A enorme quantidade de títulos interessantes lançada pela Image Comics é inversamente proporcional à quantidade de tempo que tenho para lê-los. Por lá, sempre surgem séries de fôlego ou material curto de qualidade. A seguir, algumas impressões sobre HQs mais recentes da editora – veja outros posts semelhantes aqui e aqui.

Black Magick
Greg Rucka (roteiro) e Nicola Scott (arte)
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Os desenhos da australiana Nicola Scott saltam aos olhos tão logo começa a leitura de Black Magick. Trabalhando com lápis e marcadores, ela cria uma atmosfera preta e cinza que sufoca os personagens – cores aparecem pontualmente, para dar mais força aos momentos relevantes da história. Acompanhamos a detetive Rowan Black, uma bruxa pertencente a uma longa linhagem de feiticeiras. Essa vida dupla de defensora da lei/manipuladora de magia vai bem até bizarras coincidências começarem a expor seus segredos. Greg Rucka escreve esse primeiro arco no formato policial procedural padrão, mostrando investigações sobre sequestros e mortes conduzidas pelo departamento de Black. Ao mesmo tempo, se constrói lentamente um mistério a respeito do passado da protagonista e de uma ameaça cada vez mais próxima. Na real: até aqui, a série não impressionou muito, apesar da arte bastante expressiva. Com um tema desse, não se pode deixar os pés plantados no chão, perto da realidade. Faltou pirar. Fica a promessa de mais magic na sequência, já que forças infernais parecem entrar em jogo. No entanto, o segundo arco ainda vai demorar – os criadores avisaram que será publicado somente a partir de junho.
(Edições lidas: 1 a 5)

The Discipline
Peter Milligan (roteiro) e Leandro Fernández (arte)

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Milligan em boa forma é lindo de se ler. Não que The Discipline seja uma obra-prima, mas está cheia das tradicionais observações sarcásticas do roteirista sobre os ricos, encontradas em seus grandes trabalhos na Vertigo dos anos 1990. Dessa vez, o tema é sexo – mais a questão de status social relacionada a ele do que o ato em si. Melissa Peake é a típica jovem rica, blasé, mimada e moradora de Manhattan passando por crise no casamento (entenda crise como falta de sexo com o marido workaholic). Ela, então, conhece um rapaz europeu (sempre eles, esses depravados) que a apresenta a um submundo sexual bizarro, envolvendo rituais, submissão, seres monstruosos, ordens milenares e morte. Vale mais o sentimento ou o desejo carnal? Milligan talvez esteja interessado na resposta, mas quer mesmo é brincar com essa mitologia maluca. O argentino Leandro Fernández confirma em The Discipline ser o maior sucessor dos traços do mestre Eduardo Risso: seu desenho estilizado faz excelente uso do jogo entre luz e sombra para criar (e esconder) formas. As cores chapadas, praticamente sem degradê, são da brasileira Cris Peter. Grande início para um material com poucas chances de chegar a um público maior.
(Edições lidas: 1 a 6)

Nameless
Grant Morrison (roteiro) e Chris Burnham (arte)

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Nameless saiu originalmente em 2015, no formato de minissérie em seis partes, mas foi coletada em encadernado em 2016 – então, vale citar como material recente da editora. Imagine Grant Morrison fazendo uma história autoral de terror espacial. Impossível dar errado, né? Pois, deu – mas nem tanto. A premissa é clássica no gênero: uma equipe vai até um asteroide em rota de colisão com a Terra para tentar salvar o mundo. Acontece que forças aparentemente alienígenas atuam no local e o que era pra ser a redenção humana se transforma em missão psicótica. A obra se divide claramente em duas partes. As três primeiras edições estão mais voltadas ao horror, contendo o desenvolvimento básico da trama: reunião dos astronautas, viagem e os personagens encarando os primeiros vestígios de um problema impossível de ser resolvido. Na metade final, Morrison deixa de lado essa abordagem para trilhar caminhos místicos, inserindo referências a deuses maias, mitologia polinésia, tarô e cabala. A urgência e o mistério do início se diluem em meio a tanta informação esotérica. Pelo menos, a edição encadernada tem comentários do roteirista explicando suas inspirações. Leigos nessa matéria, como eu, vão se perder em algum momento. Em relação à arte, Chris Burnham faz um trabalho brilhante, detalhista e cada vez mais próprio, deixando de ser um mero artista com traço semelhante ao de Frank Quitely. Sua interpretação para as bizarrices de Morrison não poderia ser mais grotesca e assustadora. Aliado às cores psicodélicas, quase fosforescentes, de Nathan Fairbairn, o desenho é um dos trunfos dessa mini com elementos interessantes e desinteressantes quase na mesma proporção. Uma releitura, já sabendo o que esperar da trama, deve fazer muito bem a Nameless.

Outcast
Robert Kirkman (roteiro) e Paul Azaceta (arte)

outcast

O público não espera receber nada ruim do criador do arrasa-quarteirão The Walking Dead. E, com Outcast, Kirkman entrega uma nova série bastante digna. De forma acertada, o roteirista se manteve no gênero terror, optando agora por uma trama de exorcismo. Kyle Barnes teve a vida abalada por espíritos malignos – sua mãe, ex-esposa e filha sofreram possessões demoníacas. Quando outras pessoas começam a ser possuídas na mesma cidade, o jovem ganha a ajuda do reverendo Anderson na tarefa de entender o porquê dessas manifestações. Ao mesmo tempo, Barnes descobre possuir um estranho poder sobre os espíritos. O desenvolvimento dos personagens é uma das principais preocupações de Kirkman. Por isso, os fatos se desdobram em ritmo menos acelerado, para que o leitor possa entender os sentimentos daquelas pessoas. Os dois primeiros arcos revelam pouco sobre o mistério que circunda o protagonista, mas revela algo ainda mais assustador: o mal pode estar nos lugares mais comuns. O traço indie de Paul Azaceta casa bem com o tema da série, pois foge do fotorrealismo. Algumas soluções de diagramação, como o uso de quadros pequenos para destacar ações, também agradam. Mas o destaque da arte fica por conta da paleta de cores com pouca saturação de Elizabeth Breitweiser, de longe uma das melhores coloristas do mercado americano.
(Edições lidas: 1 a 12)

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Um comentário sobre “O quê a Image anda publicando – parte 3

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