Entrevista com Roberta Sofer: “Eu detesto me repetir, não gosto de ficar com a sensação de que estou sempre fazendo a mesma coisa”

No submundo das tiras para Instagram, é difícil se destacar em meio à quantidade de trabalhos – boa parte com qualidade duvidosa – encontrada por ali. Quando surge algo com personalidade e apuro artístico, portanto, é preciso dar toda a atenção devida. Os quadrinhos de Roberta Sofer são justamente isso: um sopro de ar fresco a um formato que ganhou até certa conotação negativa em alguns setores da cena nacional de quadrinhos (“tira de rede social? Urgh”). É a prova de que existe HQ inteligente na web – mas, para alcançar tal feito, se faz necessário que o autor se dispa de modismos.

A quadrinista, natural de Campinas (SP), publica online semanalmente (veja aqui), desde 2023, a série Fanfiction, formada por fanfics de uma série de TV fictícia. O conceito é tão maluco quanto aparenta, e permite a ela brincar com clichês de gêneros literários e cinematográficos utilizando um dinamismo narrativo ímpar: uma tira não se parece em nada com a outra, tanto no quesito visual como na escrita – a única constante são os personagens, sempre inseridos em novos contextos hilários. Dois volumes impressos, com histórias mais longas, ajudam a aprofundar o projeto.

Roberta também começou uma segunda série de tiras, a Outras Histórias, na qual conta tramas mais mundanas e introspectivas a respeito de uma professora com aspirações artísticas. Tudo isso feito com um traço de linhas finas, elegantes, uma mistura da inocência de Tove Jansson com o arrojo de Guido Crepax.

Entrevistei Roberta por chamada de vídeo no meio de abril. A conversa passou por pontos como seu autodidatismo para o desenho, a dificuldade de montar um cronograma para a publicação de tiras com regularidade, a importância dos outros campos da arte para a formação de um estilo pessoal de expressão e mais.

Capas dos volumes impressos de Fanfiction

Roberta, quando eu estava fazendo a pesquisa sobre você pra entrevista, encontrei seu perfil no LinkedIn e fiquei surpreso pelo fato de você trabalhar num ramo bem diferente do campo da arte. Não sei se entendi exatamente, mas é algo relacionado à análise de dados? O que é seu trabalho e por que escolheu essa carreira?

É um meio-termo entre analista e engenheira de dados. Eu trabalho 100% na área de TI. Foi uma carreira que surgiu aos poucos, pra falar a verdade. Desde meus quinze anos, sempre tive a consciência de que a coisa que mais queria fazer na vida era escrever histórias – mas, ao mesmo tempo, nunca pareceu ser um jeito viável de sobreviver. Na época, parecia que seria assim só no Brasil, mas à medida que vou amadurecendo a sensação é de que acontece no mundo todo.

Então, eu estudei um tema totalmente diferente na faculdade, engenharia química. Depois, entrei no mercado de trabalho no setor administrativo e, graças a deus, saí disso, porque eu detestava. Mas fui me entendendo mais com a parte de dados. Mesmo nos quadrinhos, eu sinto que pra mim o que pesa muito é a análise. O contato que tenho com histórias é muito analítico, no geral. O jeito que passei a aprender histórias foi analisando essas histórias. Uma carreira que analisa números é um jeito um pouco diferente de usar um perfil que, de certa forma, eu já tenho.

Por isso entrei mais nesse mercado, e é uma coisa que dá certa satisfação de fazer. Eu gosto do meu trabalho atual, pois consigo fazer algo pra quebrar a cabeça, pensar em soluções. Mas acho que trabalhar com quadrinhos é sempre viver uma vida dupla. Se eu estivesse num outro tipo de emprego, teria de provavelmente ir ao escritório todo dia, ter um estilo de vida bem diferente. Na TI existe mais flexibilidade, e isso acaba dando todo o tempo que eu preciso pra fazer quadrinhos – e além de certo financiamento também. O fato de eu trabalhar com TI permite que eu consiga investir na minha arte. Acaba sendo uma retroalimentação esquisita.

De onde vem sua ligação pessoal com a arte, essa vontade de contar histórias desde jovem? Sua família é de artistas?

Nenhum dos meus pais é artista, mas o meu pai é engenheiro e sempre teve uma imaginação bem ativa, gosta muito de contar histórias de um jeito mirabolante. Isso foi uma influência grande quando eu era criança. Minha mãe também: ela conta as histórias com as quais tem contato de uma forma requintada, sempre transformando um acontecimento banal em algo interessante.

Eu sempre fui aquela criança que gostava de desenhar. Como todo mundo, eu lia Turma da Mônica e, por conta de ouvir muita história maluca em casa, também queria criar as minhas histórias malucas. Essa é a mais próxima de uma origem psicanalítica que eu consigo pensar pra explicar de onde tudo isso surgiu [risos]. Tem ainda um certo gosto meu por estudar artistas, sempre gostei de ver pinturas. A introdução à literatura também ajudou bastante nisso. Logo que eu deixei de ganhar brinquedos, a minha vó já foi me entuchando com um monte de livros pra começar a ler.

E também tem muita curiosidade. Gosto muito de pesquisar a história da arte. Sou o tipo de pessoa que compra um livro de desenho do Klimt no sebo, sabe… Foram gostos se somando ao longo do tempo até criar esse gosto eclético.

Você chegou a fazer curso de desenho?

Não, sou 100% autodidata. Eu tinha vontade de fazer um curso, só que por questão de custo, da distância de onde eu morava, sempre foi meio distante da realidade. Pra não dizer que nunca fiz curso, fiz uma aula experimental – daquelas com o mais básico de tudo: ensinam a desenhar rosto, falam das proporções, pra você já ter um resultado rápido e fazer a matrícula logo depois. Mas eu saí de lá com o programa do curso, e isso é a pior coisa que você pode dar pra uma pessoa que está disposta a aprender por conta própria [risos].

Eu fiz isso quando estava no ensino médio, acho, e aí continuei desenhando por conta própria um tempo. No segundo ano da faculdade, pensei “ah, cansei de esperar chegar a hora certa, vou atrás disso”. Aí por conta própria pesquisei sobre material, livro de anatomia, e fui, durante toda a pandemia, estudando desenho que nem uma louca. Quando terminei mais ou menos o que seria o conteúdo daquele curso, imaginei que já dava pra começar a pensar em estruturar uma história – foi aí que eu comecei a trabalhar em Fanfiction.

Quando você começa a fazer quadrinho, então? Porque as suas primeiras postagens de desenhos e tiras no Instagram são de 2023.

