXP 2023, quando apresentou o personagem Jorginho, um homem com estatura e feições de criança que só quer gozar a vida em meio a mulheres e entorpecentes. Desde então, Duda fez algumas das melhores tiras de relacionamento a serem encontradas no Instagram. Sem querer indicar comportamento ou vender empoderamento na busca por likes, a autora brinca de forma autodepreciativa com a ideia de “universo feminino”. Ela está muito mais próxima da anarquia de grandes quadrinistas mulheres esquecidas pelo tempo, como Joyce Farmer e Lyn Chevli, fundadoras da seminal antologia norte-americana Tits & Clits, do que de autoras nacionais famosas por essa temática.
Na recém-lançada Dead Rabbit Bar – Volume 2, coletânea do selo Dead Rabbit, Duda coloca à prova seu espírito zombeteiro na história Renato Russo, eu te odeio!, pequena pérola do humor maluco, com firme condução do enredo e piadas engraçadas. Dá pra perceber que ela é da escola Victor Bello de comédia, talvez menos escatológica, mas capaz de criar cenas que contribuem para a trama e se sustentam pela graça visual e textual.



Frida e Xavier Ramos
O que os irmãos Ramos fazem numa lista de novatos, sendo que criam HQs há uma década? A culpa é deles mesmos: começaram tão novinhos (Frida com 11 e Xavier com 15 anos) que seguem jovens, com um futuro enorme pela frente. Conheci ambos no longínquo 2017, durante a Ugra Fest, finada feira organizada pela comic shop paulistana Ugra Press. Era o primeiro evento no qual tinham mesa própria – e Xavier me disse à época que “apesar de estarmos no meio de vários artistas consagrados, isso não intimida nem um pouco”.
Pois, agora, são os irmãos que precisam ser encarados como quadrinistas relevantes da cena, mesmo morando do outro lado do Atlântico, em Amsterdã. Dos zines xerocados e grampeados com desenhos feitos a caneta (Suco de laranja, Cabeça) a publicações mais “profissionais”, até mesmo com orelhas! (O que eu sei sobre Coca-Cola), passando por uma antologia com tiras de Xavier (Birra) e chegando à atual newsletter assinada pelos dois (chamada Fibra), o leitor encontrará singelos slices of life, histórias sobre temas banais do cotidiano. Sempre achei curioso adolescentes interessados nos pequenos momentos da vida. Anos atrás, Frida e Xavier encaravam o mundo de forma bem pessoal – e esse olhar autoral, que não se leva por modismos, só se desenvolveu desde então.



Um gênero bastante usado no cenário independente é a autobiografia. Eu acredito que nem toda vida é interessante o bastante para virar arte – vários autores não concordam com isso. Porém, Gustavo Nascimento traz frescor a esse tipo de história inserindo nele um nível de ficção, de relato subjetivo. Em um quadrinho feito para a revista Cláudia, por exemplo, ele se desenha num quarto, trocando de roupa para sair, enquanto os recordatórios versam sobre a dificuldade para voltar a conhecer pessoas após um término de relacionamento. Acontece que a obra acompanha uma reportagem sobre tal tema – estaria ele, então, falando a respeito da própria experiência ou se colocando como personagem num cenário hipotético?
Em Lírio, publicado no primeiro número da antologia Harvi, do Selo Harvi, novamente o protagonista (um jovem em processo de mudança de casa, sendo ajudado pelo namorado) ganha suas feições, embora tenha outro nome. Sonhos se misturam ao “real”, em meio a imagens que talvez aconteçam somente na mente do rapaz. As memórias de uma pessoa (ou as do próprio autor) e a superação do passado são a matéria-prima de Nascimento, como visto numa HQ em que conversa com a mãe por telefone, tentando fechar feridas abertas – e os quadros sem cenário vão ganhando mobília, conforme algum entendimento acontece entre os dois. Nuances como essas só fortalecem nossos gibis.



Natural de Petrolina (PE), José Roberto Celestino começou a publicar quadrinhos no início da pandemia – e, mesmo com pouco tempo no ofício, desenvolveu um estilo reconhecível. Usando referência fotográfica e decalque, faz desenhos cheios de pequenos risquinhos, alcançando uma verossimilhança, uma imagem viva, que é até meio inexplicável. No digital, na caneta ou aguada, ele transita entre o fotorrealismo e o cartunesco aparentemente sem esforço.
E mais do que seu estilo, chama a atenção a capacidade de falar sobre o nada, ao mesmo tempo que fala sobre tudo, em HQs curtas, de uma ou duas páginas. Dos três zines impressos, Já te disse que nunca vi o mar? é o menos interessante do ponto de vista narrativo – conta pequenos momentos da relação entre uma criança e uma jovem. As histórias presentes em Birra e Catapora, por outro lado, indicam a preferência de Celestino pela crônica, pelo conto, por diálogos entrecortados, além de mostrar sua reverência a artistas independentes estadunidenses do quilate de Adrian Tomine (especialmente o Tomine mais jovem) e Gabrielle Bell (que também tem traços inquietos). Seus gibis contêm muita potência condensada em poucos quadros.



