Em defesa do quadrinho sobre o nada (com John Porcellino e Karipola)

A tantas na edição 57 de seu zine King-Cat Comix, John Porcellino desenha onze páginas de uma caminhada feita por ele durante a primeira noite primaveril de 1999. Ele se arruma para sair, anda pelo bairro, vê carros passando, atravessa praças, volta para casa, senta-se na varanda, se entretem com insetos nos arbustos do quintal, olha o céu estrelado.

A tantas no primeiro capítulo de Quase tudo são flores, Karipola pausa por diversas vezes a meditação que fazia – sobre o significado das flores na sociedade – para desenhar cenas de si mesma. Ela acompanha a espreguiçada bem esticada de sua gata, dá comida para a bichana, relata diálogos com a avó a respeito da beleza dos enfeites do Círio de Nazaré ou de como “de tanto pensar morreu o burro”.

Essas páginas contam pequenos momentos que mais parecem uma ode ao cotidiano, aos tempos mortos. Não acrescentam nada ao enredo e, por isso mesmo, são tão importantes. Por menores que sejam, merecem ter sido relatados para a posteridade. Nos lembram que a maior parte da existência é feita de coisas assim: aparentemente inúteis, completamente necessárias.

E representam mais: são o contraponto a uma parte de sucesso da produção nacional de quadrinhos encontrados na internet – cito a internet já que o ambiente online deve ser levado em máxima conta; queiramos ou não, é onde as HQs estão hoje em dia. Uma quantidade considerável de quadrinistas brasileiros (definitivamente maior que o ideal), responsável por abastecer o feed das redes sociais, pensa o quadrinho como mera ferramenta utilitária, um meio para um fim: cativar seguidores, surfar no algoritmo, conquistar fama.

Para alcançar o objetivo, instrumentalizaram-se as HQs em alguns filões: comentário da sociedade, marcado por pensatas políticas óbvias, criadas para públicos que concordam de antemão com o conteúdo postado; humor de memes surrados, para compartilhamento rápido; e tiras de relacionamento, para identificação instantânea. Tem mais coisa no bolo, mas é mais ou menos esse o cenário no qual nos metemos nos últimos anos. Parafraseando Orson Welles: é bonito, mas é gibi?

A questão se torna um grande problema pelo fato de artistas com enorme alcance online apostarem nessa equação nefasta. E fica ainda pior, no caso de quadrinistas que já fizeram trabalhos dignos e, mesmo assim, se rebaixam ao jogo do engajamento. A partir de determinado momento, tendo bom retorno de audiência, não importa mais o que se cria: um grande séquito de fiéis garante benefícios diversos a quadrinistas com HQs abaixo da crítica, incluindo oportunidades em editoras, prêmios, metas alcançadas em financiamentos coletivos, convites para eventos dentro e fora do País etc.

Ao ver isso tudo, é justo um autor iniciante pensar “se o famoso pode, por que não eu?”. Mas não podemos deixar que isso se torne mais um círculo vicioso da cena nacional. Nunca vi pesquisa alguma a respeito, nem deve existir, mas confio no meu tino: bastante gente lê HQ apenas via rede social. E se o leitor só tem contato com um conteúdo/forma rasteiros, para consumo e descarte imediato, por que daria atenção a um gibi fora desse espectro? Depois não adianta dizer que o mercado está ruim, que somente super-herói ganha atenção, que ninguém sabe ler um desenho.

E, ora, escapismo faz bem; não busco um decreto proibindo bobajadas no formato de gibi na internet. Mel Stringer e Fabiane Langona relatam encontros ruins com maestria visual, Caroline Cash criou uma linguagem própria para falar das experiências da geração Z, Paulo Moreira e Raphael Salimena ainda fazem piadas engraçadas. O problema está, então, em como fazer. Fica claro quando o trabalho é genuíno e quando é estelionato digital.

É dever do quadrinista educar seu público. E educar envolve, de vez em quando, apresentar imagens com as quais esse público não está acostumado a ver em gibi – incluindo passeios em noites primaveris ou conversas com a vó.

Porcellino em breve chega aos sessenta anos de idade. Não se encaixa no perfil de usuário intenso das redes sociais, apesar de postar bastante no Instagram e Facebook (geralmente, fotos de seus cachorros dormindo e de quintais cheios de plantas, ou análises de sabores de refrigerante). Mesmo Karipola, ainda jovem, não se deixa levar por tendências. Seus perfis multicoloridos, que conversam bem aos sentidos, são sóbrios nos assuntos abordados – e suas raras tiras tratam de reflexões sobre si mesma.

Quadrinhos podem, e devem, passar mensagem, marcar posição, dialogar com o noticiário e com temas da moda. Mas, antes de tudo, precisam ser quadrinhos. Está na hora de uma multitude de artistas se libertar do jugo do engajamento e abraçar as bençãos da arte com personalidade própria, aproveitando assim as infinitas possibilidades das HQs – inclusive as oportunidades surgidas no ambiente online (não sou contra elas). Ninguém aguenta mais tiras com a cara do Bolsonaro ou casais vergonha alheia.

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2 respostas para “Em defesa do quadrinho sobre o nada (com John Porcellino e Karipola)”.

  1. Avatar de alexandre s lourenço
    alexandre s lourenço

    Gosto muito do texto. Penso bastante no assunto. O quadrinho de rede social acaba carregando uma exposição que, independente dos seus méritos, acaba se tornando irrelevante. Não é só quadrinho, tudo perde o peso no digital. Tem sempre mais coisa na fila. Ainda, quem encontra algum caminho que o faz angariar uma audiência, muitas vezes, parece ficar preso no personagem, constrangido a apresentar (com pequenas alterações) o mesmo movimento, o mesmo número. De novo, de novo e de novo.

    Também, considerando a alternativa impressa, o que inexiste no virtual parece muitas vezes não encontrar vida no nosso mundo, mesmo quando em papel. A internet morta parece esvaziar a realidade.

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    1. Ótima reflexão, Alexandre. Gostei desse comentário de como a internet esvazia a realidade, o que não poderia ser mais verdade. Parece que o “real real” foi rebaixado pelo real inexistente do digital.

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