O jovem tenente Giovanni Drogo recebe a convocação para servir num forte, localizado na fronteira do país. O motivo: o iminente ataque de um povo guerreiro que pode devastar sua terra natal.  Todos os dias, Drogo e os demais oficiais montam guarda. Meses, anos, décadas se passam. Os inimigos nunca vêm.

O Deserto dos Tártaros, livro escrito pelo italiano Dino Buzzati em 1940, é um clássico da literatura mundial. Encantou até mesmo a Jorge Luis Borges – o mestre argentino referia-se ao autor como sendo um dos nomes “que as gerações vindouras não se resignarão a esquecer”. O enredo simples, resumido ali em cima, esconde uma complexidade tremenda. Em vez de analisar a guerra, comenta a alienação do ser humano com a passagem do tempo. A espera infinita por algo que surgirá pra mudar as coisas – e que jamais chega.

Eles Estão Por Aí, com arte de Bianca Pinheiro e roteiro de Greg Stella, também envereda pelos caminhos da metáfora para falar a respeito de temas profundos. Vida, morte e fé são vistos pelos olhos de criaturinhas bizarras. Assim como nós, não sabem para onde estão indo. Assim como o tenente Drogo, não fazem ideia de como viver.

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Capa de Eles Estão Por Aí, lançamento da editora Todavia. São 216 páginas, no valor de R$54,90

 

Entre o ser e o nada

Ao folhear algumas páginas da HQ, vem logo à cabeça Formigueiro, de Michael DeForge. Ambas possuem desenhos miúdos e pequenos núcleos de personagens que vão e voltam conforme o enredo se desenrola. Mas a leitura não poderia ser mais diferente. O canadense usa humor negro pra denunciar hipocrisias da sociedade. O casal brasileiro vai mais fundo: toca em questões filosóficas, e abre um leque de interpretações.

As várias tramas são protagonizadas por seres que enfrentam o abismo da vida sem se darem conta da falta de sentido de suas ações. Todos habitam o mesmo mundo, eventualmente esbarram uns nos outros, contudo mal percebem o semelhante.

Tem um carinha-meio-vegetal, acompanhado de um carinha-meio-lesma, que precisa chegar a determinado lugar – embora não saiba o motivo da pressa. Duas coisas-minúsculas-que-parecem-minhocas conversam futilidades, e silêncios desconfortáveis pairam sobre elas ao longo do papo. Um carinha-meio-inseto passa por crise de fé. Um cara-gigante-deformado empilha pedregulhos cuidadosamente, sem saber que esse esforço é destruído de forma inconsequente ali perto.

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O absurdo da existência

Dá pra dizer que a obra passa por uma versão estendida e mais densa de Nas Dobras do Mundo – Volume 1, trabalho anterior de Stella (pode ser lido na íntegra aqui). Lá, também estão bichinhos estranhos com sentimentos, lutando pra compreender seu lugar nas coisas. O tom, no entanto, é mais leve. As situações mostradas, não tão complexas.

Aqui, por outro lado, existe uma vontade latente de analisar questões mais relevantes – sem a necessidade de respondê-las. Entram na parada o tédio e a frustração gerados pela falta de perspectiva do futuro; as dúvidas causadas pela religião; a tristeza de cortar laços familiares; a ansiedade trazida pelo amor; a brutalidade da violência sem explicação; a imprevisibilidade da morte.

A forma como isso tudo é narrado conta para o quadrinho fazer algum sentido. A decupagem do roteiro cria momentos de descompressão e compressão: as cenas ora são mudas e lentas, sem ação, desdobrando-se por várias páginas, ora reúnem muitas linhas de diálogo em poucos quadros.

Na arte, Bianca apresenta um traço cartunesco e detalhado, que não se compara a nenhum de seus projetos anteriores. Já disse, e repito: é a artista mais versátil da HQ brasileira. A cada trabalho, revela uma nova faceta artística. Dessa vez, dedica atenção especial às expressões faciais, cheias de sutilezas, e a paisagens amplas, reforçando a pequenez (em todos os sentidos) dos bichos.

Vale destacar ainda os momentos de transição entre os núcleos de personagens. Há poucos cortes bruscos de uma sequência para outra. A leitura fica fluída, valorizando o modo contemplativo com que os temas são tratados.

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O jogo da interpretação

Eles Estão Por Aí ousa ao escolher uma forma livre, porém contundente, de abordar assuntos nada simples. Mais que uma leitura, é uma experiência – e vai do leitor captar as sutilezas. Quem esperar uma aventura típica, com começo, meio e fim demarcados, deverá se decepcionar. Quem souber entrar na brincadeira, e ter paciência pra cavar em busca de significados, encontrará um dos mais fortes e singulares quadrinhos nacionais dos últimos tempos.

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