Mais uma rodada de análises curtas e diretas ao ponto sobre alguns quadrinhos recentes da Image Comics. Como comentei na primeira parte deste texto, a empresa é a principal apoiadora do trabalho autoral nos comics americanos de massa. Um trabalho digno em tempos tão sufocados por relatórios de vendas.

C.O.W.L.
Kyle Higgins (roteiro) e Rod Reis (arte)

COWL

Impossível não perceber a reverência de Higgins para com Watchmen. Filhote direto da obra revolucionária de Alan Moore, C.O.W.L. também tenta debater como seria o mundo com super-heróis de verdade entre nós. A ética que funciona para o homem comum vale também para eles? O nome da série faz referência a uma espécie de polícia especial formada por super-seres, sindicalizada, que protege Chicago. A série tem ação, mistério, reviravoltas, tudo isso apresentado enquanto se acompanha o dia a dia da C.O.W.L.. Ainda assim, não empolga tanto como deveria. Sua existência parece deslocada no tempo: fosse feita no fim da década de 1980, época da desconstrução do conceito de super-herói, teria alguma relevância temática. Hoje em dia, não oferece nada de diferente daquilo que já foi explorado exaustivamente ao longo dos anos. Apesar da história burocrática, possui ótimos desenhos feitos pelo brasileiro Rod Reis. Seu traço disforme vai buscar influência no experimentalismo característico de Bill Sienkiewicz e Kyle Baker, principalmente nas expressões faciais.
(Edições lidas: 1 a 5)

Sex Criminals
Matt Fraction (roteiro) e Chip Zdarsky (arte)

sexcriminals

Sexo deve ser um dos temas mais difíceis para se escrever a respeito: envolve várias questões de cunho individual, social e cultural. Fazer graça com o tema, só para quem entende. Imagine, então, o tamanho da maluquice que é criar um quadrinho com a seguinte sinopse: casal consegue parar o tempo quando chega ao orgasmo e começa a roubar bancos enquanto o mundo permanece congelado graças a seu ato libidinoso. O nome de Matt Fraction na capa, somado ao enredo ridículo, me fez imaginar que seria mais uma HQ com as características básicas do escritor: humor nerd, referências à cultura pop, verborragia. (Pequena digressão: não o acho um roteirista ruim, muito pelo contrário. Trabalhos como Imortal Punho de Ferro e Gavião Arqueiro, da Marvel, são exemplos da habilidade de Fraction em contar histórias memoráveis com personagens de segundo escalão. Faz por merecer o status de novo astro da indústria. O problema está na sua vontade de querer soar cool e descolado quase o tempo todo.) Felizmente, em Sex Criminals, o escritor vai além da própria fórmula. A comédia ainda existe (e a série é engraçada de forma natural, sem forçar o riso), mas o principal passa a ser a construção das personalidades dos protagonistas, Jon e Suzie. Nas duas primeiras páginas da edição de estreia, os dois transam no banheiro de um banco, polícia cercando o local. A partir daí, a trama vai e volta no tempo para mostrar diferentes momentos da vida de ambos – a descoberta de seus “poderes” na adolescência, a solidão e a sensação de deslocamento decorrentes, a evolução e os problemas de uma relação amorosa. Tudo feito com um carinho enorme, com uma verdadeira preocupação em entender os personagens. E isso só funciona pois Chip Zdarsky entrega desenhos com um jeitão cartunesco, meio infantil. Assim, o leitor passa a acreditar nesse mundo de cores berrantes e nas pessoas que ali vivem. Apesar do tema adulto, é uma das obras mais universais sendo produzidas por aí, já que fala sobre o mais universal dos sentimentos: o amor. Um futuro clássico das HQs, pode anotar.
(Edições lidas: 1 a 5)

Velvet
Ed Brubaker (roteiro) e Steve Epting (arte)

VELVET

A dupla Brubaker/Epting sabe fazer histórias de espionagem e conspiração como poucos na indústria – basta lembrar o modo como reformularam o título do Capitão América na década passada. Em Velvet, eles mostram o mundo dos agentes secretos em pleno anos 1960, auge da Guerra Fria. Após o assassinato de um espião de alto gabarito, Velvet Templeton, secretária do diretor da agência britânica de inteligência, precisa revelar os segredos de seu passado para provar que não é a autora do crime. A arte semifotográfica de Epting, mais bela do que nunca, com auxílio das cores pesadas de Elizabeth Breitweiser, são a ferramenta perfeita para Brubaker conduzir uma trama cheia de ação, sem abdicar da inteligência. Seu modo de escrever está cada vez mais polido, aliando uma forma natural de inserir flashbacks no enredo a uma narrativa em primeira pessoa sem firulas. Velvet não vai mudar o mundo, mas é ótima aposta para uma leitura instigante e divertida.
(Edições lidas: 1 a 5)

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Um comentário sobre “O quê a Image anda publicando – parte 2

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