I was alone, I took a ride,
I didn’t know what I would find there
Another road where maybe I
Could see another kind of mind there

Ooh, then I suddenly see you,
Ooh, did I tell you I need you
Every single day of my life?

(Got To Get You Into My Life, The Beatles)

Mais que os elementos de ficção científica, mais que a ação frenética, mais que o protagonista buscando a redenção por meio de um amor esquecido, a principal característica de Heavy Liquid, do estadunidense Paul Pope, é ser uma ode às drogas enquanto ferramentas para a expansão das capacidades humanas.

As temáticas de seus quadrinhos indicam que ele não se limita a ser o dono de um reconhecível traço “sujo”, tão influente a partir do final dos anos 1990 a ponto de gerar dezenas de imitadores ainda hoje. Ele consegue trazer discussões relevantes para seus trabalhos, como a violência de um estado policial em Batman Ano 100 ou a situação das relações interpessoais num futuro alienante em 100%.

Não estou dizendo que todos os seus roteiros sejam um primor de escrita, veja bem. Heavy Liquid, recém-lançado pela editora Mino, por exemplo, só esquenta no terço final, quando assuntos importantes, até então apenas vislumbrados, enfim são desenvolvidos a contento. Antes disso, certas escolhas parecem não contar muito para o enredo, como cenas de perseguição e aspectos visuais (cenários, figurinos dos personagens) que estão lá mais para imprimir uma aura descolada de referências. E era o primeiro gibi de sucesso do rapaz, alguma inexperiência seria esperada.

Mas, como eu falava, drogas. Uma delas está no cerne da HQ, o tal “líquido pesado” do título, extraído a partir do aquecimento de um metal raríssimo, sobre o qual ninguém nem sabe a procedência. Tudo gira ao redor da substância: gangues se matam nas ruas para tentar encontrá-la; o protagonista junkie chamado S (a cara de Mick Jagger) contrabandeia o item pra cima e pra baixo com a ajuda de amigos; um colecionador de arte deseja uma escultura feita do material. Portanto, a droga e sua matéria-prima são a liga, material e metafórica, de uma sociedade futurista que precisa se chapar mesmo com toda a tecnologia existente.

E apenas na reta final da história as pretensões do autor se tornam claras. Revelam-se o passado de S enquanto agente repressor, como seu vício fora o estopim para o término de uma relação amorosa e, o mais importante, o que de fato é o líquido pesado. Muito bem conduzido do ponto de vista narrativo, o momento da resolução desse mistério injeta uma camada inesperada de significados na obra, transformando-a, guardadas as devidas proporções, num amálgama entre dois clássicos da literatura sobre psicotrópicos.

Outras questões, é claro, poderiam ser formuladas: por que você resolveu experimentar entorpecentes? Por que continuou a usá-los tempo suficiente para se viciar? Bem, você se vicia em entorpecentes quando não tem motivações fortes que apontem para outras direções. A droga pesada ganha por desistência. Eu a experimentei por curiosidade. Ia tomando umas picadas sempre que descolava a droga. Acabei fisgado. A maioria dos viciados com quem conversei relata a mesma experiência. (…) Quem nunca foi viciado não consegue entender o que significa precisar da droga pesada com a urgência do vício. Ninguém decide virar viciado. Certa manhã o sujeito acorda fissurado e pronto – é um viciado.
(…) Droga pesada não é um meio de aumentar o prazer de viver. Junk não é um barato. É um meio de vida.

Junky, de William S. Burroughs

O livro-memória de Burroughs, costumaz usuário de todos os tipos de entorpecentes ao longo de décadas, não romantiza nem condena a adicção. O padrinho da geração beat escreve com franqueza a repeito da vida de dependente químico. Ao analisar o vício num nível psicológico e pessoal jamais visto anteriormente, mostra que demônios podem rondar qualquer pessoa disposta a olhar para o abismo. S é uma dessas pessoas – alguém responsável por prender viciados que acaba se tornando aquilo contra o qual lutava. Nesse ponto, Heavy Liquid expõe o potencial destrutivo da droga caso ela seja a única válvula de escape de uma vida sem rumo.

Foi assim que, numa luminosa manhã de maio, engoli quatro décimos de um grama de mescalina dissolvidos em meio copo de água e me sentei para aguardar os resultados.
Tomei a pílula às onze. Uma hora e meia depois, estava sentado em meu estúdio olhando atentamente para um pequeno vaso de vidro. (…) Naquela mesma manhã, ao café, eu me dera conta da vivaz dissonância de seu colorido. Mas agora não era essa a questão. Eu já não estava olhando para um arranjo floral incomum. Estava vendo o que Adão havia visto na alvorada do dia em que fora criado: o milagre incessantemente renovado da existência nua.
‘É agradável?’, perguntou alguém. (…)
‘Nem agradável nem desagradável’, respondi. ‘Apenas é.'”

As Portas da Percepção, de Aldous Huxley

Por outro lado, a verdade por trás do líquido pesado dialoga com o livro-ensaio de Huxley a respeito de seu contato, sob olhar científico, com mescalina. Lançado em 1954, serviu como inspiração para a psicodelia dos anos 1960 e para a ideia de que a droga serviria como elemento de ativação da criatividade artística – algo muito ressonante na música daquela década, especialmente nas gravações de bandas de rock como The Velvet Underground, The Beach Boys, The Doors, The Beatles etc. Aliás, por falar nesses últimos, a letra da canção Got To Get You Into My Life abre este texto por conta de seu simbolismo: os versos românticos de Paul McCartney são uma declaração de amor à maconha, como ele mesmo explicara na biografia Many Years From Now.

Pope concorda com Huxley ao insinuar que alucinógenos levam a um contato íntimo com a essência de si mesmo e com os mistérios da existência. Afinal, nos fazem “sonhar acordados”, ativando padrões em áreas primitivas do cérebro ligadas à memória e às emoções.

A alteração da consciência é tradição milenar de nossa espécie. Da Grécia antiga à Índia, passando por Egito e Mesopotâmia, ópio e maconha eram cultivados e até comercializados em larga escala. No hinduísmo, a cannabis está associada ao deus Shiva (e o quadrinista Box Brown criou um ótimo panorama do histórico da planta em Cannabis – A Ilegalização da Maconha nos Estados Unidos). É nessa interseção entre droga e transcendência espiritual onde reside a moral de Heavy Liquid: a experiência humana não se limita ao plano físico. Existem substâncias, dadas a nós de presente por divindades, pela natureza ou, quem sabe, por seres extraterrenos, que são a chave para acessar os domínios do inconsciente – e cabe a cada indivíduo estar preparado para as consequências disso.

A HQ acaba de forma abrupta, antes de responder qualquer indagação sobre esses temas. Algo ruim? Pelo contrário, pois deixa a reflexão para o leitor. Mesmo assim, fica um gostinho de querer mergulhar mais fundo nas oportunidades abertas pela conclusão. Torcer para Pope explorá-las em uma sequência.

(OBS: impossível analisar o gibi e não mencionar o erro presente na versão nacional da Mino. Apesar da bela edição, em um formatão que valoriza a arte, permitindo maior imersão na história, uma página foi impressa sem tradução para o português. Numa época de preços de livros cada vez mais altos, falhas editoriais desse tipo – encontradas também em outras editoras – não deveriam acontecer. De qualquer forma, a Mino pensou em soluções para remediar o problema)

Curta a página de O Quadro e o Risco no Facebook e siga o blog no Instagram!

Um comentário sobre “Paul Pope, “Heavy Liquid” e as portas da percepção

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s