Três quadrinhos bem-diferentes entre si, feitos por uma só autora, tratando do mesmo tema. Bianca Pinheiro construiu uma trilogia não-oficial sobre famílias disfuncionais – e o impacto disso sobre o indivíduo.

Na sinopse pura e simples, não poderiam ser mais diferentes:

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-Dora é sua primeira HQ, lançada de forma independente em 2014 e reimpressa pela Mino no ano passado, com uma história sobre criança paranormal à la Carrie, a Estranha;

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-Meu Pai é um Homem da Montanha, parceria com o marido Gregório Bert, aplica elementos do suspense psicológico para mostrar uma filha procurando o pai sumido;

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-Mônica – Força é uma graphic novel com a personagem mais famosa dos gibis nacionais.

Cada uma dessas obras possui abordagem própria e traço específico, além de representar momentos bem-distintos na carreira de Bianca – vai de um trabalho produzido via financiamento coletivo a um verdadeiro blockbuster. Porém, a semelhança vem à tona quando se comparam as ideias e até mesmo trejeitos narrativos contidos nelas.

Temática
Reaproximar-se da família é o grande tema dessa trilogia. Os personagens atuam como elementos de reparo. Buscam consertar as rachaduras causadas pelo tempo, por atitudes ou pelo próprio destino. É a tentativa de reencontrar, em seu semelhante, a própria essência.

Em Dora, uma mãe solteira luta para proteger a filha da opressão social – e, ao mesmo tempo, entender o que se passa na mente da criança, já que ela não fala e aparenta ter poderes psíquicos. A menina pode (ou não) ter matado coleguinhas de escola, vizinhos e outras pessoas com a força da mente. Qual o papel da mãe, senão cuidar de sua cria com todas as forças?

Meu Pai é um Homem da Montanha também trata da ausência paterna. Esse pai é uma figura misteriosa, que abandona a família quando a filha (a protagonista) ainda é criança para morar no alto de uma montanha. Anos após esse rompimento, ela vai atrás dele. Não existe resposta para o isolamento auto-imposto (talvez o fim do amor, a busca por uma nova vida e identidade, o ato de assumir uma homossexualidade reprimida etc.), ficando a cargo do leitor a tarefa de criar sentidos.

Por fim, Mônica – Força fala de forma mais aberta a respeito da dissolução iminente do núcleo familiar: o pai e a mãe da dentuçinha estão prestes a se separar. E de nada adianta ser capaz de bater nos amigos folgados que a azucrinam todo dia, sendo que a força física não pode consertar os problemas em casa. Somente o diálogo e a vontade de se entender servem como solução.

O ponto de vista em primeira pessoa
Não existem narradores oniscientes, que sabem tudo. Bianca coloca os próprios personagens para contar sus histórias. Dora é o caso mais óbvio: a mãe relembra os momentos vividos pela filha enquanto dá depoimento a um policial. Ou seja, suas percepções pessoais influenciam fortemente os fatos relatados. Se são verídicos ou não? Só ela sabe.

dora2_biancapinheiro

Meu Pai traz algo semelhante, pois a protagonista conversa consigo mesma durante a estadia na floresta. As recordações têm o objetivo de servirem como elemento emocional do roteiro, apenas acompanhando as ações da personagem – o contrário do visto em Dora, pois lá são as lembranças que conduzem o desenrolar da trama.

meupai_narrativa

O ponto de vista em Força é mais invisível, porém tão contundente como nas demais obras. Com exceção da abertura engraçadinha envolvendo Cascão e Cebolinha apanhando, todas as cenas contam com a presença de Mônica. Ou seja, apesar de o roteiro não contar com narração de estilo monólogo interior (como em Meu Pai), não há dúvidas de que vemos a ação pelos olhos dela.

força_narrativa

Horror como linguagem
No posfácio de Dora, Bianca comenta que não gosta de terror, pois sempre detestou levar sustos. E, mesmo assim, a autora consegue manipular as ferramentas do gênero com maestria. As três obras bebem do horror psicológico – até mesmo Força, a princípio uma história infanto-juvenil, possui um momento de tensão causado por um pesadelo. Acredito que Bianca tenha partido do princípio de que perder os laços com os semelhantes seja um dos maiores medos do homem.

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Nem uma história da Turma da Mônica escapa dos elementos de terror nas mãos de Bianca Pinheiro

Dora é a mais explícita em relação à violência. Vemos corpos se esvaindo em sangue, afogamentos, incêndios. Meu Pai prefere esconder ao invés de mostrar. A sugestão de perigo está presente a todo momento – até que se chega àquela última página surreal e inesperada, que revela um terror de proporções enormes. Mas ambas as HQs se assemelham no uso de sombras para criar suspense – até pelo fato de serem em preto e branco.

dora_mortes

A crueza de Dora é o contraponto…

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…ao clima sombrio e psicológico de Meu Pai é um Homem da Montanha

O silêncio também narra
Pra finalizar a análise, a maior característica da trilogia está no uso constante de sequências sem diálogo. Nelas, as feições dos personagens dizem mais que qualquer palavra.

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2 comentários sobre “Bianca Pinheiro e a trilogia da família disfuncional

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