Posso estar terrivelmente enganado – e também contradizendo o título da postagem, mas não me lembro de ter visto alguma vez um quadrinho ser vendido com sua trilha sonora – algo como um cdzinho com instruções de “coloque para tocar quando começar a leitura”. O mais próximo disso poderia ter acontecido em Black Dossier, volume complementar d’A Liga Extraordinária do Alan Moore. O lançamento original da obra teria um LP encartado, contendo duas faixas compostas e cantadas pelo bruxo inglês. Acontece que a ideia não se concretizou por inúmeros motivos – incluindo o rompimento definitivo do autor com a DC Comics. Oficialmente, o disco nunca foi comercializado, porém é possível comprá-lo nessa loja inglesa.

Moore versão crooner dos anos 1950: músicas Immortal Love e Home With You são sobre personagens de A Liga Extraordinária

Nem todo mundo é maluco igual ao Moore para criar canções como material extra de um quadrinho. Mas música e HQ não estão tão distantes como pode parecer. Garth Ennis, por exemplo, gosta de usar letras de composições conhecidas do imaginário popular em epígrafes: citações no início ou final de capítulos de modo a ilustrar os temas abordados. Em Preacher, a primeira das 66 edições da série abre com Time of the Preacher, de Willie Nelson, que fala sobre um pregador obstinado em busca do amor de uma mulher, exatamente como o protagonista Jesse Custer.

No período em que o escritor irlandês passou pelo título Hellblazer, casa de John Constantine, vê-se a repetição desse expediente. O lendário arco Hábitos Perigosos é finalizado em uma página sem falas, somente com um trecho de A Rainy Night in Soho, do Pogues. Os versos agridoces (We watched our friends grow up togetherAnd we saw them as they fellSome of them fell into HeavenSome of them fell into Hell) refletem o sentimento da redenção forçada, solitária, vivida pelo personagem.

hellblazer

Última página de Hellblazer #46

Além dessa função de comentar aspectos de uma história, músicas também podem ser usadas como trilha sonora incidental. Um “som de fundo”, cujo objetivo é criar a ambientação para determinada cena. Lourenço Mutarelli faz isso brilhantemente em Diomedes. No clímax de cada um dos três livros, o autor coloca no rodapé dos quadros o nome das canções a serem tocadas enquanto as páginas são lidas – indica inclusive o momento em que elas devem cessar. Tem um country sombrio de Bob Neuwirth e John Cale, um xote malandro de Tom Zé e uma peça instrumental etérea e assustadora de Ravi Shankar, que acompanham sequências praticamente mudas de ação física.

Importante: não basta o roteirista usar a técnica de forma aleatória. Do contrário, estará fazendo um videoclipe em formato de storyboard, não um quadrinho. A inserção de músicas deve ter função narrativa. Serve para destacar algum momento relevante do enredo, como fez Matt Fraction em Sex Criminals número 2, quando se tem a deixa para o tema do comediante britânico Benny Hill. Já comentei a série aqui, mas vale lembrar que sua premissa básica é tratar o sexo com humor. Por isso, faz todo sentido a alusão a um dos programas pastelão mais famosos da tevê inglesa enquanto o protagonista pré-adolescente tenta fugir de uma loja pornô.

sexcriminals

play na música para a “Benny Hill scene” de Sex Criminals #2 funcionar

Outra série de Fraction, a cultuada Gavião Arqueiro, da Marvel, também possui trilha sonora “oficial”. No caso, o desenhista David Aja cria playlists para cada edição e as divulga em seu blog. Ali, inclui jazz, funk, lounge e psicodelia, gêneros que casam perfeitamente com o clima urbano setentista do gibi. E bem que Joe Casey e Jim Mahfood poderiam fazer o mesmo em Miami Vice, adaptação contemporânea do renomado seriado, publicada pela IDW/Lion Forge. As cores berrantes da arte de Mahfood imploram pelos teclados e sintetizadores dos anos 1980.

Por falar em Marvel, a editora acenou no ano passado com a possibilidade de criar música para as versões digitais de suas HQs. À época do lançamento de Capitão América 2 – O Soldado Invernal nos cinemas, a história que deu origem ao filme foi disponibilizada no aplicativo de leitura Marvel Unlimited com efeitos sonoros e trilha incidental – o vídeo abaixo mostra o resultado da iniciativa. Honestamente, não sei se isso pode dar certo em grande escala – quem comprar edições impressas fica sem a tecnologia? Mas minhas maiores dúvidas são mesmo em relação à integridade da coisa: o próprio autor introduzir canções de acordo com a necessidade da história é bem diferente de transformar essa ideia em mera linha de produção.

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5 comentários sobre “Trilha sonora em HQs: sim, isso existe

  1. Texto bacana, Thiago. deixa eu jogar umas contribuições? a HQ Achados e Perdidos, de Eduardo damasceno e Luis Felipe Garrocho vem com um CD de música pra você ouvir enquanto lê o álbum (https://www.catarse.me/pt/projects/238-achados-e-perdidos). lembrei também que o Terry Moore do Estranhos no Paraíso gravou as músicas que compôs pra série, que o Grant Morrison faz um encaixe primoroso de Boys & girls do Blur no final do primeiro encadernado de Os invisíveis. ah, e vale pôr os olhos em Blues, do Crumb.
    abraço!

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  2. Lendo seu texto, lembrei de Local, em que os autores faziam uma playlist para cada episódio da série. De um número do Monstro do Pântano – não me lembro mais qual, mas é da fase clássica do Alan Moore – com trechos de Voodoo Chile (Slight Return) entremeados na narração. E, claro, da Pior Banda do Mundo, que tem, no começo de cada livro, indicações de discos de jazz que supostamente o José Carlos Fernandes ouviu enquanto fazia aquele volume.

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