Comecei a desenhar e escrever Fanfiction em 2022, no segundo semestre, mas teve esse gap entre eu fazer os quadrinhos e postar eles. Eu tinha muita crise de autoconfiança na época, achava que não desenhava bem o suficiente pra postar nas redes sociais. Nessa época eu arranjei meu primeiro emprego, e pensei que precisava de um incentivo pra continuar desenhando bastante, mesmo com uma jornada de CLT. Ter um cronograma de postagens do tipo “faça duas tiras por semana e poste ao fim de semana” era algo que eu precisava manter pra alcançar essa consistência.

Você falou que sempre gostou de desenhar, mas por que fazer quadrinhos? Como eles te fisgaram?

Acho que é por ser uma mídia híbrida entre a escrita e o visual. Eu sempre tive uma imaginação muito visual. Desde muito pequena eu leio, e quando gosto muito da história, meu primeiro ímpeto é dizer “vou desenhar essa cena”. E mesmo quando bolava minhas próprias histórias pra um formato de livro, sempre acabava desenhando os personagens e quase criando uma HQ.

Também tive muito contato com cinema. Vejo filme antigo desde que tenho uns dez anos de idade. Teve uma vez que eu tava lendo uma revista do Cascão, acho, com uma história do Bidu que adaptava os principais filmes do Alfred Hitchcock. Meu pai sabia quem era Alfred Hitchcock, e aí eu fiquei assistindo todos os filmes dele porque o Maurício de Sousa me recomendou. E, bom, explodiu a minha cabeça.

Claro, tem também toda essa base de ler quadrinhos quando eu era menor. Quando tinha quinze anos, de hobby, pra ler alguma bobagem, peguei umas revistas da Marvel. E acabei lendo as revistas dos anos 1960, as primeiras do Doutor Estranho, desenhadas pelo Steve Ditko. Achei sensacional, porque embora seja um quadrinho mainstream, era muito psicodélico, uma coisa meio diferente. Ao ver aquilo pensei que dava pra fazer coisas bem diferentes, quadrinhos que não eram histórias infantis ou algo bobinho de super-herói – e me deu vontade de fazer as minhas próprias histórias em quadrinhos.

Que tipo de HQ te levou a fazer a HQ que você faz hoje?

Eu li várias coisas que na época foram muito sensacionais, mas acho que hoje têm influência quase nula sobre o que faço. Essas histórias do Ditko são algumas delas. Acho que o que me marcou mais foi o fumetti italiano, principalmente. Eu gostava muito, ainda gosto, do Dino Battaglia. Lembro que quando eu estava me ensinando a desenhar, eu falava “preciso desenhar rostos como o Battaglia desenha”. Todo o contraste de luz e sombra, de preto e branco superforte, as tramas mirabolantes de terror que ele adaptava do Lovecraft ou do Edgar Allan Poe, pra mim isso tudo foi muita influência.

O Sergio Toppi também, mas não o trabalho mais clássico dele, no sentido daquelas ilustrações de fantasia ou realistas. Eu tenho um quadrinho dele da Bonelli, da Julia Kendall, que é o estilo do Toppi encaixado no mainstream italiano. Eu estudava bastante aquela HQ pra ver os enquadramentos, como ele construía as sequências.

A editora Figura relançou essas histórias recentemente.

Sim, eu vi. Eu tenho só essa história curtinha da Julia, comprei da Mythos na pré-venda, na pandemia. Fiquei superfeliz, falei “nossa, finalmente vou conseguir pagar por um quadrinho do Toppi” [risos]. Porque eu era uma universitária falida na época.

Então, tem o Battaglia, o Toppi… Eu não li muito dela, mas a Tillie Walden também me influenciou bastante. Um que, assim, não foi influência, mas mudou a forma como eu entendo quadrinhos, foi o Bastien Vivès. Na pandemia eu estava lendo Polina e foi muito revolucionário por causa do traço que ele usava. Até então eu tinha a concepção de que, pra fazer quadrinhos, precisava de um traço supercerto, 100% detalhado, anatômico. E o traço dele é muito minimalista. Às vezes meio torto, embora sem deixar de ter uma precisão. Ali pensei que naquele tipo de arte eu conseguiria me encaixar. Porque nunca me via desenhando algo perfeitamente anatômico como um Jim Lee da vida, sabe? Algo mais próximo de Polina eu conseguiria.

Mais recentemente, isso já depois de começar a fazer os meus zines, conheci o trabalho do Guido Crepax, e isso mudou a química do meu cérebro. Todo o jeito que ele quebra a página em milhares de quadrinhos, a forma como desenha o contorno meio sinuoso, oscilando entre algo fino e grosso, como se fosse uma linha meio líquida…

Fora dos quadrinhos, tem o ilustrador americano Edward Gorey, que fazia um trabalho muito hachurado. Em retrospecto, talvez ele tenha sido uma das maiores influências pra eu começar a adotar hachuras, no geral.

Vamos começar a falar sobre o Fanfiction. De onde veio a ideia pra fazer um gibi sobre fanfic?

Essa é uma baita história, e já começa mal. Eu estudo russo desde 2019. Então, em 2022, eu tava estudando russo, fazendo o meu TCC, terminando a faculdade, no estágio, e querendo muito procrastinar minhas lições de russo.

Por que você começou a fazer aula de russo?

Foi uma curiosidade cultural que foi longe demais [risos]. Eu pensei “nossa, deve ser legal ler Tolstói, Dostoievsky, em russo”, e deu nisso. Estudo faz quase sete anos já. Se eu fosse menos chata comigo, poderia dizer que sou quase fluente.

Mas, enfim, eu queria muito procrastinar a minha lição de russo, e comecei a pesquisar sobre uma série que eu tinha visto um ou dois anos antes. Era uma série superbizarra, de mistério, chamada Os crimes de Fortitude, que se passava na Escandinávia. Quando fui pesquisar, descobri que existiam fanfics dessa série. Isso me deixou em choque porque era uma série facilmente +18, que passava no Brasil às três da tarde num canal que ninguém via – em nenhuma outra circunstância alguém colocaria na TV, à tarde, uma série com canibalismo envolvendo bebês e, sei lá, cenas de autocastração.

Eu sabia que alguém assistia a isso além de mim, já que teve três temporadas, mas gostar tanto a ponto de escrever uma fanfic me surpreendeu. E, pro meu horror, tinha algumas delas em russo. Então, eu me senti na obrigação de ler aquilo pra fingir que tava estudando. À medida que fui lendo, fiquei muito estarrecida com o delírio que dava pra criar em cima de uma obra que era muito diferente. Tinha personagens se pegando, mas que na série queriam se matar, uns apocalipses zumbis meio esquisitos… Aí comecei a ler mais fanfics por curiosidade, incluindo até de Game of thrones – apesar de nunca ter nem lido os livros ou assistido à série de TV.

