Se você nunca ouviu falar de Juni Ba, jovem quadrinista senegalês radicado na França, em breve ouvirá. Seu gibi autoral Djeliya, a estreia internacional do artista, será lançado em breve no Brasil pela Skript – o financiamento coletivo para a edição entrará no ar pelo Catarse semana que vem, dia 21. Além disso, cada vez mais, o artista se faz presente no mercado mainstream norte-americano, seja criando capas para editoras como IDW e Boom! Studios ou desenhando histórias de títulos relacionados ao universo do Batman pela DC Comics.

(Justiça seja feita, o primeiro brasileiro que vi comentar sobre o talento desse rapaz foi Alexandre Linck, do Quadrinhos na Sarjeta)

Capa da edição norte-americana, publicada pela editora TKO Studios em junho

E, pelo que mostrou nessa obra, Ba tem tudo para trilhar um futuro enorme. Seu traço cinético engana: personagens e cenários parecem ultradetalhados, mas, numa segunda olhada, contam com características visuais suficientes para serem reconhecidos pelo leitor em meio às cenas (tal qual o estilo de sua influência confessa, Mike Mignola). É o menos que vira mais graças à fluência da ação – e bota ação nisso. Djeliya pode ser definido como a versão impressa de um desenho animado frenético, no estilo dos de Genddy Tartakovsky (Samurai Jack, Primal), com um enredo que referencia mitos e folclore de Senegal e da Costa Oeste africana. Ao invés de se inspirar na cultura estrangeira, na qual cresceu mergulhado, o autor olha para dentro de si e de seu país.

O protagonista, príncipe Mansour Keita, último membro de um reino em ruínas, parte em busca de um misterioso mago que destruiu sua terra natal tempos atrás. A seu lado, vai Awa Kouyaté, a última representante dos djeli – linhagem de contadores de histórias cuja função é manter vivas as tradições desse povo, passando-as de geração para geração. Último príncipe, última representante… A HQ fala muito sobre o fim das coisas, sobre a morte (física e das ideias), e pergunta ao leitor o que fazer para a construção de um futuro renovado – dica: somente pela (re)descoberta da própria identidade. É uma obra juvenil e espirituosa, cheia de fantasia e ficção científica. Mesmo assim, provavelmente conversa ainda melhor com adultos, pois retrata um realidade africana, de pequenos poderes e autoritarismos, muito mais próxima da realidade ocidental, e mesmo brasileira, que aparenta.

Conversei com Ba por e-mail a respeito da recepção da obra pelo mundo, do segredo para criar sequências visualmente funcionais e do aspecto universal da trama de Djeliya. A conversa segue abaixo.


Juni, este ano no Brasil, está prometido o lançamento de alguns gibis de autores oriundos da África, algo pouco usual por aqui. E, até por causa disso, existe um curioso fenômeno de leitores e mídia especializada generalizando esses trabalhos, chamando-os apenas de “quadrinhos africanos”, como se fossem produzidos sob as mesmas circunstâncias políticas, sociais e artísticas. Em uma entrevista para o The Comics Journal, você disse que não concorda em encaixar Djeliya no subgênero “afrofuturismo“, termo usado por certos críticos internacionais para falar sobre a HQ. Se não me engano, você também já recusou chamar a obra de “tribalista”. Talvez seja tudo parte do mesmo problema: a falta de interesse em analisar as coisas de forma mais profunda. Dito isso, como você enxerga a recepção de Djeliya em outros países?

Por enquanto, tem sido ótima! Eu sempre digo que esse é um livro para qualquer um que queira lê-lo, independentemente de sua origem. Fico feliz de ouvir que alguém do outro lado do mundo gostou do que criei e tirou algo de proveitoso dali. A HQ também costuma fazer as pessoas refletirem a respeito das situações sociopolíticas nas quais estão inseridas, e a respeito do impacto de como moldamos as histórias. Então, isso é muito bom de ver.

Apesar de ser um quadrinho que discute temas específicos de uma região específica, é inegável o caráter universal do principal tema de Djeliya: o que pode ser feito com um legado. Por que você se sentiu atraído por essa mensagem?

Eu acho que é o resultado de ter nascido em uma família de pessoas com certa influência – especialmente um avô militante pela independência do país e uma avó professora. Eu escutei tantas vezes o quão incríveis eles foram, e as coisas maravilhosas que tinham feito, que era até engraçado comparar isso tudo com a simplicidade humana de ambos. E, então, você também aprende a comparar o que os livros de história dizem com aquilo que as testemunhas de eventos históricos dizem. Um exemplo óbvio é como o sistema escolar francês omite inúmeros acontecimentos relevantes sobre o colonialismo, acontecimentos esses que, de uma forma ou de outra, meu pai acabou me contando.
Dessa forma, eu queria uma trama sobre isso, sobre o fato de que se tornar uma pessoa mais completa é também aprender, e reconhecer, que as histórias contadas para você são mais complexas que as narrativas oficiais sobre elas. Algumas coisas são esquecidas, ou omitidas, de propósito para servir a alguém.

