Chabouté deve ser o quadrinista com a maior autoestima do mundo. Difícil encontrar artista confiante o bastante na própria habilidade para contar histórias que seja capaz de criar algo parecido com Alone. São 264 páginas, de um total de 368, sem qualquer diálogo ou onomatopeia. A primeira fala surge somente após quase 30 dessas páginas; o rosto do protagonista é mostrado pela primeira vez na 109.

E, isso tudo, com uma humildade tremenda. Fica claro que ele não quer se revelar um babaca virtuoso, do tipo que dá uma piscadela pro público e pergunta “viu como sou bom?”. Muito além de entregar ao leitor apenas técnica apurada, esse francês quer mesmo é fazer obras com múltiplos significados e ampla capacidade de reflexão, sem perder a capacidade de também ser entretenimento.

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Capa da edição americana de Alone (o nome original da obra, em francês, é Tout Seul), lançada em julho pela editora Gallery 13. Aqui tem um booktrailer da HQ

Abolir os diálogos (ou diminuí-los ao mínimo necessário) foi a forma encontrada por Chabouté para falar sobre solidão. Não existem nem recordatórios: todas as informações vêm das bocas dos poucos personagens da trama ou dos objetos de cena. Ou seja, o autor não usa elementos “de fora” do enredo para fazer a história andar – como um narrador onisciente, por exemplo.

Dois pescadores comuns acabam se tornando o motor do enredo, pois são eles os responsáveis por revelar no início da HQ as poucas informações a respeito do protagonista – ele mora sozinho num farol no meio do mar; as únicas pessoas com quem conviveu foram os pais, mortos há muitos anos; diz-se até que tem as feições deformadas, como um monstro. Nem seu nome real é revelado.

Há bastante de O Homem Elefante, filme de David Lynch, em Alone. Ambos falam sobre rejeitados pela sociedade por causa de suas aparências. Além disso, usam uma estética pesada, baseada no contraste entre luz e sombra. Mas a principal semelhança está na jornada de autodescobrimento dessas pessoas. Elas também são humanas, apesar de tudo.

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Acompanhamos, então, a rotina dessa figura vivendo numa realidade à parte. Seu único contato com o mundo exterior se dá por meio de um dicionário, com o qual ele passa horas procurando palavras e imaginando os significados. Falar mais seria estragar a surpresa gerada por esses momentos, mas Chabouté ensina como a imaginação pode ser um refúgio contra as opressões da vida.

Há todo um simbolismo criado pelo autor para refletir os sentimentos e escolhas desse personagem: o farol solitário, cercado por água, sem contato com a terra; as gaivotas, livres para ir e vir; o mar, local de mistérios, mas também de renascimento. Os paralelos entre os termos do dicionário encontrados pelo homem e sua existência também reforçam esse subtexto psicológico. Nem tudo precisa ser dito por palavras.

Uma das forças da obra é não cair na mesma monotonia do dia a dia do protagonista. Por retratar uma rotina dura, quase sem mudanças, a leitura poderia ficar arrastada. Isso nunca acontece pois, sempre que o roteiro começa a querer demonstrar sinais de cansaço, são introduzidas pequenas reviravoltas com o objetivo de levar a história para rumos até então inéditos. Assim, a trama está sempre se renovando. Chabouté nunca perde o controle das coisas.

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Até porque é necessário um controle narrativo absurdo para se criar um livro quase inteiro sem apoio de texto. O artista usa e abusa de enquadramentos angulosos ou que fogem do padrão comum – o plongée (de cima para baixo) e o contra-plongée (de baixo para cima) ajudam a modelar o tamanho das pessoas e objetos, deixando-os menores ou maiores, de acordo com a necessidade dramática.

A iluminação também tem grande responsabilidade pela fluência entre os quadros. Luz e sombra guiam os olhos do leitor para o que deve ou não ser visto. Isso tudo traz agitação e dinamismo para cenas aparentemente estáticas e sem grandes emoções.

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Chabouté é um humanista, e isso fica provado em Alone. Sem pregar clichês melosos, sem sentir pena de seus personagens, sem julgá-los, ensina importante lição: a solidão pode ser autoimposta. Sem reflexão, estamos fadados a repetir os erros para sempre. A HQ merece o tão banalizado selo de obra-prima, que deveria ser usado apenas para se referir a coisas como Alone.

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Um comentário sobre ““Alone”: um retrato da solidão pelo claro e escuro de Christophe Chabouté

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