Isso ficou na minha cabeça enquanto eu pensava em começar a fazer quadrinhos. Só que eu não queria uma pressão autoimposta, de uma continuidade muito certinha ou um gênero muito definido. Não queria travas mentais, mas sim uma caixa de areia pra fazer o que eu quisesse, pra aprender, errar, tentar coisas novas.

E aí eu pensei “bom, essa ideia é a ideia de uma fanfic”. Porque nas fanfics você não precisa ter um compromisso com continuidade: pode ter um arco fechado, em que um personagem muda completamente a vida dele, e na história seguinte ele é o mesmo idiota de antes, porque nada daquilo aconteceu de verdade. Assim eu cheguei ao conceito de Fanfiction, que é um conjunto de fanfics – com a particularidade de que a série na qual aquilo tudo se baseia não existe.

A HQ tem vários elementos emprestados de várias séries de detetive que eu vi ao longo do tempo, mas é uma colcha de retalhos de referências estranhas num contexto completamente desprovido de qualquer lógica. É realmente para eu experimentar todo e qualquer tipo de narrativa que me vier à cabeça.

A pergunta que não quer calar: você é fanfiqueira também?

Não, eu só escrevo as fanfics dos meus personagens. Eu nunca atentei contra a minha decência nesse nível [risos]. A minha família fala que eu devia escrever fanfics e ficar rica, que nem a autora do Cinquenta tons de cinza.

Dá pra notar que você é uma pessoa que, quando se interessa por algo, gosta de ir atrás, saber mais sobre aquilo. Chegou a fazer alguma pesquisa mais elaborada sobre fanfics, pra se aprofundar no tema?

Eu acho que isso é um daqueles delitos de amor, sinceramente. Pesquiso bastante sobre fanfics, cheguei a dar uma olhada até em alguns artigos acadêmicos sobre isso, pois existe todo um campo de pesquisa sobre isso, né? Os fan studies, que é um segmento da psicologia. Porém, pra mim, não deixa de ser muito peculiar você amar tanto uma história a ponto de estar disposto a negá-la. É isso que as fanfics fazem na prática: ela nunca será análoga ao original, sempre precisa ter algum tipo de desvio. É um personagem que morreu e você não queria que tivesse morrido, ou alguma coisa que você queria muito que tivesse acontecido e não aconteceu.

Então, é muito estranho chegar a essa situação. Tipo, você ama ou odeia uma obra em tal medida que quer fazer daquilo algo completamente diferente do que ela é. Eu penso bastante nisso enquanto fico pesquisando pra fazer Fanfiction. Leio fanfics pra pegar inspiração, porque, infelizmente, não ter contato contínuo com essas coisas tira a possibilidade de falar a respeito e tirar sarro daquilo. Pra mim, a fanfic é um retrato da imaginação humana sem qualquer tipo de filtro. Isso é fascinante, e nem sempre pelos bons motivos.

Com isso tudo, a gente chega a um ponto bem importante do seu trabalho, que é o clichê. Até porque acredito que trabalhar com fanfic seja trabalhar com clichê – você já comentou isso na sua newsletter, inclusive. Então, eu queria saber qual é a graça de usar um clichê e se é fácil subvertê-lo.

Eu sinto que o clichê virou quase um subgênero, especialmente se você vai para a vertente do romance, que é um campo da literatura que toma muito emprestado das fanfics hoje em dia. Se você pesquisa por livros de romance, geralmente acha até a categoria do tipo de clichê que possuem.

Agora… Não é muito fácil trabalhar com ele – às vezes por uma questão de viés pessoal mesmo. Um clichê muito famoso hoje em dia é o enemies to lovers: dois personagens que são inimigos jurados e, aos poucos, se apaixonam. Só que eu não vejo o menor sentido nisso [risos]. Acho que a primeira dificuldade é abrir minha mente para determinadas possibilidades de roteiro. De resto, fico me apoiando muito no meu senso de humor doentio pra procurar alguma solução que faça sentido.

Às vezes, o jeito de subverter o clichê é partindo para a saída mais absurda que eu consigo conceber dentro daquele contexto. Outras vezes o melhor é explorar o clichê pra mostrar como ele é absurdo, perguntar “isso faz sentido para a história?”. Muitas vezes não faz, mas o público não está acostumado a olhar sob essa óptica.

Você já comentou que a tira lhe permite ter uma dinâmica maior na questão de enredos, não ficar presa em um único tema. Teria outros motivos pra fazer gibi nesse formato?

Acho que é pra me obrigar a ter uma consistência também. Como eu tenho um trabalho que ocupa 40, 44 horas da minha semana, achar tempo pra fazer quadrinhos não é uma tarefa muito fácil. Exige, na verdade, muito esforço pra reorganizar a minha rotina e eu conseguir desenhar todo dia, que é o meu objetivo. E uma tirinha é uma coisa que dá pra fazer, porque exige menos quadros, é uma história mais fechada. Dá pra trabalhar com um começo, meio e fim, de uma tacada só. Você acaba tendo um resultado, por assim dizer, mais rápido.

Um dos principais motivos para eu ter aderido às tiras foi me obrigar a ter uma constância. Se fosse depender apenas de histórias mais longas, ia ser muito complicado criar uma história com começo, meio e fim em um mês. Daria pra fazer algo em quatro páginas, mas até planejar tudo isso, executar, demoraria facilmente talvez até dois meses. Fazendo tirinhas, eu consigo oito páginas, entre aspas, por mês, já que eu não me preocupo com continuidade e trabalho com quadrinhos organizados em um espaço menor.

Você faz duas tiras por semana, né? Quanto tempo demora pra fazer uma tira?

Depende de quão complexo é o desenho, mas eu não demoro menos de seis horas numa tira. A mais tranquilinha, sem cenário e perspectiva, é isso. Se eu invento de fazer alguma coisa muito diferente, pode chegar a umas oito horas.

E por que desenhar à mão no papel? Não seria mais fácil fazer no tablet, no computador?

Com certeza seria bem mais rápido no computador, e eu não tenho a menor dúvida de que muitos artistas conseguem ser dez vezes mais produtivos do que eu fazendo assim. Mas, ao mesmo tempo, sou uma pessoa muito analógica, gosto de ter papel na minha mão – não só para desenhar: prefiro ter livro físico a ler num PDF. Não sou muito afeita a ter contato através de telas. E a mesma coisa serve para o desenho: eu gosto muito da sensação do papel na minha mão, de conseguir chegar perto do papel com meu rosto, ver os detalhes pequenininhos do que estou fazendo com a caneta, com o grafite.

