De ilustre desconhecido com gibis online que quase ninguém leu para autor com HQs publicadas na mesma semana por duas das principais editoras de quadrinhos do País. A reviravolta que a carreira de Luckas Iohanathan, potiguar de Mossoró, deu no final de 2023 deve ser fato único na história do gibi nacional. Seu primeiro quadrinho, O Monstro Debaixo da Minha Cama, lançado gratuitamente na internet em 2020, ganhou edição pela Pipoca & Nanquim, enquanto o trabalho inédito Como Pedra saiu pela Comix Zone.
A aposta repentina por parte de editoras num artista jovem pode parecer forçada, embora, ao tomar contato com suas obras, vê-se que Iohanathan é um verdadeiro talento geracional. E olha que seu melhor livro, Enterrei Todos no Meu Quintal, segue disponível apenas no formato digital – eu o mencionei em minha lista de melhores HQs de 2021.
A ideia de que alguém com somente 29 anos consegue fazer o que Iohanathan faz é assombrosa. Com domínio narrativo completo, seja suprimindo texto para contar a história visualmente, seja no uso de elipses ou na cadência das cenas, ele mais parece um artista experiente, com anos de estrada e de aperfeiçoamento de sua arte.
Em O Monstro Debaixo da Minha Cama, já se tem elementos que virariam características de seu trabalho, como a colorização em dois tons e sequências inteiras sem diálogo. É uma estreia digna, apesar de um pouco verborrágica. Uma história de abuso sexual infantil em tom de fábula, contada a partir do ponto de vista de uma criança e seus brinquedos.
Na sequência, em Enterrei Todos no Meu Quintal, o enredo se torna mais fragmentado para acompanhar a vida de uma fotógrafa, da infância à maturidade. Ocorre aqui um mergulho no campo do alegórico: certas imagens e passagens parecem descoladas do fluxo narrativo e temporal da trama – e, ainda assim, são emocionalmente essenciais para o que está sendo mostrado. No mesmo ano desse gibi, foi lançado por aqui Polina, do consagrado Bastien Vivès, com uma história cheia de semelhanças (a trajetória de uma mulher artista ao longo de décadas). Iohanathan deixa o francês no chinelo. Dá pra comprar a obra por módicos dez reais aqui.
Como Pedra atualiza Vidas Secas, de Graciliano Ramos, para um cenário do século 21, em meio ao fanatismo religioso que infesta o Brasil. No sertão sem chuva, o destino de um casal com filha PCD será definido pelo embate entre charlatanismo e algo realmente místico, inexplicável. Isso tudo flui para um final arrebatador – quase no sentido religioso do termo.
Entrevistei Iohanathan por e-mail no começo deste mês. Atualmente, ele mora em Rosário, na Argentina. A conversa entrou em assuntos como os desafios de escrever personagens com vivências diferentes das do autor e como uma ideia se torna tema para uma HQ.


Luckas, você lançou há poucos anos duas HQs de fôlego (O Monstro e Enterrei Todos), cada uma com cerca de cem páginas, em formato digital. Talvez o caminho mais óbvio para elas, até por não serem histórias curtas, seria o formato impresso, feito de forma independente ou via financiamento coletivo, quem sabe… Somente agora, com livros enfim publicados, você começa a ficar mais conhecido pelos leitores de HQs. Como foi seu caminho até o momento atual, em que duas editoras lançam gibis seus simultaneamente?
Quando fiz O Monstro, passei um ano mandando e-mail para editoras, mostrando o gibi e pedindo feedback, pois sabia que saindo por editora seria uma excelente forma de começar. Mas não tive muitas respostas – na verdade, apenas uma respondeu, demonstrando interesse, só que aí chegou a pandemia e acabou não rolando.
Como meu interesse era somente entrar no mercado, já que eu não tinha condições de imprimir por conta própria e nem de criar público indo em feiras e tal, resolvi lançar de forma gratuita na internet em 2020, o que acabou resultando em duas indicações ao Prêmio HQMIX. Durante esse tempo não parei de produzir, até comecei uma nova HQ e a deixei de lado.
