“Has it ever struck you that life is all memory, except for the one present moment that goes by you so quick you hardly catch it going?”

Tennessee Williams

Um dos grandes momentos da literatura no século 20 é o “episódio da madalena” em Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust: o narrador do romance se vê inundado por lembranças da infância ao comer esse tradicional bolinho francês durante um chá. O sabor, o cheiro do alimento, abrem um baú de sensações antigas, recordações físicas de uma época que não volta mais.

Guardadas todas as devidas proporções, o quadrinista espanhol Paco Roca segue o caminho traçado por Proust ao escolher a memória como tema fundamental de sua bibliografia. Os dois gibis do autor publicados no Brasil (Rugas e A Casa, ambos pela editora Devir) são exemplos da vontade de tentar entender a função psicológica, e até social, da memória, essa entidade que nos assombra a cada instante.

Vários outros quadrinhos de Roca giram ao redor do assunto. El Faro (publicado nos Estados Unidos pela NBM com o nome The Lighthouse) mistura o panorama sangrento da Guerra Civil Espanhola com mundos mágicos de aventuras infantis; Los Surcos del Azar (Twists of Fate, na versão americana da Fantagraphics) relembra a participação de uma companhia de soldados espanhóis na Segunda Guerra Mundial; Las Calles de Arena parte de um causo curioso da juventude do autor, quando se perdera nas ruas do centro antigo de Valência, para brincar com realismo mágico; El Invierno del Dibujante (The Winter of the Cartoonist, na edição da Fantagraphics) também faz um relato histórico – voltarei a ele mais tarde.

Mas talvez as duas mencionadas lá no começo sejam as que mais vão a fundo na questão, já que abraçam o conceito proustiano da “memória involuntária” – aquelas lembranças ligadas ao olfato, paladar e demais sentidos. Rugas conta a chegada de um idoso com Alzheimer a um asilo, enquanto A Casa mostra filhos, após a morte do pai, reformando a residência na qual passaram a infância com o intuito de vendê-la.

Como, então, abordar uma matéria tão cheia de nuances? Existem vários exemplos em variadas mídias: Machado de Assis escrevia, em primeira pessoa, relatos pouco confiáveis de protagonistas que deturpavam fatos antigos; Alain Resnais fundia o presente ao passado em seus filmes, destacando o caráter fragmentário da memória; o animador Don Hertzfeldt desenha bonecos palito para refletir a respeito do peso das gerações anteriores na formação da individualidade. Já Paco Roca tem foco no aspecto corriqueiro: a memória como parte do dia a dia. Ele se volta ao minimalismo, ao micro em oposição ao macro, fazendo com que pouca coisa aconteça no enredo de seus livros. Isso é ruim? Não para o que se propõe. Sem foco em tramas com longos arcos de desenvolvimento, o artista trabalha as emoções e relações entre personagens cena a cena, momento a momento. Dessa forma, boa parte das sequências encerra-se em si mesma, como se fosse capítulos fechados de um todo.

E essa estrutura narrativa se traduz na proposta visual. As páginas do espanhol reforçam um sentimento de melancolia, de saudade, ao alongar as ações. Esteticamente, a maioria de seus trabalhos mescla as principais características de dois mestres do cinema japonês – também interessados no cotidiano e na repetição. De Kenji Mizoguchi, pega emprestado a ideia de “one scene, one shot“, na qual uma única tomada, em um mesmo espaço, comporta uma cena inteira. De Yasujiro Ozu, o enquadramento fixo com composições geométricas. Pois vejamos na prática:

Esse extenso diálogo em El Invierno del Dibujante é o resumo perfeito da tal estética Ozu-Mizoguchiana: um único enquadramento usado por toda a cena

O começo de uma sequência, geralmente, terá dois ou três quadros para localizar o leitor em relação a onde a ação ocorrerá. Depois de familiarizá-lo, o autor segue o conceito “estático”