Tem suas dificuldades também, pois é muito mais difícil corrigir erros. Mas não consigo o mesmo prazer de desenhar no digital. É quase torturante… Eu digitalizo as minhas artes, edito digitalmente, monto os zines no computador, mas é a parte do processo que mais detesto.

Qual o limite de retoques que você se permite fazer quando vai editar no computador?

Eu tenho dificuldade com isso, para ser sincera, porque geralmente tento corrigir o máximo que consigo, e preciso ficar me barrando pra não perder tempo demais procurando pelo em ovo. Eu já cheguei a ficar três horas corrigindo, sendo que não precisava. Tô tentando criar esse equilíbrio pra saber se o que edito vai ser visível no impresso. Às vezes não vai, às vezes é só preciosismo mesmo. Se você não me segurar, vou tentar fazer o máximo que der.

Não tinha te perguntado ainda, mas quais materiais você usa pra desenhar?

Eu uso muito lapiseira. Pra traçar toda a arte, desde os rascunhos, thumbnails, uso grafite 05, bem fininho. Na hora de fazer os contornos, uso uma caneta nanquim ponta 01. E para as hachuras e detalhes menores, tenho uma absurdamente fina, ponta 0.03.

Uma coisa fundamental nas suas tiras é o layout sempre vivo: praticamente não se repetem diagramação e grid de quadros. Você também sempre traz coisas de fora dos quadrinhos: já fez tiras como se fosse jogo da velha, como se fossem cartas do jogo de tabuleiro Detetive, com estética do Iron Maiden, do Metal Gear Solid. E, ao mesmo tempo que tem essas brincadeiras visuais, você se permite fazer algo mais silencioso, quase sem ação, como são as tiras das Outras histórias. Tem uma citação sua, em uma das primeiras newsletters, sobre isso: “Eu não gosto de fazer um layout de página certinho, a menos que não tenha outras opções”. Então, eu gostaria que explicasse como é a construção das suas tiras. Você começa pelo tema, pelo layout? Como se dá esse processo?

Não existe uma regra que responda a 100% dos casos, mas, na maior parte do tempo, começo com o tema, e depois acho a forma – ou eu já sei mais ou menos algo que quero explorar na tira e sigo a partir disso. Eu detesto me repetir, não gosto de ficar com a sensação de que estou sempre fazendo a mesma coisa – acho até por um pouco de insegurança. Nos últimos meses, tenho vencido um pouco isso, mas, quando comecei a postar as minhas tiras, sentia muita necessidade de mostrar que eu era capaz.

Geralmente, tenho mais ou menos a ideia, a piada ou o clichê que quero explorar. Com isso, vou pensando em uma forma visualmente interessante de quebrar aquilo, mas que também não seja muito parecida com outras coisas que já fiz. Por exemplo, mesmo se for um clichezão, tento empilhar os quadros de uma maneira diferente, ou fazer uma leitura num sentido diferente. A tira que você mencionou, do jogo da velha, foi o contrário: comecei pela forma, e aí fui encaixando a história nos nove quadros, de um jeito que soasse inteligível para o conceito de uma partida empatada.

Ao mesmo tempo que tem todo esse lado escalafobético de Fanfiction, escrever histórias pra mim sempre é algo mais introspectivo, autocontido. Por isso, as Outras histórias acabam mostrando um lado da minha produção que não fica tão evidente. Os zines de Fanfiction também são mais introspectivos do que o que posto no Instagram.

E como você consegue os temas das suas tiras? Tem a famosa sacada do Ernie Bushmiller, que via um objeto e aí o encaixava nas tiras da Nancy. Você tem um caderninho pra anotar as coisas que quer usar?

Olha, tem um pouco de tudo. Pra Fanfiction, é um pouco mais fácil porque eu fico lendo as fanfics e faço uma lista mental de vários estereótipos, clichês, e vou meio que reciclando alguns deles. Outras vezes eu realmente parto do princípio de “quero desenhar tal coisa” e faço uma história pra encaixar isso.

Por exemplo, uma das últimas tiras que fiz tinha uma personagem fazendo uma poção de memória seletiva – e tudo isso pra eu desenhar uma pessoa agachada numa horta colhendo plantas. Então, às vezes vem de clichês, às vezes vem de elementos específicos para os quais eu arranjo uma desculpa pra desenhar.

Nas Outras histórias, é uma mistura de experiência própria com sentimentos no geral que eu tenho em relação ao fazer artístico, relações humanas, busca por conexão. Acaba sendo uma mistura de tudo isso. Minha mente é um lugar meio caótico.

Você já sentiu que ter de usar o conceito da fanfic pode se tornar uma camisa de força criativa?

Mais ou menos. Eu não acho que o conceito em si seja limitante. Eu acho que, às vezes, eu que não sigo ele muito bem, ignorando um pouco a ideia geral pra incluir algumas coisas que nunca seriam uma fanfic – mas que seriam uma coisa que eu escreveria, numa história um pouco mais normal.

Talvez, em algum momento, eu sinta que não vai dar mais pra manter as tiras de Fanfiction junto das histórias que pretendo escrever. Mas não acho que esse momento vai chegar a curto prazo.

Eu iria te perguntar isso: até quando pretende seguir com a tira. Então, não tem prazo de validade?

Não, não tem prazo de validade. Eu não sinto que cheguei… É difícil dizer aonde eu quero chegar com Fanfiction, mas sinto que ainda não chegou um momento de conclusão.

Se fosse pra terminar, ia fazer pelo menos alguma pseudo-conclusão sobre quem supostamente matou, porque, no fundo, ainda é uma história de assassinato. Na minha cabeça, é uma história de assassinato contada às avessas.

Você já comentou bastante sobre o absurdo, de fazer questão de incluir o bizarro nas tiras pelo viés do humor. Como você pensa a piada? Você chega a mostrar pra alguém pra ver se faz sentido? Eu sempre repito esta pergunta quando entrevisto quadrinista que tem trabalho de humor, porque gosto de saber se basta ser engraçado para o autor ou se a pessoa faz alguma pesquisa de campo.

Pra mim, é quase 100% no escuro. Eu geralmente não peço pros meus amigos darem uma olhada nos meus quadrinhos e dizerem se está engraçado ou não. Geralmente, eles veem quando eu posto. Acho que eu só tenho uns dois ou três amigos com o mesmo senso de humor meio bizarro, meio estranho – e com certeza não quero alugar nenhum deles pra ficar o tempo todo checando cada piada que eu faço. Faço o que me dá na telha, e torço pra ser engraçado para as pessoas também. Tanto que tem vezes em que eu me surpreendo, penso “meu deus, passei do ponto”, e aí, alguém vai e fala que chorou de rir lendo aquilo.

