Vamos ser francos: hoje em dia, não é todo mundo que tem a grandeza de espírito para encarar um catatau como Moby Dick. Falo do original, de Herman Melville, escrito lá em meados do século 19, mais de seiscentas páginas, considerado por vários especialistas como “o grande romance americano”. Embora leitura leve e hilária em alguns momentos, não deixa de ser árida e complexa em outros. Clássico incontestável, sim, mas que demanda muito do leitor: tempo, atenção, foco.

Corta. Entra Christophe Chabouté. Em 2014, o artista francês adaptou Moby Dick para os quadrinhos. O resultado? Além de soberbamente ilustrada, a obra traduz o espírito do original tão bem que até parece um trabalho original do próprio Chabouté. Quem nunca chegou perto de Melville estará em boas mãos com ela. E é essa adaptação que a editora Pipoca & Nanquim traz para o Brasil nesta semana. Primeira HQ do autor a ser publicada em nosso País, tem tudo para abrir os olhos do público para a carreira desse grande mestre europeu moderno.

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Capa da edição nacional de Moby Dick, lançada pela editora Pipoca & Nanquim. O volume (que pode ser comprado somente pela Amazon.br, aqui) reúne os dois álbuns da adaptação, lançados na França em 2014

 

Moby Dick já teve várias aparições no mundo dos quadrinhos, pelas mãos de gente grande como Will Eisner, Bill Sienkiewicz, Roy Thomas, Dino Battaglia. Cada uma com diferentes graus de qualidade e complexidade. Dentre esses autores, Sienkiewicz foi quem alcançou o maior êxito, graças à sua arte expressionista. Mas a versão de Chabouté chega para se tornar a definitiva nessa mídia.

O artista não inventa em relação aos diálogos e narrações: usa as mesmas palavras que estão no livro. Isso dá o peso erudito necessário. Melville tinha todo um ritmo e vocabulário próprios, bastante ligados à época na qual viveu, algo mantido na HQ. Fazer alterações aí, por menores que fossem, deixaria os personagens artificiais, menos reais.

E o desenvolvimento desses personagens é tão eficaz aqui como no original. Apesar de, na superfície, ser uma história de aventura, uma simples caçada à baleia, Moby Dick tem muito a dizer quanto mais se mergulha nela. Loucura, destino, vingança etc. Tudo isso, em maior ou menor grau, é trabalhado por Chabouté.

Assim como em Alone, obra-prima magnífica resenhada neste blog na semana passada, o artista oferece profundas reflexões não só pelo texto (que no caso nem é dele), mas principalmente pela decupagem, diagramação e narrativa. A falta de diálogo em certas sequências engrandece o sentimento de isolamento, solidão com água por todos os lados. Feições, olhares, movimentos com o corpo. Os personagens falam sem precisar abrir a boca.

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mar

 

O enredo mostra a busca implacável do capitão Ahab pela baleia branca que lhe arrancou uma das pernas. O inevitável distanciamento entre adaptação e livro aparece na forma de conduzir essa trama: Ishmael, o narrador em primeira pessoa do clássico, se transforma numa figura coadjuvante. Ao invés do rapaz boca grande, com certo humor autodepreciativo e corajoso apenas quando lhe convém, temos um jovem hesitante, gaguejante, cuja personalidade desaparece perto dos demais tripulantes do navio Pequod.

Pode soar estranho para quem já leu o original, mas isso é necessariamente ruim? Para a proposta da obra, não. Chabouté prefere focar nas relações psicológicas entre o capitão, tripulantes e o mar. Pois, se o mar é local de nascimento, de vida, também assume papel trágico, sendo presságio para a inevitável morte. A primeira caçada feita pelo pessoal do Pequod dá o tom violento, do sangue a ser derramado nessa viagem maldita.

Por isso tudo, Ahab acaba se tornando o ponto central da narrativa. Sua obsessão toma forma cada vez mais incontrolável, fazendo com que algumas cenas soem como saídas de um conto de terror. A tinta preta pesada ajuda a criar esse clima sombrio. Por outro lado, o capitão se mostra extremamente humano em determinado capítulo, quando questiona a si próprio a respeito da vida que levou. Uma sequência bastante intimista, desenhada em primeiro plano, com o objetivo de mostrar de perto o rosto dos envolvidos. Esse é o maior momento da HQ, no qual o texto de Melville e a arte de Chabouté se tornam uma coisa só, indissolúvel.

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Com um final poético, brutal, silencioso – e demais adjetivos cabíveis -, Moby Dick mostra como se deve reviver clássicos da literatura, apresentando-os com uma roupagem excitante para uma nova geração de leitores. Agora que a obra de Chabouté já pode ser encontrada no Brasil, já dá pra fazer a pergunta: qual será o próximo lançamento do artista por aqui?

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