“Não devemos, então, renunciar completamente ao objeto, jogá-lo ao vento e, em vez disso, desnudar o puramente abstrato?”

Wassily Kandinsky (pintor russo, 1866-1944)

Desde que a editora Comix Zone começou a publicar os trabalhos mais abstratos do argentino (nascido no Uruguai) Alberto Breccia, como Buscavidas e Era Outra Vez – O Lado Sombrio dos Contos de Fadas, vi diversos comentários jocosos na internet sobre o estilo atingido pelo velho mestre em determinado momento da carreira. “Passo isso aí com gosto”, “não curto esses gibis”, “parecem um desenho animado piorado”: bastante gente despreza o conteúdo de tais obras apenas olhando para a arte – e curiosamente, ou não, boa parte dessas mesmas pessoas apreciam as fases anteriores do artista, calcada numa representação mais “fiel” do mundo.

Também, comparado com isto aqui, qualquer coisa pode se passar por real.

Cena de Era Outra Vez

Beleza é um conceito pra lá de subjetivo. Nos quadrinhos, significa menos ainda. Adianta um desenho “bonito” (no sentido de emular proporções etc.) que não transmite sentimento, sensações, movimento? A arte pintada do ícone estadunidense Alex Ross, famoso pelo hiperrealismo de seus gibis de super-heróis nos anos 1990, até pode ser bela para representar o aspecto grandioso dessas revistas – embora, do ponto de vista acadêmico da pintura, seja descartável. No entanto, em relação à dinâmica da página, quase não tem o que dizer. Veja o exemplo abaixo, do lado esquerdo: os heróis lutam, trocam socos, salvam idosas… e mais parecem bonecos de cera no meio da ação.

Só que quando Ross estiliza o traço na direção de Jack Kirby (abaixo, à direita), deixando de lado inclusive a paleta de cores naturalista, ele consegue atingir certa potência, certa emoção.

O velho Ross e seus quadros semelhantes a stills; o novo Ross e suas luzes saltando da página (no vindouro Fantastic Four: Full Circle)

Ainda no quesito beleza, onde se encaixam os trabalhos recentes de Frank Miller, outro quadrinista comumente alvo de chacota? Desde a virada do milênio, o iconoclasta roteirista/desenhista não tem mais interesse em retratar a figura humana: suas ilustrações transparecem uma visão cínica, quase política, sobre os super-heróis. Talvez por isso mesmo muitos leitores torçam o nariz (e dá-lhe opiniões como “está gagá”, “Miller bom é o antigo”).

Mulher-Maravilha e Batman símios: ao invés das imagens genéricas produzidas mensalmente por DC e Marvel para o mercado de HQ mainstream, Frank oferece um olhar provocador. É feio? Importa?

Voltando a Breccia, o gênio portenho passara, décadas antes de Miller, pelo mesmo processo – e é maravilhoso saber que o norte-americano sempre cultuou o argentino como uma de suas maiores influências. Do intenso claro-escuro de Sherlock Time e Mort Cinder, passando pelo expressionismo de Um Tal Daneri e Perramus, Breccia chega a um abstracionismo grotesco em Drácula e nos gibis citados no início do texto. Por que esse movimento? Qual efeito ele buscava ao distorcer cada vez mais as coisas? Pra tentar entender, valer traçar um paralelo entre ele e um dos pioneiros da pintura abstrata, o russo Wassily Kandinsky.

Encantado pela escola impressionista quando jovem, Kandinsky foi aos poucos deixando seus quadros mais indefinidos até trabalhar somente com formas geométricas e linhas. Essa transformação não acontece por mero interesse na questão visual: ele foi ardoroso teórico da construção de uma linguagem para a pintura que fosse próxima à da música. Um quadro deveria ser “ouvido”, ao invés de apenas visto, tendo a capacidade de expressar ideias e evocar emoções sem precisar reproduzir o conhecido.

Em sentido anti-horário: A Montanha Azul (1908), Paisagem de Outono (1911) e Amarelo-Vermelho-Azul (1925). De cavalos e morros estilizados à abstração pura e simples, o estilo de Kandinsky se metamorfoseou ao longo dos anos de um jeito impecavelmente coerente

Breccia não chegou ao ponto de abolir o real. Porém, seu desenho parece derreter, negando o aspecto natural das figuras humanas (que se tornam seres fantasmagóricos) e dos cenários (que viram rabiscos ligeiros). Ele também incorpora à página matérias-primas como tecidos, rendas, papel rasgado, rótulos de produtos – outra forma de produzir um simulacro do plano físico. E o motivo pra isso não tem nada de complexo, é bem simples e óbvio, na verdade: a brutal ditadura militar argentina, cujo início se deu em 1976 (apesar de o país viver o espectro de golpes de estado desde 1966).

Até 1983, quando novamente ocorrem eleições gerais, estima-se que mais de 30 mil pessoas tenham sido assassinadas pelo regime. Cerca de quinhentos bebês foram sequestrados e adotados ilegalmente, separados da família por serem filhos de militantes de esquerda. Tortura e crimes sexuais eram política de estado. Uma das práticas preferidas dos milicos para fazer opositores sumirem sem vestígio se chamava “voo da morte”: envolvia jogar pessoas vivas, de aviões, no Rio da Prata. Colaborador e amigo de Breccia, Héctor Germán Oesterheld, escritor de O Eternauta e ferrenho crítico dos militares, desapareceu em 1977 – jamais foi encontrado. Mataram ainda suas quatro filhas (duas delas grávidas) e dois genros.

“Recebi ameaças de morte, meu filho também recebeu ameaças de morte, Oesterheld desapareceu… Um dia, uma voz anônima me diz ao telefone que vão explodir minha casa com dinamite. Devo ter me escondido por um tempo.”

Breccia, no começo dos anos 1980

Fica claro, então, que o autor estilizou o traço para evidenciar o mundo no qual vivia – não para fugir dele. Um desenho “belo”, ou realista, jamais daria conta da situação, e nem mesmo seus diferentes estilos das décadas anteriores seriam tão pungentes. A Argentina estava infestada por vampiros, povoada por sombras, contaminada pela morte, e as HQs de Breccia revelam essa sociedade em estado terminal de forma torta, confundindo o leitor. O horror está lá, à plena vista, porém nem todos conseguirão enxergá-lo.

“Eu tentava continuar desenhando e evitar problemas. Tinha de fazer coisas que, pelo menos na superfície, eram “palatáveis” de certo modo… Se um dia eles viessem me ver em casa, eu sempre poderia dizer: ‘Estou desenhando uma história esquisita, um pouco cômica, um pouco grotesca’. Talvez assim pudesse arrancar um sorriso deles, e evitar que me matassem com suas coronhas.”

O que parece de mau gosto, ou curioso, à primeira vista, se transforma no principal elemento narrativo desses gibis após um olhar mais paciente. É como entender Picasso: os periodos azul e rosa da carreira do pintor espanhol são únicos e impactantes, mas o cubismo sempre será seu ápice enquanto criador de vanguarda. A genialidade de Breccia reside principalmente na feiúra.

“Percebi que, com uma arma que pode parecer ridícula, como um pincel pequeno, eu poderia dizer coisas muito sérias, muito importantes.”

Curta a página de O Quadro e o Risco no Facebook e siga o blog no Instagram!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s