Acontece… Da mesma maneira que eu imagino que deve ter coisas que pra mim são hilárias e pra outras pessoas não são. Talvez eu devesse pedir mais conselhos do que peço, mas, neste momento, não peço muito.

Você faz as tiras online de Fanfiction e também histórias fechadas, mais longas, publicadas no formato impresso. O que veio antes? Porque eu tomei um susto relendo o volume 1 do impresso ao ver que a história inicial é de 2022.

A história mais longa, com certeza, surgiu primeiro. Eu estava até parando pra pensar outro dia. Fanfiction foi o primeiro quadrinho em que eu fiz arte-final com nanquim, pra você ter noção. Realmente faz muito tempo que eu fiz esse volume 1. E, até certo ponto, a minha ideia com as tiras era fazer um pouco de propaganda do zine que eu pretendia lançar, sabe? Até por esse motivo elas nasceram como algo mais solto. Na minha cabeça, não eram pra ser tão sérias como o zine.

Então, sempre começou com a ideia de ser um trabalho mais longo. As tiras foram ganhando força à medida que o meu senso de humor foi ficando mais deturpado, eu acho.

Uma coisa interessante lendo os dois volumes impressos em sequência foi notar como você está contando uma história grande. O volume 2, por exemplo, explica algumas coisas que você citava de passagem no 1. Como você planeja esses arcos narrativos e os arcos dos personagens?

Tem mais planejamento nas histórias longas mesmo. A minha ideia era intercalar o personagem foco de cada história. No primeiro volume, a história inicial foca em dois personagens, e a segunda foca em outro, que apareceu brevemente antes. Daí, a primeira história do segundo volume mostra alguns personagens que também ficaram meio em segundo plano anteriormente. Depois, a próxima trama introduz outra personagem que não tinha sido mencionada.

A ideia era sempre ficar revezando e, com isso, mostrar um pedaço diferente da trama. Como o conceito do zine nasceu daquela impressão de tatear a história no escuro, de tentar descobrir o que acontece na obra original a partir da fanfic, eu também tô tentando entender o que aconteceu nessa série e, a partir daí, descobrir quem pode ter cometido o assassinato. Eu gosto de pensar como um grande quebra-cabeça, mas é um quebra-cabeça que eu vou pensando em pedaços. Não é como se eu tivesse uma grande macrocontinuidade de Fanfiction na cabeça – eu vou planejando a cada zine novo, basicamente.

Nas tiras é diferente porque com elas quero ter uma completa antologia, sem continuidade ou qualquer regra narrativa, a não ser pelo básico dos personagens. Eu penso muito na analogia com o teatro italiano da commedia dell’arte, em que você tinha os personagens vividos por atores mascarados, sempre caracterizados do mesmo jeito, interpretando com os mesmos trejeitos, e os personagens reagiam de forma mais ou menos parecida, independentemente do contexto. Então, nas minhas tiras tem mais ou menos definido quem é cada pessoa, como elas reagem ou podem reagir dentro de um leque de opções. O máximo que acontece é eu alternar os personagens pra não ficar dois meses seguidos desenhando a mesma pessoa.

Eu queria checar uma curiosidade em relação ao layout dos volumes impressos: nas duas histórias do volume 1 e na primeira do volume 2 você não coloca sarjeta entre os quadros – eles estão colados; já na segunda história, tem sarjeta. Existe alguma diferença na hora de pensar como você vai conduzir o enredo em relação à ausência de sarjeta?

Tem uma certa diferença. Na primeira história do volume 2 eu não botei sarjeta porque a minha ideia era ter algo mais cinematográfico mesmo, algo mais parecido com o que você vê numa série, num filme. Era mais pra tentar simular uma narrativa audiovisual, com muito silêncio – tipo um filme escandinavo, por assim dizer [risos].

Aí na segunda história, eu exploro a sarjeta porque foi um “auto desafio”: quando eu estava fazendo, estava lendo muita coisa do Dino Battaglia e via como ele usava espaço negativo, umas coisas quase de ilustração dentro da página de HQ, e eu queria tentar algo parecido.

Tirando esse uso específico, acaba sendo isso: quando não uso sarjeta geralmente é pra replicar algo mais audiovisual e menos quadrinho clássico.

Em relação a todas essas referências: é possível aplicá-las – estou pensando nas de quadrinhos apenas – sem parecer mera cópia?

Tudo depende da forma como você trabalha. O jeito mais fácil de fazer é a cópia exata. Mas, pra mim, a forma ideal disso eu vejo na música. Se você pega o Metallica, eles têm um álbum inteiro que é só de covers, o Garage Inc. Você escuta aquilo e não pensa “estão tocando Sabbra Cadabra, do Black Sabbath”, pois aquilo com certeza soa como Metallica. Acho que o mais importante na hora de você usar referências é entender de onde está partindo. Mesmo na hora de pegar algo emprestado, você precisa da noção sobre qual sua perspectiva sobre esse algo. Então, à medida que vai aplicando isso à sua personalidade, ao seu traço, acaba virando algo diferente.

Vamos comentar um pouco sobre as Outras histórias, que são as tiras fora do universo de Fanfiction. Como surgiu a ideia para elas e o que você pretende narrar ali?

Esses personagens são de uma história que eu quero muito escrever desde 2021. Meu objetivo inicial era fazer essa história, só que pensei “não posso escrever isso de primeira, vou errar bastante, vou travar”. Eu precisava fazer alguma outra coisa pra não ficar me pressionando tanto.

Ao mesmo tempo, gosto muito desses personagens. Quando desenho no meu sketchbook, eles aparecem em quase todas as páginas e penso continuamente em várias histórias deles – o que torna mais difícil a ideia de começar a narrar essa trama, porque ela só tem crescido na minha cabeça. E um jeito de, pelo menos, começar a contar os pedaços disso foi colocar em tiras.

Então, aonde quero chegar com isso? Eu também tenho me perguntado recentemente, pois de certa forma não faz muito sentido fazer o que fiz, contar histórias paralelas de personagens que nem introduzi direito. Essa história começou de um jeito meio torto, mas foi justamente por essa vontade de contá-la – embora eu não saiba muito bem como.

E essa história é sobre o quê?

É sobre a protagonista, a Monique, que é formada em artes, é professora, só que tem o desejo de virar pintora em tempo integral. A história mostra ela dividindo a vida entre as obrigações e a tentativa de construir uma carreira artística aos trancos e barrancos, errando mais do que acertando, percebendo que muitas coisas que a travam são suas próprias noções em relação ao que deveria estar fazendo. Eu vejo muito como uma história de uma artista obcecada que aprende a viver, em outras palavras. Tento trazer um pouco disso nas tiras: esse equilíbrio mal resolvido entre trabalho e arte, esse sentimento de frustração que nem sempre se resolve de um jeito óbvio.

