“Enquadrado” é uma nova coluna do blog. Neste espaço, ao invés de comentar obras como um todo, pretendo analisar sequências ou páginas específicas, momentos que saltam aos olhos pela criatividade na diagramação, fluidez de leitura, soluções visuais únicas… Enfim, pelo bom uso da linguagem dos quadrinhos. (Com textos menores, também conseguirei escrever mais sobre mais gibis)

Pra começar, um lançamento que passou ao largo do grande público: Blueberry – Amargura Apache, lançado pela editora Faria e Silva. Não que seja uma aventura memorável do icônico personagem, criado nos anos 1960 pelos franceses Jean-Michel Charlier e Jean Giraud (Moebius). O álbum, escrito por Joann Sfar e desenhado por Christophe Blain, faz bem o papel de oferecer uma nova roupagem à clássica série – e fica nisso. Seu enredo envolve vingança, indígenas, exército e uma comunidade liderada por um pastor insano. Pessoas morrem sem necessidade e a tensão escala de forma não prevista até chegarmos a um final anticlimático, já que tudo se encerrará no próximo volume, ainda nem lançado lá fora.

De qualquer forma, se o roteiro não entrega algo complexo, é sempre bom apreciar a arte e as cores – ah, as cores – de Blain. Com um traço menos caricatural que o encontrado em Gus, outro faroeste feito pelo artista, ele se inspira em atores famosos para trazer o peso desse gênero cinematográfico à HQ: o interesse amoroso do protagonista ficou a cara de Claudia Cardinale em Era Uma Vez no Oeste, enquanto um soldado se parece muito com Woody Strode no mesmo filme. Vale citar ainda as cenas noturnas de cair o queixo, com um claro-escuro que inunda as páginas com sombras.

Mas, pra mim, uma sequência pouco relevante no quesito dramático revela a capacidade do artista de criar relações entre os elementos que compõem uma obra visual. Bem no começo do livro, uma tentativa de crime sexual termina assim:

A indígena que tentava livrar a filha das garras de um estuprador leva um tiro na cabeça, e o barulho alerta Blueberry, que descansava pelas redondezas. Nada inovador do ponto de vista da decupagem, não fosse o toque genial de fazer a onomatopeia do primeiro quadro invadir o segundo. Sem isso, a cena continuaria fazendo sentido: o tenente acorda assustado com um disparo ali perto – alguns até poderiam achar necessário um balão de pensamento ou de diálogo (“o que é isso?”) pra deixar a relação entre os fatos mais direta.

Porém, a escolha de Blain por esticar a onomatopeia pela página implica diretamente na construção de uma sensação de veracidade, indo ao encontro da arte “realista” comentada anteriormente. Ao reproduzir um fenômeno físico real (a reverberação do som por um espaço aberto), o mundo habitado por aqueles personagens se torna vivo, dinâmico, sujeito a situações incontroláveis – assim como o nosso mundo, assim como as pradarias do Velho Oeste americano. Um lembrete de que a ambientação de uma história, a integração do espaço cênico com os personagens, valem tanto quanto os fatos narrados.

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