Embora tenham existido inúmeras mulheres surrealistas ao longo do século 20, poucas são lembradas no mesmo nível de suas contrapartes masculinas famosas, como Breton, Magritte e Dalí. A exceção talvez seja Frida Kahlo, apesar de ela rejeitar tal classificação (“Nunca pintei sonhos. Pintava a minha própria realidade”). Nos quadrinhos, homens cujos trabalhos podem ser associados a esse movimento artístico vêm sem demora à mente: o espanhol Victor Moscoso, o americano Jim Woodring, o italiano Lorenzo Mattotti.

Mas não se lembrar da francesa Nicole Claveloux como uma importante representante do surrealismo, e também da psicodelia, nessa mídia é uma falha histórica em processo de reparação. Misturando o figurativo ao abstrato, o cotidiano às manifestações da mente e às questões psicanalíticas, ela marcou seu nome entre os grandes da bande dessinée na década de 1970, transformando-se numa espécie de herdeira estética do pintor alemão Max Ernst. Do alto dos oitenta anos de idade, a artista vê seus quadrinhos alcançando uma nova geração de leitores, graças a reedições de luxo lançadas na Europa e na América do Norte. Ainda assim, aqui no Brasil, chuto que apenas um punhado de pessoas tiveram contato com sua relevância histórica. Por isso mesmo, precisamos falar sobre Nicole Claveloux.

Claveloux por ela mesma

A traição das imagens
Nascida em 1940, na cidade de Saint-Étienne, Claveloux estudou na Escola de Belas Artes local. Quando se muda para Paris após a faculdade, passa a ilustrar livros infantis, incluindo uma adaptação de Alice no País das Maravilhas. Em breve, tornaria-se uma das primeiras artistas francesas a colaborar para a Harlin Quist, editora americana reconhecida pelas publicações voltadas aos pequenos leitores – a título de curiosidade, algumas obras para as quais fez ilustrações chegaram a aparecer na lista de indicações do jornal The New York Times.

Sua produção de HQs começa em 1971, com Hop-là! Dans un Ciel de Printemps, escrita por Bernard Bonhomme. Na sequência, viriam gibis ainda imaginados para crianças, como a série com a personagem Grabote, uma garotinha que vive num mundo mágico de criaturas fantásticas. As histórias de Grabote ganham as páginas da revista Okapi (um importante periódico infanto-juvenil em língua francesa, publicado até hoje) em 1973, tendo sido compiladas em álbuns nessa mesma década, inclusive nos EUA.

Quatro páginas do álbum Go, Go, Go, Grabote!: essas histórias têm cores vivas com traços ora realistas, ora cartunescos, muitas vezes sem diálogos

Àquela altura, a quadrinista tinha enorme influência da arte psicodélica dos anos 1960, especialmente a do ilustrador tcheco-alemão Heinz Edelmann, diretor de arte de Submarino Amarelo, animação estrelada por versões desenhadas dos Beatles. Outras inspirações claras nesse sentido são a também icônica animação Planeta Fantástico, de René Laloux; os materiais gráficos criados pelo estúdio de design americano Push Pin Studios; e até as colagens feitas por Terry Giliam para o grupo de humor britânico Monty Python.

As inspirações: Edelmann,…
O Planeta Fantástico,…
…Push Pin Studios…
…e Terry Gilliam

Tempo trespassado
Em 1976, ocorre uma mudança de foco em seu trabalho. Apesar de seguir fazendo Grabote, Claveloux dá dois passos enormes na direção de uma produção com temáticas maduras nas HQs. O primeiro é emplacar histórias na lendária revista Métal Hurlant, assim como em sua versão americana Heavy Metal, o que a fez atingir um público considerado adulto. O segundo é a participação em Ah! Nana, antologia totalmente feita por mulheres, fundada naquele mesmo ano. Lançada pela Les Humanoïdes Associés (a mesma editora de Métal Hurlant), a publicação abraçava os conceitos do movimento feminista francês, conhecido pela sátira aguda dos costumes da sociedade, e o aspecto estético/temático do gibi underground americano. A prova da fascinação das francesas pelo espírito contestador das quadrinistas do outro lado do Atlântico está na presença, em vários números de Ah! Nana, de material feito por algumas das criadoras da pioneira antologia independente feminina Wimmen’s Comix, como Trina Robbins e Sharon Rudahl.

Sobre esse momento na carreira de Claveloux, a quadrinista Amanda Miranda comenta sobre como o sexo se torna um assunto recorrente a partir dali:

De todas as facetas dela, a que mais me fascina é sua perversão. Nas entranhas de desenhos adoráveis, multicoloridos, existe uma exploração da imagética erótica e fetichista, às vezes com toques do absurdismo francês de Georges Bataille. Nicole arrisca: seu catálogo consegue manejar a justaposição do imaginário infantil com genitálias, testando nosso senso de humor. Essas cenas exageradas, construídas com linhas hipnóticas, instigam entre o desejo e a repulsa do “estranho familiar” (Unheimlich).