Tem algo autobiográfico nessa personagem?

Não, não é autobiográfico. Tem vários sentimentos que passam pela minha cabeça, mas zero conexão com a minha própria vida.

Seu lançamento impresso mais recente, chamado A vida particular de pessoas estranhas – Volume 1, envolve essas tiras. Como surgiu a ideia para esse formato de antologia com tiras impressas de forma individual, dando ao leitor a oportunidade de lê-las na ordem que quiser?

Vem um pouco dessa dificuldade de conseguir contar uma história com começo, meio e fim por essas tiras. Como falei, elas começaram de uma forma muito desordenada. Eu tenho há alguns meses a vontade de montar zines com esses personagens. Então, pensei justamente em fazer uma coletânea das tiras com eles.

Só que, à medida que fui tentando organizar essas histórias, nenhuma ordem fazia pleno sentido pra mim. Algumas tem um tom mais de conclusão, outras um pouco mais de começo, mas o que é o meio? Daria muito bem para reordenar umas duas ou três, e você teria uma história completamente diferente.

Depois de um tempo quebrando a cabeça com isso, percebi que talvez a graça seja não ter ordem específica. Daí surgiu a ideia de tê-las avulsas para que o leitor determinasse a ordem. Tanto que, quando monto os envelopes, monto com uma ordem diferente. Tipo, dou uma lida e penso “este aqui vou ordenar de tal jeito”.

Porque depende muito do sentimento que você tem com a história. Na minha cabeça, tal tira é a primeira, tal tira é a última, mas pode ser que outra pessoa interprete de forma diferente. E eu acredito muito na plasticidade das histórias, que depende muito não só de como você as conta, mas de como você as interpreta. Era mais ou menos essa ideia que eu queria trazer na hora de ler esse zine.

Não gosto de ser uma leitora que fica passivamente esperando a trama ser contada e explicada; gosto de construir o quebra-cabeça na minha cabeça. De certa forma, o zine também virou um quebra-cabeça para o leitor resolver. Pode ser que fique com um final um pouco mais esperançoso, ou um pouco mais melancólico, mas fica a seu critério decidir como isso vai ser.

Assim como Fanfiction, as Outras histórias seguirão sendo produzidas sem prazo de validade? Ou você já sabe quando vai se sentar pra iniciar a escrita dessa história mais longa com esses personagens?

Eu estou tentando fazer isso, na realidade. Quando eu monto uma história, faço um thumbnail ridiculamente pequeno e escrevo o diálogo ao lado. No meu último sketchbook, comecei a montar o que seriam as dez, doze primeiras páginas. Só que é uma coisa que tô o tempo todo revisando, questionando. Todos os meus zines eu começo de um jeito muito visual: basicamente fazendo um rascunho inteiro da página antes de começar a desenhar de fato. Mas com um trabalho mais longo, isso já não é muito prático.

Uma ideia que vi esses dias seria pegar um monte de folhas sulfites e fazer um fichário. Tô considerando isso, pra ver se com um rascunho mais grosso, e podendo trocar de ordem, dá certo. Eu só estou tentando entender o processo de visualizar a escrita de uma história longa sem mudar a lógica que construí pra escrever, já que sempre me organizei em torno de histórias curtas.

As tiras estão me ajudando com isso: comecei a botar uma continuidade nelas e agora seguem um arco. Eu sei mais ou menos o que vai acontecer nesse arco. Mas quero ver onde isso vai dar.

Eu queria já sentar e estruturar tudo melhor este ano; era uma das minhas metas, mas essa lógica mental de reorganizar o processo de escrita está sendo um pouco mais enrolada do que tinha antecipado. Nem acho isso ruim; acho que é uma história que precisa de tempo pra amadurecer – e o fato de eu não ter escrito antes foi bom, porque teria saído uma história muito ingênua.

Você já sabe o formato dessa história longa? Serão volumes curtos pra serem lidos como capítulos ou um livrão com páginas e páginas?

Isso é um dilema. Minha ideia original era fazer um álbum, só que isso tem esbarrado no quesito prático de como vou imprimir e publicar. Então, estou considerando de tudo, sabe? Postar online mesmo e depois ver a questão impressa… Realmente está numa fase muito inicial pra responder com mais exatidão.

Eu quero entrar agora em uma questão delicada, que é o ambiente das redes sociais. A quantidade de seguidores que você tem no Instagram, sejamos sinceros, é muito pequena – inversamente proporcional à sua capacidade enquanto quadrinista, porque você faz um trabalho diferenciado e de qualidade, mas com pouquíssima visibilidade. Eu gostaria de saber como você se sente em relação a isso. A visibilidade conta?

Não vou dizer 100% que não conta. Já foi uma questão que me incomodou bastante. Quando eu comecei a postar as tiras no Instagram, acompanhava essa questão de métricas, quantas pessoas tinham curtido, e ficava honestamente muito chateada quando via o esforço que eu tinha botado numa tira pra chegar em poucos likes. Ao mesmo tempo, acho que é natural pela própria forma que as redes sociais são pensadas – elas não são pensadas pra divulgar quadrinhos.

Se você vir uma HQ de sucesso no Instagram, todas seguem o mesmo formato: têm quatro quadros e você vai deslizando para o lado; aí tem uma piadinha no terceiro quadro, que termina com a reação dos personagens no quarto quadro, e o quinto slide é a tira completa para as pessoas repostarem nos stories. Então, é sempre um formato fixo, e é o que dá certo numa lógica de rede social, pois as pessoas querem ver algo rápido e dar um scroll down logo em seguida. Meus quadrinhos não são assim: são conscientemente feitos para você dar zoom, ler com calma. Eu não gosto dessa lógica de fazer o swipe – já tive um trabalho desgraçado pra fazer a tira, não quero gastar meia hora pensando em como montar o post pra deixar a leitura mais fácil. Se a pessoa quer ler meu quadrinho, ela vai ler meu quadrinho.

Na maioria das suas tiras nem tem como fazer isso. Como vai recortar se é muito quadro na horizontal, em formatos diferenciados?

É… É muito limitador em questão de formato. E infelizmente faz sentido, porque a ideia do algoritmo é deixar as coisas padronizadas para serem mais facilmente digeríveis. Os meus quadrinhos não seguem essa lógica, e por isso é muito difícil ter qualquer favorecimento de algoritmo para um alcance maior.

