Já escrevi sobre a relação entre música e quadrinhos há um tempo, quando comentei obras que possuem trilhas sonoras (oficiais ou extraoficiais). E o assunto voltou à minha pauta recentemente, ao comprar o CD de Sandinista, do Clash. O pôster com as letras das músicas vem com desenhos do cartunista inglês Steve Bell, colaborador frequente do Guardian, incluindo uma adaptação de Ivan Meets G.I. Joe.

ivanmeetsgijoe

A canção faz piada da relação EUA-União Soviética num momento em que a Guerra Fria caminhava para o fim (começo dos 1980). Steve Bell reproduz bem o humor ácido da letra

Aí, veio a dúvida: será que outros álbuns teriam HQs escondidas em livretos – ou, melhor, à vista de todos, nas próprias capas? Meu interesse não se limita a ilustrações feitas por artistas renomados, pois os exemplos existem aos montes. Quero é saber de histórias, narrativas completas.

(PS 1: Como bem me lembrou Daniel Lopes, do Pipoca e Nanquim, outro que criou quadrinho pra encartes foi Dave Gibbons, desenhista de Watchmen, com uma obra publicada em Too Old to Rock ‘n’ Roll: Too Young to Die, do Jethro Tull)

(PS 2: The Point!, do cantor americano Harry Nilsson, famoso por Everybody’s Talkin’ trilha sonora do filme vencedor do Oscar Perdidos na Noitetambém conta com ilustrações, feitas por Gary Lund)

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A arte mais célebre feita por um quadrinista para capa de disco deve ser mesmo Cheap Thrills, da Big Brother and The Holding Company (banda de uma certa vocalista chamada Janis Joplin). Robert Crumb assina o trabalho, uma espécie de ficha técnica da gravação que brinca com os nomes das canções.

cheapthrills-

 

Tem até um trabalho nacional nesse estilo: Vento Sul, de Marcos Valle, lançado em 1972, com um quadrinho lindo do artista plástico Juarez Machado. Três quadros pequenos na parte superior – e uma explosão de cores embaixo.

ventosul

 

E, agora, exemplos diversos, antigos e modernos. Aproveitem!

Jamming with Edward (1972) – Bill Wyman, Charlie Watts, Mick Jagger, Nicky Hopkins e Ry Cooder
Arte de Nicky Hopkins
edward

Images 1966-1967 (1973) – David Bowie
Arte de Neon Park

bowie1bowie

Kalakuta Show (1976) – Fela Kuti
Arte de Lemi Ghariokwu
Fela Kuti foi um dos artistas africanos mais engajados politicamente do século passado. Chegou a formar uma comuna e declarar independência do governo da Nigéria. Seus álbuns tinham arte de Ghariokwu, um jovem designer que captou o espírito contestador do músico. Em Kalakuta Show, a imagem pode ser lida como uma sequência de acontecimentos, do primeiro plano até a parte de trás.
kalakutashow

Entertainment! (1979) – Gang of Four
Arte de Andy Gill e Jon King
A “tira” antiimperialista criada por dois membros do grupo diz o seguinte: “O índio sorri, acha que o caubói é seu amigo. O caubói sorri, está feliz que o índio se enganou. Agora ele pode explorá-lo
entertainment


Unmasked
(1980) – Kiss
Arte de Victor Stabin
O Kiss já foi estrela de quadrinhos publicados por Marvel, IDW, Dark Horse, Image Comics – e esteve também na capa de seu oitavo disco.
unmasked

Mari del Sud (1982) – Sergio Endrigo
Arte de Hugo Pratt
Sergio Endrigo é um homem de sorte: poucos (provavelmente só ele) têm a honra de contar com o personagem Corto Maltese, maior criação do mestre italiano Hugo Pratt, ilustrando seu trabalho.
maridelsud

Split (1989) – Victor Banana
Arte de Daniel Clowes
As bizarrices de Clowes não poderiam ficar de fora nem mesmo de uma ilustração relacionada a música. Aqui, ele desenha sua versão pirada para cada canção.
split

Goo (1990) – Sonic Youth
Arte de Raymond Pettibon
Dois personagens, um recordatório: carreiras inteiras de muitos quadrinistas não têm o impacto que Pettibon conseguiu apenas com um único quadro, uma imagem icônica de um álbum que define o niilismo da década de 1990.
goo

Dookie (1994) – Green Day
Arte de Richie Bucher
O que parece ser uma simples ilustração esconde diálogos, cenas dentro de cenas, easter eggs, piadas. Só aumentando a imagem pra ver toda a glória de Dookie.
dookie

Yo La Tengo Is Murdering The Classics (2006) – Yo La Tengo
Arte de Adrian Tomine
Vira-e-mexe, Tomine faz um pôster de show, de filme, capa de revista. Seu ecletismo é quase infinito.
murderingtheclassics

Friend and Foe (2007) – Menomena
Arte de Craig Thompson
A influência de S. Clay Wilson salta aos olhos nessa capa de Thompson, autor das renomadas graphic novels Retalhos e Habibi. Tem bastante coisa escondida nessa arte – é preciso atenção pra enxergar tudo.
friendandfoe

Chimpin’ the Blues (2013) – Robert Crumb e Jerry Zolten
Arte de Robert Crumb
Mais Crumb. Desta vez, para um projeto musical pessoal que resgata blues das décadas de 1920 e 30.

chimpintheblues

The Clone Theory (2015) – Mad Professor & Prince Fatty

clonetheory

Murder in the Second Degree (2016) – Yo La Tengo
Arte de Adrian Tomine
Em somente seis quadros, Tomine constrói uma trama cheia de melancolia. A música importa até na hora da morte.

murderintheseconddegree

Rock Nacional (2016) – Pez
Arte de Gerardo Canelo
O veterano desenhista argentino usa capa e contracapa pra mostrar aquilo que seu povo sabe fazer de melhor: um protesto. Os closes em quadros menores dão movimento e urgência à cena.

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And the Anonymous Nobody (2016) – De La Soul
Arte de Pablo Stanley

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Schmilco (2016) – Wilco
Arte de Joan Cornellà
O maluco espanhol criador das tiras mais insanas do mundo adaptou um trabalho seu já existente pra fazer essa capa. Um clássico instantâneo.

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