Em 2022, pra minha sorte, teve o primeiro Prêmio Geek de Literatura da Amazon. Inscrevi os dois trabalhos que tinha e acabaram gerando interesse por parte do público, principalmente O Monstro. Embora tenha sido o finalista, não vi muita gente comentando sobre o Enterrei Todos – infelizmente, porque é o meu favorito (risos). Continuei produzindo mesmo sem nenhum horizonte pela frente e, no ano seguinte, tive a sorte de ser finalista de dois prêmios: venci o Prêmio Geek com O Monstro e recebi menção honrosa no Prêmio Latino-Americano de Quadrinhos com Como Pedra.
Assim foi minha “estreia” na cena. Não da forma que eu queria e esperava, mas acho que foi melhor.
Como e por que você começou a fazer quadrinhos? Comente um pouco sua relação com essa mídia.
Minha história com quadrinhos começou por causa do meu pai. Minha memória mais antiga era de uma caixa que ele tinha com várias edições dos X-Men, Homem-Aranha, Conan etc. e fiquei louco por aquilo. Acho até que falei para os meus pais que era isso o que queria fazer da vida – se não for uma memória falsa, claro (risos).
Então, desde pequeno eu faço “quadrinhos”: no começo, eu fazia minhas próprias histórias dos X-Men e, depois, com meus próprios personagens. Acabei me afastando um pouco dos gibis na adolescência, pois sabia que seria impossível viver disso, ainda mais sendo de Mossoró, onde só fui conhecer outra pessoa que também lia na faculdade. Mas em 2018, quando terminei a graduação em Publicidade e Propaganda, me dei conta de que eu não deveria envelhecer reclamando, sem nem ao menos ter tentado. Então, decidi fazer um quadrinho. Sabia que tinha de ter algo pronto para mostrar para as pessoas, e daí surgiu O Monstro.

Você comentou sobre conhecer pouca gente interessada em HQs na sua cidade natal. Felizmente, a cena de quadrinhos do Nordeste conta com uma enorme tradição construída na última década, com artistas como Shiko, Juscelino Neco e Gabriel Dantas, entre outros, alcançando renome nacional. É mais difícil criar um público para seus livros não estando localizado num grande centro financeiro do País?
É mais difícil, sim, não impossível. Acho que a internet hoje ajuda bastante os quadrinistas que não estão nos grandes centros a formarem um público. Mesmo assim, nessa corrida, esses lugares sempre largam na frente. São mais feiras, feiras maiores, com mais pessoas, além de um contato mais próximo com outros artistas – e não só dos quadrinhos, mas de diferentes áreas.
Suas histórias tratam de temas adultos e são, basicamente, voltadas para leitores maduros. Por que focar nisso e não num material de maior alcance, digamos, mais palatável a um público maior?
Acho que tem um pouco de não ver tantos quadrinhos brasileiros com temáticas, digamos, trágicas. E por outro lado, não chega a ser uma escolha muito consciente fazer esse tipo de história: eu escrevo sobre o que eu quero entender – nesse caso, o comportamento humano. Então, acabo tendo mais ideias voltadas para esse tema.
E como você escolhe um tema para transformá-lo em quadrinho?
Na verdade, eu não escolho bem um tema… Quando tenho uma ideia, começo a desenvolver assuntos que acho que caberiam na proposta. Mas é algo que só acontece no desenrolar da história mesmo, durante o processo.
Você já escreveu diversos tipos de personagens: criança, mulher em diferentes fases da vida, casal com filha pequena PCD. Como dar voz a personagens tão diferentes? Em algum momento já se sentiu intimidado por escrever sobre outras vivências?
Na verdade, não acho tão difícil, estamos cercados de personagens no nosso cotidiano. Sempre tento escrever com alguma pessoa que conheço em mente, seja em relação à personalidade ou aparência.