Então, durante muito tempo eu ficava frustrada com a questão do alcance. Só que ultimamente tenho pensado que, na verdade, mesmo as coisas de que eu gosto não são altamente mainstream – tipo as séries a que assisti e nas quais Fanfiction se baseia. Se os meus gostos são muito de nicho, meus quadrinhos acabam sendo também.

Eu quero escrever trabalhos, focar na minha arte. Não quero gastar o tempo que eu poderia usar na produção de um quadrinho legal pra fazer um post na tentativa de alcançar vinte pessoas a mais. Até certo ponto, é uma escolha consciente. Eu não sou uma social media manager incrível, tenho de admitir, mas o Instagram não é o melhor lugar do mundo pra postar quadrinhos.

Você já respondeu parte da pergunta que eu tinha preparado para a sequência, então eu gostaria de fazer um comentário – e você fique à vontade pra comentar em cima ou não. No ano passado, eu escrevi aqui no blog sobre o que chamo de “quadrinho utilitário”: tiras online pensadas milimetricamente para causar engajamento nos seguidores, com o mínimo de qualidade artística possível. Tem um monte de gente famosa por coisas assim, fazendo tiras sobre relacionamentos, questões feministas, políticas, de comportamento etc. Não posso negar que esses trabalhos são ótimos pra alcançar o objetivo a que se propõem: um sentimento de concordância no leitor em relação ao que está sendo dito, gerando compartilhamentos, comentários etc. Mas é a linguagem da tira se comportando como um simples meme. Isso me deixa maluco.

Acho que isso não é um problema dos quadrinhos, e nem das artes. No geral, a popularidade acaba elevando muitas pessoas a um status que, muitas vezes, não é merecido – pensando até em experiências passadas na faculdade, no mercado de trabalho, no geral da vida, sabe… No fim das contas, é como o meme que eu acabo repetindo nas tiras de Fanfiction: é o que o povo quer. O que é ser reconhecido, afinal? É uma pergunta meio complicada. Se a resposta é ter pessoas que gostam do seu trabalho, independentemente do que você estiver entregando, então você está sendo reconhecido.

Aos poucos, tenho pensado que reconhecimento não é isso, que é mais importante sentir que estou fazendo a história que queria fazer. Eu prezo mais isso, mas entendo que, pra muita gente, reconhecimento tenha o sentido de buscar um certo aval social. E não é algo errado… Financeiramente, com certeza, é uma escolha mais inteligente do que fazer tirinhas com piada de esquartejamento. Mas são escolhas de vida, eu acho [risos].

Já que a gente entrou na seara da qualidade, eu gostaria de comentar a evolução do seu desenho. Quando eu penso nos seus quadrinhos, sempre lembro do salto impressionante de qualidade do seu desenho que ocorreu em 2024. Tanto nas tiras online como nos zines impressos isso foi bem perceptível – no volume 1 dá pra ver que você era uma artista bem iniciante. A capacidade expressiva do seu traço e o próprio refinamento técnico evoluíram a olhos vistos. Você também nota isso? Como essa evolução foi possível?

O segredo é ser absurdamente chata comigo mesma [risos]. Como eu falei, sou autodidata, então todos os desenhos que faço aprendi por conta própria, por tentativa e erro – mais erros do que acertos. A parte boa e ruim de você ser o seu próprio professor é que você mesma precisa corrigir as coisas que faz. Pra muita gente, isso pode acabar caindo um pouco na questão da leniência, de achar que, talvez, tudo esteja bom, “posso continuar desse jeito”. Mas, no meu caso, é uma autocrítica excessiva: “isso não está bom o suficiente, preciso melhorar, treinar mais, me desafiar mais”.

O que faz essa mudança tão drástica no traço é eu estar me propondo a fazer coisas de forma diferente e estar sempre estudando como melhorar. É até engraçado você ter falado dessa mudança tão grande do volume 1 para o 2, porque, salvo engano, a diferença entre eu terminar um e começar o outro foi um mês.

Mas eu não sinto tanto essa diferença enquanto tô fazendo as histórias. Acabo notando isso quando olho o trabalho muito pra trás – tipo, não consigo mais gostar das tiras que fiz em 2024, pois acho que o meu traço mudou muito. E mesmo se eu for pegar umas coisas do começo do ano passado, já falo “isso está muito ruim, por que eu publiquei esse negócio?” [risos].

Acho que é realmente muito estudo – e eu também desenho o tempo todo. Uma das coisas que faço pra conseguir encaixar o desenho na minha vida é pensar em como exercitar os músculos relacionados a desenhar, pra já estar meio aquecida quando eu chegar em casa. Porque desenhar é um trabalho muito muscular. Eu já li entrevista da Bilquis Evely em que ela fala que fica uma hora fazendo aquecimento antes de desenhar uma página. Eu não chego a isso, mas não me sinto confortável ficando menos que quinze, vinte minutos me aquecendo, fazendo uns rabiscos. Tenho um caderno no trabalho só pra rabiscar, e o pessoal olha e “nossa, que bonito, você desenha. Você posta?”. Não falo que tenho Instagram pro pessoal do trabalho [risos].

Então, assim, eu estou o tempo todo desenhando. Tenho essa noção um pouco doentia de que, se não praticar, vou acabar perdendo habilidade. Por isso fico treinando meio que obstinadamente o tempo todo.

E quais são as suas referências atuais em quadrinhos? O que você leu ultimamente que lhe interessou a ponto de querer pegar emprestado pro seu trabalho?

Com certeza, Moomin, da Tove Jansson. Eu tô lendo agora uma coletânea de todas as tiras de jornal que ela fez quando estava encabeçando as histórias. E, assim, já é automaticamente um dos top quadrinhos da minha vida. Todas as soluções visuais que ela bola… Se algum dia eu achar que tô passando do ponto com as tiras de Fanfiction, é só olhar as coisas dez vezes mais ousadas que ela fez com HQ infantil nos anos 1950. Adoro toda a liberdade criativa que ela tinha e o traço super-refinado, o contraste em preto e branco. Eu gosto muito de histórias em preto e branco no geral.

Gosto também do trabalho da Marina Schenkel, embora eu não ache que tenha grande influência no meu trabalho – o que eu faço não tem nada a ver com o que ela faz, mas o traço dela é muito bonito. Sou fã da Amanda Miranda também. Um dos últimos quadrinhos que eu li dela foi Juízo.

No geral, estou tentando gravitar de volta aos quadrinhos mais antigos. Voltar a ler um pouco mais do Guido Crepax quando eu tiver a oportunidade. Apesar de eu fazer muitos quadrinhos, eu não leio tantos assim. É meio irônico.

Vamos entrar na sua vida de quadrinista: no fim do ano passado, você participou pela primeira vez de uma feira, certo? Como foi a experiência?