Na coletânea The Green Hand and Other Stories, lançada pela New York Review Comics em inglês, é possível degustar seu senso erótico em pequenas doses, como em A Little Girl Always In a Dream, uma das poucas nessa coletânea onde o roteiro é assinado por ela mesma. Assistimos a uma garota entrar em estado de êxtase ao se divertir com o braço de uma cadeira – e a trama segue mostrando as nuances de sonhar em amadurecer, fantasiar a menstruação, para, entre olhares repressivos, usar do cinismo de forma a dobrar os aspectos inconvenientes do gênero ao seu favor.

Esse conceito de misturar ironia e erotismo está presente desde o pequeno conto feito para a primeira edição de Ah! Nana: em Histoire de Blondasse, de Belle Biche, et de gros Chachat (incluída na antologia citada por Amanda), Claveloux usa iconografia sadomasoquista, representa o diabo na figura de uma mulher e termina com o nascimento de filhotinhos meio humanos meio felinos, frutos da relação entre uma criança e um gato falante
A Little Girl Always In a Dream: a descoberta da sexualidade em imagens mais sensoriais do que explícitas
Ilustração do livro Confessions d’un monte-en-l’air, de 2008: Claveloux seguiu desenhando sexo em suas variadas formas. Amanda Miranda aponta uma questão interessante a esse respeito: “Minha hipótese, a princípio, era de que ela fazia trabalhos comerciais pra pagar as contas – e somente nos quadrinhos experimentava mais. Mas a real é que ela levou essa estética para vários álbuns eróticos ao longo das décadas, contendo suruba, personagens de conto infantil pelados, Branca de Neve dominatrix”

Como visto acima, nessa época a psicodelia havia deixado de ser o conceito central de sua arte. Novas referências entram em campo: o contraste entre o preto e o branco ganha destaque, assim como a presença de hachuras e de uma iluminação mais naturalista, algo que pode lembrar as ilustrações do pintor francês Gustave Doré. As composições de páginas, assim como os seres fantásticos retratados – incluindo a representação de pequenos anjos, demônios e seres celestiais –, parecem vir da pintura flamenga, especialmente de Hieronymus Bosch, cujo estilo pode ser considerado uma espécie de proto-surrealismo, séculos antes do Manifesto Surrealista de André Breton.

Doré (no alto) e Bosch (embaixo)

Europa após a chuva
E é exatamente o surrealismo a fonte das principais ideias para as mais renomadas HQs de Claveloux. Os cenários, por exemplo, fogem da estética de ficção científica encontradas no trabalho de Moebius e Philippe Druillet: ao invés de construídos pela humanidade ou versões reconhecíveis da natureza, nos gibis dela são espaços enigmáticos, quase desoladores, marcados por formas que só poderiam ter nascido no subconsciente. Os personagens também se caracterizam pela estranheza, pelo aspecto onírico de suas aparências. Em The Little Vegetable Who Dreamed He Was a Panther (1977), como o título indica, um pequeno legume reflete a respeito de suas aspirações – e as questões psicológicas que o impedem de atingi-las.

Uma plantação de tubérculos com feições humanas mais parece um quadro de Dalí
Voltando a A Little Girl Always In a Dream, essa história também conta com imagens dignas de delírios, como esses quadros mostrando pequenos seres nascendo de frutos

Na obra-prima The Green Hand, essa influência chega ao ápice. Lançada em 1978, é das grandes histórias sobre relacionamentos amorosos já feitas no formato de quadrinhos, cheia de subtextos e metáforas que permitem diversas interpretações de seus significados. O roteiro é da escritora surrealista-feminista Edith Zha: ela literalmente sonhou com os acontecimentos do primeiro capítulo – e algo semelhante aconteceria pouco tempo depois, quando teve a ideia para Dead Season, outra clássica parceria entre as duas artistas, a partir de um estado de estupor alcoólico.

A protagonista de The Green Hand, uma mulher sem nome, mora num apartamento com um pássaro gigante. Subentende-se que formam um casal, embora não se mencione isso de forma direta. Seus encontros e desencontros se desenrolam em meio a ciúme, arrependimentos, abandono e aventuras individuais, incluindo insinuações de experiências homossexuais. Ao fim de tudo, ambos entendem suas necessidades pessoais e, enfim, podem caminhar juntos – mesmo sem um rumo definido.

Claveloux desenha isso usando degradês e tonalidades fortes. Os ambientes são banhados por cores diversas (verdes, azuis, roxos), o que aumenta a sensação de irrealidade das situações. É como se esses espaços, apesar de calcados no mundo em que vivemos, existissem em outro plano.

Dá pra enxergar muito das pinturas de Max Ernst nessa e em outras HQs da quadrinista. O aspecto orgânico das construções e objetos, além da forma bizarra das criaturas, são os mais evidentes (abaixo, dois quadros do alemão)

Dead Season and Other Stories, segunda compilação com obras da francesa pela New York Review Comics, sai nos EUA no início de 2022. Será mais uma prova da maestria de seus traços e temas para o resto do mundo. E já que é época de redescobrir Claveloux (vale, inclusive, conferir este vídeo mostrando uma exposição sobre ela no Festival de Angoulême), esperamos que o Brasil entre nessa rota rumo a um passeio pelos domínios do inconsciente.

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