Intimidado, não fico. Claro que sempre surge a dúvida se estou conseguindo escrever de maneira crível. Por isso tenho o costume de pesquisar sobre a realidade das pessoas sobre as quais quero retratar nos meus trabalhos, antes de começar a produzir. Pra Como Pedra, isso não foi tão necessário, já que conheço muito bem essa realidade local – mas houve, sim, pesquisa sobre seitas brasileiras e crianças PCD.
Existem dois aspectos das suas obras que me encantam: a capacidade de narrar de forma fragmentada, sem perder a coesão do enredo, e a sensibilidade para aprofundar a psicologia dos personagens usando soluções visuais, dispensando muitas vezes a palavra escrita. Como você chega a esses resultados? Escreve um roteiro completo, com início, meio e fim, ou adapta conforme desenha?
Eu não chego a escrever um roteiro; quando tenho uma ideia, geralmente já sei como ela começa e termina, mas não como vai se desenvolver. E nem me prendo a isso, pois sei que vou mudar muita coisa.
O que faço é um roteiro visual, como se fosse um storyboard das páginas. Então, é um processo muito visual e vou deixando o texto entrar quando for necessário. Acho que muitos quadrinhos estão lotados de texto para evitar o silêncio. Eu prefiro o silêncio se não tenho nada a dizer.

Quais técnicas de desenho você usa?
Trabalho só com digital. Gosto de estudar no tradicional, mas na hora de trabalhar, prefiro o digital.
De onde vem a inspiração para colorir apenas com dois tons? É mais difícil pensar a narrativa visual assim do que se fosse em preto e branco ou cores diversas?
A inspiração para desenhar dessa forma vem da série Parker, do Darwyn Cooke; acho muito atmosférico. Se é mais difícil, eu não sei. Trato a cor como um personagem da história, uma emoção que só funciona naquele contexto – se fosse qualquer outra cor em determinada passagem, não teria o mesmo sentido. Gosto como trabalhar dessa forma cria espaços negativos, que narrativamente geram umas imagens interessantes.
Você acha que as cores são um elemento subestimado nos quadrinhos, tanto por artistas como por leitores?
Eu não sei se diria subestimado, nem acho que tenho autoridade para me aprofundar muito no assunto. Mas falando como leitor, acho que, na maioria dos casos, as cores são utilizadas apenas para representar de forma cromática os objetos nos quadros. Não que isso esteja errado, porém às vezes acho um desperdício não utilizá-las como potência narrativa, como elemento que conversa com o desenho e o texto.
Dentro das HQs, que trabalho de cores chama sua atenção?
Não conheço particularmente muitos coloristas, mas gosto das cores do Moebius, Darwyn Cooke, Manuele Fior, Jordi Lafebre.
Quais são suas inspirações artísticas?
Nos quadrinhos, tem alguns autores que eu admiro muito a forma como contam histórias e gosto de praticamente tudo o que fazem, como Alan Moore, Marcello Quintanilha, Daniel Clowes, Manuele Fior, Adrian Tomine. Sobre obras em si, acho que vale mencionar algumas que mudaram a forma como passei a ver a mídia: Avenida Dropsie (Will Eisner), Sabrina (Nick Drnaso), Polina (Bastien Vivès), Aqui (Richard McGuire), Hubert (Ben Gijsemans), Akira (Katsuhiro Otomo).
Indo para arte em geral, acho que tudo me inspira um pouco de formas diferentes. Escuto bandas que possuem uma sonoridade nostálgica como Beach House, Radiohead, Bon Iver etc., que é algo que busco nas minhas HQs. Na pintura, gosto muito de uma artista chamada Erin Cone; suas pinturas são minimalistas e retratam geralmente mulheres misteriosas, de costas, sozinhas no quadro, uma estética que me agrada muito e que conversa com meus quadrinhos. Assisto muito filme também, de Marvel à Tarkovsky, passando por Studio Ghibli, Roy Andersson, Paul Thomas Anderson etc.
Pra finalizar: como é a cena de quadrinhos em Rosário?
Não saberia responder isso, mas sei que mangás e super-heróis dominam as livrarias, assim como no Brasil. E com a crise financeira, que afeta até o preço do papel, tá complicado para as editoras apostarem em talentos locais. QR


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