Eu participei de uma feira na minha cidade, em Campinas. Chamava Feira Cult e foi na Biblioteca Municipal, em dezembro. Foi um evento meio caótico, porque rolou num dia que tinha duzentos alertas da Defesa Civil dizendo que ia cair um toró catastrófico. E de fato choveu muito. Felizmente, nenhum quadrinho foi perdido no transporte – mas vários frequentadores, com certeza, foram perdidos naquele dia [risos].

Foi bom ter essa experiência, porque fazer quadrinhos é um ato muito isolado. Como comentei, eu nem peço muita opinião de ninguém quando estou fazendo. Sou só eu e as ideias da minha cabeça; de vez em quando as pessoas curtem o que eu posto, algumas comentam. Basicamente, então, a sensação é de que eu estou falando sozinha.

Mas lá na feira tinha até pessoas que são assinantes da minha newsletter; vieram me conhecer, comprar zines, conversar de filme. Do ponto de vista financeiro, foi um zero a zero, porque eu consegui pagar todas as contas geradas pra esse evento, mas não extraí qualquer lucro financeiro em cima. Realmente foi pouquíssima gente pro evento. E ainda estou tentando entender a quantidade certa de trabalhos pra levar, a ponto de não sobrar estoque, esse tipo de coisa.

É difícil a interação pessoal que as feiras demandam dos artistas?

É mais complicada a logística. Esse evento foi tranquilo, já que aconteceu na minha própria cidade, não teve uma questão envolvendo transporte e tal. O que acaba pegando um pouco é como organizar seu dia pra estar sempre disponível para as pessoas durante todo o evento.

Sobre a interação, é cansativo interagir com muitas pessoas ao mesmo tempo. A questão de conversar nem tanto, mas demanda fisicamente explicar para setenta pessoas sobre o que é o seu quadrinho, ir puxando outros assuntos. A feira foi num domingo, e na segunda-feira eu estava completamente imprestável. Acho que foi feriado no dia seguinte, e dei graças a deus por isso, porque eu não tinha condição nenhuma de trabalhar depois.

E como é a cena de quadrinhos em Campinas? Existe uma cena de quadrinhos aí?

Estou tentando descobrir. Pra falar a verdade, eu sinto que aqui em Campinas, e no interior paulista no geral, tem muita demanda por eventos e produtos alternativos – por um mercado independente mesmo –, mas existe pouca oferta, ou pelo menos pouca oferta organizada.

Só consigo pensar em duas feiras aqui em que você vai ter quadrinhos autorais expostos, sabe? Uma é essa pra qual eu fui, e a outra é um evento maior que geralmente ocorre em setembro, a Feira Sub. Acho que é organizada em parte pela Unicamp, tem uma comissão da Unicamp envolvida na curadoria. É uma feira de artes gráficas no geral, e você encontra até que bastante quadrinho lá no meio. Tentei participar ano passado, mas não fui aprovada. Vou tentar este ano de novo.

A gente já citou a sua newsletter, chamada Nedélia, aqui e ali, mas ainda não falamos diretamente sobre ela. É um espaço muito interessante, pois você expõe seu gosto pela escrita e revela as minúcias do seu processo criativo. Por que escrever uma newsletter?

O nascimento foi um pouco caótico. Eu já tinha ideia sobre escrever uma newsletter e o único assunto que eu teria pra falar seria o fazer quadrinhos, pois gosto muito de comentar a parte técnica do trabalho – e não tenho com quem conversar sobre isso. Então, talvez a saída fosse falar comigo mesma, num texto [risos].

Mas o que realmente me motivou foi a reeleição do Trump [risos]. De certa forma, já existia há muito tempo um desencantamento meu com redes sociais, mas isso nunca foi tão evidente ou tão escancarado desde que ele virou presidente. Porque na segunda posse dele, tinha todos os chefes das grandes big techs demonstrando claro apoio. E esse foi um momento em que eu vi muitos artistas falando que iam sair das redes sociais como forma de boicote – e também como boicote às políticas de inteligência artificial.

Aí surgiu um certo dilema: se eu parar de postar meus quadrinhos ali, eu vou postar onde? Vendo alguns outros exemplos de artistas, achei que o Substack seria uma boa. Eu sigo a newsletter do Gustavo Magalhães, que tem as tiras do No meio fio, e pensei que dava pra fazer alguma coisa do tipo.

Só que senti de novo aquela falta de confiança: será que a pessoa que já me segue no Instagram vai querer assinar a newsletter apenas pra receber a tirinha? Ou seja, entendi que precisava botar alguma coisa a mais. E assim veio a ideia de explicar como foi o processo de fazer aquela tira específica, por que ela saiu daquele jeito. Nas primeiras edições eu não tava sabendo muito bem o que fazer, mas aos poucos fui chegando num modelo melhor pra mim, de reflexão sobre o ato de fazer quadrinhos.

A Nedélia me obrigou a ter essa visão mais crítica em relação às minhas ideias, por que eu penso desse jeito. Virou um negócio meio psicanalítico mesmo. E foi positivo, pois acho que tô mais autoconsciente do lugar pra onde vou com as minhas histórias.

Nos textos da newsletter, você cita muitos filmes, livros, músicas. Qual a importância dos outros campos da arte para a sua vida de artista?

Acho que nenhuma arte sobrevive por si só, sem influência externa de outra arte. Pra mim, é totalmente indissociável dos quadrinhos que faço as minhas influências do cinema, da música e até da literatura. Dá pra dizer com tranquilidade que a Clarice Lispector influencia muito mais o meu trabalho como quadrinista do que o Sergio Toppi, por exemplo, mesmo ele sendo uma das referências que eu tive ao longo dos anos.

O contato com essas outras mídias me fez perceber que tenho muito mais apreço por buscar outros estilos narrativos, seguir uma ideia de que eu goste, do que me prender a um gênero específico. As histórias de que eu mais gosto não seguem um gênero muito próprio. Um dos meus livros favoritos é O mestre e margarida, do Mikhail Bulgakov – e tem magia negra, romance, drama político sobre ditadura na União Soviética, e é tudo uma coisa só. É como se a cada duas páginas você mudasse o gênero da história, mas aquilo junto faz sentido.

A música também me influencia bastante; gosto muito de bandas que contam histórias muito bem. Sou muito fã de Iron Maiden e do Depeche Mode. O Iron Maiden, por exemplo, tem música que é basicamente uma história de terror contada por uma pessoa bêbada – e a música seguinte fala do genocídio indígena na América. E tudo isso soa Iron Maiden: não importa qual a história sendo contada, tudo tem a personalidade deles. Eu sinto que esse contato com outras mídias não só traz referências, mas também traz essa filosofia para o meu trabalho.

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