Você se preocupa com a possibilidade de que seu trabalho seja considerado somente uma obra “exótica”, já que parte da audiência branca e ocidental pouco considera a importância da cultura e dos valores africanos?

Acredito que isso possa acontecer, mas sinceramente nem ligo. Não estou tentando mudar a mente das pessoas, ou convencê-las de nossa relevância. A opinião delas não me interessa, não preciso provar nada. Espectadores ou leitores se apegando a coisas erradas em obras artísticas é algo que ocorre bastante, por isso decidi que é melhor nem ir atrás desse tipo de situação.

Tem uma série bem boa da Vertigo, de 2008, que dá uma roupagem nova ao antigo personagem da DC, Unknown Soldier. Faz um análise do interminável ciclo de guerrilha em algumas regiões da África – conflitos, na verdade, criados por forças imperialistas que usam seres humanos como peões para não sujarem as mãos. Uma coisa interessante é o final do gibi, que sustenta que as questões africanas devem ser solucionadas por africanos, não por potências políticas de fora ou tropas da ONU. Pra mim, o fim de Djeliya faz uma afirmação semelhante. Você concorda?

Acho que o ponto principal é: se alguém quer ser independente e ter o controle do próprio destino, esse alguém deve resolver seus problemas. Ajuda de fora é bem-vinda, mas nunca deve ser a força maior. Autonomia também significa não confiar a outros as suas adversidades, mesmo se esses outros contribuíram para criá-las.

Política e questões sociais à parte, você já revelou que a estética de seu trabalho vem dos desenhos animados aos quais assistia quando criança. Acho justo dizer, então, que Djeliya é uma excelente tradução de um cartoon cheio de ação para o papel, com sequências visuais fluidas e cheias de movimentos, deixando claro o que acontece na página. Como você sabe que uma cena específica está “legível” do ponto de vista da arte?

É muito baseado na intuição e em tentar direcionar o olho usando linhas. Por exemplo, posicionar os elementos de tal forma para que o leitor possa passar de um para outro com facilidade. Isso me ajuda bastante a simplificar o traço e me livrar de desenhos cheios de detalhes.
Minhas influências são um misto de coisas como Cartoon Network, mangás e quadrinhos franceses dos anos 1990 e 2000 – e com uma grande influência das HQs norte-americanas que descobri quando tinha uns 19 anos, mais ou menos. Uma óbvia referência desse período é Hellboy.

Fico feliz de você citar Mike Mignola, o cara é um gênio. Naquela mesma entrevista para o The Comics Journal, você disse que começou a aprender inglês para que pudesse ler esses gibis estadunidenses na língua original. Nessa época, você já vivia na França?

Não, ainda morava em Senegal naqueles tempos, e digamos que a falta de acesso era um grande motivador para eu ir atrás das coisas.

Sobre suas raízes por lá, que tipo de arte senegalesa te impressionou na infância e adolescência e pode ser encontrada hoje em seus quadrinhos?

É difícil dizer, porque eu poderia apontar coisas específicas, mas foi mais um resultado de osmose. Eu consumia tudo 24 horas por dia, então tudo me impactava, da moda à música. Porém, uma influência cada vez maior no atual momento é o cinema de Sembène Ousmane.

Voltando ao Djeliya, qual sua relação pessoal com os mitos e folclore presentes no enredo? 

Eu descobri muito mais a respeito da cultura do meu país e do meu lado do continente graças a eles. Foi realmente especial ler essas histórias, aprender a história. Dão maior contexto ao modo como o mundo se define atualmente para mim, e me ajudam a entender as coisas de uma forma mais clara.

Por que misturar esse folclore com ficção científica?

O curioso é que eu não penso na obra como ficção científica. É pura fantasia, e dentro dessa fantasia fiz o que eu queria ter feito.

Pegando esse gancho, para finalizar: você acha que existem poucos quadrinhos de fantasia com o objetivo de ajudar a entender o mundo real?

Eu imagino que todos façam isso. Além do puro escapismo, é a própria base do gênero.

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2 comentários sobre ““Se tornar uma pessoa completa é aprender que as histórias contadas para você são mais complexas que as narrativas oficiais sobre elas” – entrevista com Juni Ba sobre “Djeliya”

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