A partir da estrutura básica dos exemplos anteriores, Roca fica livre para variar o formato, a fim de criar diferentes efeitos dramáticos. Aqui, nas primeiras três páginas, a conversa de um dos protagonistas de A Casa com um vizinho tem pequenas rotações no enquadramento, um plano-contraplano mostrando as duas pessoas individualmente e um plano geral da esquina. As duas páginas finais revelam como o quadrinista insere a verticalidade e a horizontalidade dos cenários em seu esquema de repetição

Outra variação é colocar eventos simultâneos na mesma página. Na cena de baixo, presente em Los Surcos del Azar, a coluna da esquerda tem soldados tentando controlar o embarque, enquanto a invasão da multidão está na coluna da direita
Nesse mesmo gibi, os vários momentos de ação que se passam em meio à guerra têm um ritmo mais frenético, fugindo do padrão comentado até aqui. Ainda assim, há espaço para diagramações como a acima

Curiosamente, Rugas conta com poucas sequências contemplativas, sem movimento, embora a repetição faça parte do contexto de várias cenas. Porém, o tema da “memória involuntária” é central na HQ – ou melhor, o tema da batalha para que a memória não escoe pelo ralo do esquecimento. Quanto mais o Alzheimer se desenvolve, mais o protagonista Emílio perde contato com o que faz dele o indivíduo Emílio: a capacidade de reconhecer faces, o controle motor etc. Tudo vai embora como um software desinstalado num computador. Mas ainda há estímulos (sons, palavras) capazes de esboçar sorrisos, e a mais bela cena da obra define isso com sutileza – um flashback clássico, sem ousadia estética, e ainda assim forte o bastante para emocionar:

Por sua vez, em A Casa, são espaços físicos e objetos os responsáveis por reavivar lembranças. E a residência vazia, cheia de rachaduras, vazamentos, mato crescendo, é a incorporação da tristeza de uma família por ter de seguir em frente, sem um lugar-conforto. Roca representa visualmente a nostalgia sobrepondo passado e presente na mesma página – e até mesmo no mesmo quadro. Vale lembrar que o gibi surgiu para homenagear o falecido pai do autor; portanto, ele sabia na pele quais emoções deveria colocar no papel.

Acontece que os enredos minimalistas nem sempre garantem vitória. Escrevi no começo que voltaria a El Invierno del Dibujante justamente por esse livro sublinhar uma fraqueza na escrita do artista: a redundância. Caso a estrutura momento-a-momento falhe, a trama dará voltas em si mesma, como visto aqui. Esse trabalho reconta a tentativa de cinco gigantes do cartum espanhol dos anos 1950 (Carlos Conti, Guillermo Cifré, Josep Escobar, Eugenio Giner e José Peñarroya) de se libertarem do jugo das editoras para publicarem uma revista independente. O roteiro abre com o grupo retornando à empresa de onde tinha saído, pois o projeto autoral naufragara. A partir daí, a história vai e volta no tempo, buscando esclarecer o ocorrido.

Pela importância histórica da situação, falta peso ao que é retratado: as intrigas entre os diversos interessados se limita a diálogos e parte dos fatos relevantes não são mostrados, apenas as consequências. Isso não seria problema se o aspecto não linear trouxesse informações novas sob diferentes perspectivas. Não é o caso. Volta-se de forma contínua ao mesmo ponto da trama, como se não houvesse mais detalhes a serem compartilhados. Faltou ainda explorar as contradições da ditadura franquista de então – uma ótima cena toca na superfície do assunto, e só. Recomendo este texto do Ciro Marcondes, da Raio Laser, para outro olhar sobre a HQ.

E mesmo quando erra, Paco Roca consegue se manter reconhecível ao leitor. Para um artista visual, isso conta muito. Afinal, poucos conseguem transformar o efêmero, o tédio, os tempos mortos da vida, em uma linguagem pessoal. No aguardo de mais quadrinhos dele no Brasil.

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