A multiartista Julia Caus se divide em diversos expedientes: toca na banda Julia e as Choronas; edita o Chorona Zine, que reúne HQs, textos, poemas etc. de diversos autores; e, como os verdadeiros multiartistas, faz gibis de ótima qualidade. Seu trabalho é mais um a ir contra a maré dos quadrinhos sobre comportamento feminino que aparentam vanguarda, embora sejam pudicos e até conservadores – não nos assuntos, mas na forma de abordá-los, pois jogam com a muleta da fácil identificação online para ganhar popularidade.
Em quadrinhos curtos, com poucas páginas, Julia está mais interessada em rir das maluquices que encontra no dia a dia, se horrorizar com a dificuldade do mundo e refletir a respeito de sua realidade de mulher bissexual, tudo ao mesmo tempo. É uma posição punk por excelência, no sentido de ser agressiva e tentar subverter os símbolos de uma “feminilidade” senso comum. E o bom é que seus gibis não se limitam a buscar relevância temática: fazem jus à excelência narrativa das histórias mais doidas de Julie Doucet em Dirty Plotte, e também de Roberta Gregory na revista Naughty Bits, assim como evoca a aura caótica, angulosa, das animações da diretora Victoria Vincent, mais conhecida como Vewn.



Quase tudo são flores, quadrinho de estreia de Karipola (nome artístico da paraense Karina Pamplona), revela um olhar multifacetado da autora para com o tema de sua obra. Ao falar sobre a relação humana com a flor – seja ela no papel de planta ou de símbolo cultural –, consegue abordar uma miríade de assuntos, de feminismo a utilitarismo e capitalismo tardio, sem cair no pieguismo ou na pregação para convertidos. É um verdadeiro quadrinho-ensaio, subgênero tão pouco levado em conta por criadores mais jovens – de cabeça, lembro só de Kael Vitorelo fazendo, e fazendo bem, obras assim.
Ponta de lança de uma geração de artistas nortistas que, com cada vez mais força, se faz presente na cena independente do País, Karipola trouxe vitalidade para a conjuntura atual do “conteúdo no formato de quadrinho”, feito para consumo imediato e esquecimento eterno. Sua HQ, por vezes, caminha entre cenas e comentários que não fariam falta caso ficassem de fora – mas, no fim das contas, são exatamente o que elevam o livro. Em tempos de quadrinho utilitário, feito para o compartilhamento nos stories, que ela continue pensando obras antiutilitaristas como essa.



Se Kainã Lacerda talvez fosse o único quadrinista brasileiro a desenhar atos libidinosos envolvendo animais antropomorfizados, agora não está sozinho na empreitada. Marina Schenkel imaginou sapos fetichistas amantes de BDSM para seu livro Love can hurt, uma espécie de estudo sobre o desejo humano protagonizado por anfíbios, desenhados com diferentes técnicas e gradação de cores.
A produção de Mariana ainda não é extensa: além dos sapos, tive contato com apenas uma história dela, feita para a antologia Encrenca – Vol. 2, da Encrenca Coletiva (selo voltado para gibis de mulheres e pessoas trans). Numa única página, ela constrói um conto hilário, com ritmo perfeito para a piada revelada no último quadro, que desnuda a hipocrisia dos papéis sociais quando o assunto é sexo. Apesar da pequena amostra de suas habilidades, a artista apresentou uma visão instigante de como enxerga a mídia da qual faz parte.



Escrevi a respeito do trabalho de Roberta aqui, ao comentar o primeiro volume de sua série FanFiction, cujo conceito é singular: são fanfics (inventadas pela autora) sobre um seriado policial da TV norueguesa (também inventado pela autora), no qual personagens presos em intrigas românticas tentam solucionar mistérios. Tanto no volume impresso lançado ano passado como nas tiras online, ela utiliza personagens recorrentes para construir um humor suave, misturando clichês de histórias açucaradas a signos, igualmente clichês, dos gêneros do suspense e do terror.
O mais impressionante em relação à quadrinista é acompanhar sua evolução a cada desenho postado na internet. Seu traço ficou, digamos, mais elegante, além de as composições das tiras terem se tornado experimentais, sem diagramação específica. Em poucos meses, Roberta deu um salto de qualidade visual em sua obra. No outro texto, comentei que enxergava um quê de Tillie Walden e Guido Crepax em sua arte, mas estava errado: a direção estética do trabalho dela tomou caminhos mais obscuros, com o uso dos pretos e a decupagem se aproximando das tiras clássicas Trots and Bonnie, de Shary Flenniken, e Mumin, de Tove Jansson.



Adolescente prodígio, assim como os irmãos Ramos foram um dia, Sebastião Dojcsar surpreende pela quantidade de trabalho que já colocou na rua: a trilogia de zines Corpo de Tinta (uma distopia em que o pixo salva o dia), a série Bueiro (compilando desenhos, HQs, colagens e abstrações) e a graphic novel de cem páginas Beto e o Interlux (publicada pelo selo Pé-de-Cabra, com crítica minha aqui). Isso sem falar na capacidade de empreendedor: sua minieditora, a Piranhas, lança artistas parceiros. Parece muita coisa, e é – ainda mais se levarmos em conta que Dojcsar tem nem dezoito anos de idade. Imagina a quantidade de gibi que o rapaz terá produzido daqui a uma década?
Algo revigorante em suas HQs é a inventividade daquilo colocado nas páginas. As histórias ainda são as de um garoto que não alcançou a maturidade, mesclando elementos de videogame, RPG, videoclipe, mas a construção visual não casa com alguém tão novo. Com certeza, teve uma dieta baseada nos papas do underground brasileiro (Fabio Zimbres, Diego Gerlach, Ivo Puiupo), apesar de não se limitar a copiá-los: a versatilidade de Dojcsar para transformar o roteiro em imagens vem de si próprio.



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