Um dos projetos recentes mais interessantes do gibi nacional é a coluna “Entre Quadros”, mantida pela quadrinista Gabriela Güllich dentro do ótimo Mina de HQ, site da jornalista Gabriela Borges. A ideia funciona de forma simples e eficaz, e surpreende não ter sido usada com frequência anteriormente: quadrinizar entrevistas com grandes autoras brasileiras e estrangeiras. As HQs surgidas a partir dessas conversas fogem da rigidez e formalidade que se poderia esperar de um bate-papo entre duas pessoas pela internet, e aí está a graça.

E a verdade é que o chamado JHQ (jornalismo em quadrinhos) está em alta por aqui. Güllich ganhou o HQMIX ano passado com São Francisco, obra que narra histórias de quem vive ao redor do famoso rio. Cecília Marins contou o dia de dia da prostituição no parque mais antigo de São Paulo em Parque das Luzes. E a lista segue, com outros criadores adaptando a vida real a essa mídia, como Alexandre de Maio e Pablito Aguiar.

A seguir, Güllich explica os detalhes do processo criativo de sua coluna.


Fazer a “Entre Quadros” tem sido um grande processo de experimentação em vários aspectos: formato, material, narrativo. E toda essa experimentação só é possível porque a Gabi Borges me deu muita liberdade de criação desde o começo.

Ano passado, eu estava com vontade de voltar a fazer algo com JHQ, e minha grande paixão são reportagens longas – mas por enquanto isso é inviável. Ao mesmo tempo, sempre gostei de entrevistas pingue-pongue (esse formato de sequência pergunta-resposta), e esse é um tipo de leitura que eu não imaginava em HQs, justamente por achar que ficaria repetitivo desenhar só cabeças conversando. Com os vários eventos de nosso setor acontecendo online, aliados à minha curiosidade por saber o processo criativo de artistas que acompanho, pensei então que seria interessante estudar o formato pingue-pongue em versão gibi.

A opção de restringir os convites apenas a mulheres e pessoas não-binárias veio em parte porque já havia um tempo que eu queria colaborar com a Mina de HQ, e em parte por uma inquietação pessoal também. Mesmo tendo uma presença igual em eventos, palestras, editoras etc., acabamos formando uma mídia que não divulga tanto outros nomes e um público que acaba não procurando esses nomes: aquele velho “ah, mas eu nunca li mulher escrevendo insira aqui qualquer estilo de gibi no qual com certeza existe alguma artista produzindo, só não foi bem divulgada ainda”. E, quando leio entrevistas com autoras que admiro, é quase certo encontrar a pergunta “como é ser mulher nos quadrinhos?”, sem uma abordagem mais profunda do trabalho delas.

Como leitora e autora, essa falta de interesse na produção de mulheres/não-binárias me incomoda bastante. Pensando nisso, joguei a ideia da coluna para a Gabi, que topou na hora, e comecei a fazer a lista de convidadas. A princípio, a coluna seria quinzenal (foi assim nos dois primeiros meses), mas acabou ficando impossível produzir tanto em tão pouco tempo, então a transformamos num projeto mensal.

Entrevista com Powerpaola
Entrevista com Laerte

A primeira entrevista foi com a colombiana Powerpaola, e essa foi a única feita por e-mail, porque ela teve um problema de conexão (começa com a gente trocando mensagem ao invés de estar em uma videochamada). Todas as outras foram pelo Zoom, plataforma que eu recomendo bastante, inclusive porque ela baixa os arquivos de vídeo e de áudio separados, bem mais fácil para transcrever.

Na transcrição, uso ou o transcriber_bot do Telegram, ou o Descript. Vou decupando o roteiro enquanto reviso o texto junto com o áudio (porque esses bots tendem a pregar peça em algumas palavras). Aí, faço a tradução, reviso de novo e monto o storyboard assistindo ao vídeo. Prefiro fazer a entrevista por chamada porque consigo capturar mais o visual: trejeitos das entrevistadas, ambientação, entonação das respostas. Tudo isso é muito importante para a dinamicidade e pra cortar esse esquema de “cabeças falantes”.

Quando acontece alguma intervenção externa, adoro incluir no quadrinho. É o caso das conversas invadidas por felinos, como as de Micheline Hess e Laerte. Também teve a moto estourando cano na minha rua, no meio da conversa com Emil Ferris. Acho legal incluir esses imprevistos, pois ajudam na imersão, né? É como se a pessoa que tá lendo estivesse ali, ao vivo, na hora em que o gato pulou ou a moto passou.

Além de ser ótimo poder trabalhar mais com lápis (minhas HQs geralmente são feitas só com nanquim) e um formato de JHQ mais curtinho, tem sido fantástico aproveitar a oportunidade de conversar com minhas autoras favoritas, e de conhecer tantas outras. Procurar produções em outros países, ter contato com obras diversas e saber como os processos de cada pessoa funcionam me ajudam muito a inovar o meu próprio repertório. Quando citam algum livro ou filme que ainda não conheço, vou atrás para expandir as minhas próprias referências. No fim das contas, a produção das colegas de área me faz ter vontade de também produzir cada vez mais.

Entrevista com Emil Ferris

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