Já faz tempo que a Image Comics se transformou na melhor editora americana de quadrinhos no quesito diversidade e qualidade de títulos. Basta ver a lista de indicações dos últimos anos ao Eisner, principal prêmio da indústria, para se chegar a essa conclusão. Estamos diante da “Vertigo dos novos tempos” – embora ainda falte pra eles o peso de um Sandman, Preacher ou Y – O Último Homem, obras que realmente transformem o mercado; The Walking Dead e Saga são as únicas a chegar perto desse porte, por enquanto.

Com a crescente visibilidade da empresa, o número de séries lançadas aumentou exponencialmente. E, aí, se cria um problema: ler tudo isso. Pra quem segue a editora e não sabe o que acompanhar, faço comentários sobre o primeiro arco de histórias de alguns títulos razoavelmente recentes – com no máximo 12 edições já publicadas.

Alex + Ada
Sarah Vaughn (roteiro) e Jonathan Luna (roteiro e arte)

alex+ada

As observações sobre a relação do homem com a tecnologia feitas em Alex + Ada remetem a clássicos da literatura de ficção científica como Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick. Quanto mais avançada a ciência, menos humanos nos tornamos, no sentido de sermos indiferentes ao contato com o outro. Em um futuro não muito longe de virar realidade, Alex, um jovem bem sucedido no emprego, mal encontra satisfação pessoal a partir do momento em que é abandonado pela namorada. Sua avó, então, decide animar a vida do rapaz ao comprar para ele um androide com formas femininas, Ada. A partir daí, vê-se a frustração de Alex ao perceber a falta de emoções do robô e a busca para transformá-la em um ser senciente. O desenvolvimento lento é um dos pontos fortes: Vaughn e Luna usam longos silêncios e uma diagramação repetitiva, fazendo alusão ao tédio proporcionado pela tecnologia sufocante, para mostrar a apatia dos personagens. A quinta edição do arco marca um ponto de virada na trama e promete levá-la a um novo rumo. Série bem construída até aqui, cuja arte clean e minimalista casa perfeitamente com o tema proposto.
(Edições lidas: 1 a 5)

The Fuse
Anthony Johnston (roteiro) e Justin Greenwood (arte)

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The Fuse tinha potencial pra ser uma boa ficção científica. Os conceitos futuristas não são de se jogar fora: a humanidade evoluiu a ponto de viver em estações espaciais e em outros planetas, mas, ainda assim, problemas sociais como pobreza e falta de moradia estão lá, como sempre estiveram. E isso é tudo o que se revela a respeito do local onde se passa a história. Ao invés de usar esse mundo como personagem vivo, de aprofundá-lo para mostrar algo inédito ao leitor, Johnston foca em uma manjadíssima trama policial – dupla de detetives investiga assassinatos. Páginas e páginas são gastas em procedimentos de investigação, intrigas políticas etc. Nada disso envolve o leitor de verdade; a vontade é de ler rápido pra acabar logo. Greenwood também não ajuda, com desenhos tão genéricos quanto o enredo. Seria melhor os artistas terem criado algo ruim, mas que ao menos buscasse sair da zona de conforto.
(Edições lidas: 1 a 5)

Nailbiter
Joshua Williamson (roteiro) e Mike Henderson (arte)

Nailbiter

Pra uma trama de horror funcionar, é fundamental um clima crescente de tensão, de não saber o que se encontra a seguir. Enfim, torcer o psicológico dos personagens até a exaustão. Falta justamente isso a Nailbiter. A história narra a investigação de policiais para desvendar os segredos de uma cidadezinha do interior americano, famosa por ser o local de nascimento de diversos serial killers ao longo das décadas. Um deles, o tal “comedor de unhas” do título, vive ali após ser absolvido de inúmeros crimes (como isso aconteceu nem a HQ sabe explicar). São poucos os momentos nos quais a sensação de medo existe: Williamson confunde terror com gore. Assassinatos sangrentos mostrados em páginas inteiras não são o caminho para cativar o leitor. A arte de Henderson, muito cartunesca, não combina com o tom soturno que a obra deveria ter. Deveria, pois em vários momentos o roteiro se entrega a tiradas e citações espertas. O que era para ser O Silêncio dos Inocentes em quadrinhos, não passa de um Premonição. Potencial para crescer existe, no entanto, tenho sérias dúvidas de que consiga.
(Edições lidas: 1 a 5)

Satellite Sam
Matt Fraction (roteiro) e Howard Chaykin (arte)

SatelliteSam

A dupla criativa de Satellite Sam é peso-pesada: Fraction, novo queridinho da crítica e público, e Chaykin, veterano da indústria e gênio dos 1980. Isso de certa forma já explica as qualidades e os defeitos da obra. Os artistas contam os bastidores de uma emissora de tevê na Nova York da década de 1950. Ali, encontra-se de tudo: laços escusos com o governo, manipulação e sexo – um Mad Men em formato de HQ. O estopim da história é a misteriosa morte do ator que vive o personagem título em uma telenovela de sucesso. O texto de Fraction tenta a todo custo emular os trabalhos clássicos de Chaykin, como American Flagg! ou Falcão Negro, ao rechear a história com dezenas de personagens e sub-tramas. Mas sua costumeira verborragia não cai bem aqui, pois muita coisa acontece ao mesmo tempo. Um enredo como esse implora por diálogos mais sóbrios, diretos. Por outro lado, a arte de Chaykin melhorou muito em relação aos últimos trabalhos. Tem-se até um vislumbre do velho mestre da diagramação e do uso de onomatopeias: a opção por não usar cores ressalta os detalhes dos desenhos. No geral, uma ótima ideia executada de forma apenas razoável.
(Edições lidas: 1 a 5)

Southern Bastards
Jason Aaron (roteiro) e Jason Latour (arte)
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Jason Aaron já abordou a América profunda em Escalpo, da Vertigo – no caso, mostrava uma reserva indígena devastada pelo jogo e álcool. Southern Bastards representa o retorno ao tema, desta vez em um território muito mais familiar ao roteirista, nascido no Alabama: o Sul dos Estados Unidos. Earl Tubb é um veterano do Vietnã que preferiu ir à guerra a conviver com a violência de sua cidade, o condado de Craw. Quando volta ao local décadas após sua saída, durante uma breve passagem para resolver assuntos familiares, percebe que jamais conseguirá se livrar do passado. O retrato desse Sul moderno é deprimente: pessoas submissas aos símbolos de poder, delinquência juvenil, falta de perspectiva de vida. Para aprofundar a ideia de derrota social, Latour desenha personagens de traços duros e feios. O artista também é o responsável pelo brilhante uso das cores. O vermelho, por exemplo, inunda os flashbacks dos anos violentos da juventude do protagonista e sempre retorna ao presente para mostrar que nada mudou com o passar do tempo. O desfecho brutal, inesperado, desse arco não oferece o mínimo vislumbre do futuro da série. Melhor assim: que venham mais surpresas como as encontradas até aqui neste gibi bem acima da média.
(Edições lidas: 1 a 4)

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