Gosto Ruim, de Mayara Lista

Os dois trabalhos mais recentes da carioca Mayara Lista apuram as boas ideias vistas em suas primeiras HQs, lançadas lá em 2018. A história dela presente no primeiro número da Harvi (publicada em 2022 pelo Selo Harvi) é uma das melhores dessa antologia cheia de pontos altos, pois aborda com sutileza, sem melodrama barato, o luto de uma garota pela morte de um familiar querido. Em Gosto Ruim, Mayara segue investigando os sentimentos de jovens mulheres, agora em relação a um momento menor, mas não menos importante – o primeiro beijo, incluindo o turbilhão de emoções, boas e ruins, que se segue a ele. Aqui, a quadrinista expõe de forma clara suas maiores influências: o ritmo e as construções visuais bebem do mangá alternativo feito por autoras japonesas dos anos 1970 a 90, mais especificamente Murasaki Yamada, Saito Nazuna e Tsurita Kuniko. As belas cenas de abertura e de desfecho, ambas com elipses e enquadramentos que escondem a ação, denotam isso. O enredo em si, ali pelo meio do gibi, fica apressado sem necessidade; mais páginas e um desenrolar mais lento fariam a diferença. O uso de retículas também deixa um pouco a desejar, com texturas muito parecidas em vários elementos do desenho – o trabalho da própria Saito é exemplar nesse sentido, variando os padrões pra deixar a arte mais dinâmica. No fim, o saldo final de Gosto Ruim é positivo, indicando uma clara evolução na capacidade de Mayara para contar histórias.

Beto e o Interlux, de Sebastião Dojcsar

Uns anos atrás, um menino ficava pra lá e pra cá durante eventos na Ugra Press, comic shop de São Paulo. Vira e mexe tirava da mochila umas folhas pra fazer desenhos, conversava com a galera da mídia especializada – já o vi até distribuindo zines pra algumas pessoas. Hoje, esse menino segue menino, mas já tem uma graphic novel de cem páginas para chamar de sua. Sebastião Dojcsar, no alto de seus dezesseis anos de idade, é a prova de que um ambiente artístico ajuda a criar artistas. Beto e o Interlux, HQ lançada pelo selo Pé-de-Cabra, pode ser adolescente na premissa e no desenvolvimento da história, porém revela um bom olho para soluções visuais, uma vontade de fugir do óbvio na construção da página. A trama segue Beto, dono de banca de jornal metido em conspirações interdimensionais. Como num game do gênero aventura, o protagonista precisa superar desafios, encontrar itens, solucionar quebra-cabeças, pra avançar no enredo. Se Dojcsar ainda vai se desenvolver na escrita, no visual nem parece novato: como bem disse Maria Clara Carneiro no Balbúrdia, sua arte é um amálgama do estilo underground de Fabio Zimbres, Emilly Bonna, Diego Gerlach, Ivo Puiupo e Victor Bello, embora esteja longe de ser cópia – vide uma decupagem bastante pessoal, que vai se adaptando para o que o quadrinho pede, de página com 24 quadros a splash page dupla. Não lembro de alguém tão novo com produção tão extensa – além de Beto, vale citar a trilogia de revistas Corpo de Tinta. Que venha muito mais.

FanFiction – Vol. 1: Como um Brinde, de Roberta Sofer

Apesar de não ser novo, o submundo das histórias criadas por fãs, usando universos de personagens de grandes propriedades intelectuais (Game of Thrones, Harry Potter e afins), ganha tração no atual estágio da cultura popular, em que parte dos espectadores quer ter controle total sobre os trabalhos consumidos. Pois Roberta Sofer inverte o conceito: em FanFiction, a estreante quadrinista inventa uma obra para fazer fanfic sobre ela – no caso, um seriado de mistério da televisão norueguesa, no qual personagens tentam solucionar um assassinato enquanto se veem presos em intrigas românticas. É como se fosse a vingança do autor contra quem encara a arte como mero produto – afinal, a fanfic está pronta desde o início. A HQ, porém, em nenhum momento se interessa pelo tema sob esse viés: Roberta quer fazer um humor suave a partir desse tipo de história açucarada. O primeiro volume da série tem dois contos curtos envolvendo detetives supostamente durões e testemunhas apaixonadas – importante: o enredo se desdobra em pequenos capítulos encontrados nas tiras postadas pela autora no Instagram. Mais que o texto esperto, é o ritmo das ações o destaque. As histórias são cheias de subtexto, olhares e silêncios que dizem muito sobre as intenções dos personagens. De negativo, a fonte usada nos balões, muito pequena, quase ilegível. FanFiction é uma sitcom sem afetação, marcada por desenhos de traços finos, com um quê de Tillie Walden e até Guido Crepax (curiosamente, as tiras online contam com uma arte mais chamativa que o material da edição impressa).

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