A publicação no Brasil de Grama, da sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim, pela editora Pipoca & Nanquim, joga luz sobre as HQs asiáticas não japonesas. De cabeça, lembro que saíram por aqui O Menino de Kampung (do malaio Lat), Melodia Infernal (do chinês Lu Ming) e A Arte de Charlie Chan Hock Chye (do malaio-singapurense Sonny Liew). Deve ter mais (e tem, como você pode ver a seguir), mas o grosso de gibis do continente lançado aqui é nipônico.

Para aproveitar a edição nacional de Grama, obra indicada a três categorias na edição deste ano do prêmio Eisner, convidei a quadrinista Ing Lee para mostrar um panorama da produção encontrada na Ásia nos últimos tempos. Boa leitura.

 


Quadrinhos leste-asiáticos e da diáspora que você precisa conhecer (e que fogem do nipo-centrismo)

Por Ing Lee

Recentemente, tenho constatado uma maior receptividade à literatura sul-coreana, o que deduzo ser um dos vários desdobramentos da hallyu (também conhecida como a “onda coreana”, com o sucesso estrondoso do k-pop e k-drama em escala mundial). Alguns títulos como A Vegetariana (Todavia), O Bom Filho (Todavia) e Herdeiras do Mar (Cia. das Letras e Tag Livros) vêm angariando bons feedbacks de leitores e conquistando o público brasileiro. E imagino que, considerando esse andar da carruagem, a tendência é de os quadrinhos desse país também despertarem o interesse de nosso mercado editorial.

Como descendente da diáspora coreana, sendo filha de pai norte-coreano, confesso ter ficado emocionada com o anúncio do manhwa (termo para designar o quadrinho feito na Coreia do Sul) Grama, de Keum Suk Gendry-Kim. A temática das “mulheres de conforto” é algo que me diz muito, por se tratar de uma ferida ainda aberta deixada pela colonização japonesa.

Capa da edição nacional de Grama

Cerca de duzentas a quatrocentas mil mulheres, não somente coreanas, mas também de origem chinesa e filipina, foram escravizadas sexualmente pelas tropas imperiais do Japão por mais de dez anos (1932-1945). Há sobreviventes que até os dias de hoje lutam pela reparação histórica do governo nipônico, o qual se recusa a reconhecer plenamente o fato, tentando sempre encobrir com revisionismos nacionalistas que deslegitimam e invisibilizam essas vozes. Sabemos que um povo sem memória é um povo fadado a cometer os mesmos erros – como já é possível observar em movimentos ultranacionalistas e xenófobos cada vez mais crescentes no Japão. Grama surge, então, da urgência dessa pauta que não deve ser esquecida.

Quando se fala de quadrinhos asiáticos, a primeira coisa que vem à mente para muitos, certamente, são os mangás. Eu mesma, em minha formação artística e cultural, tenho muitas referências deles (como Inio Asano e Taiyo Matsumoto). O sucesso global das HQs japonesas é, de fato, incontestável. Contudo, temos de levar em conta que a Ásia é o maior continente do mundo em território e representa mais da metade da população global. Portanto, a produção local não se limita somente ao leste-asiático, ou mesmo ao Japão.

Tendo isso em vista, é preciso ampliar nosso repertório, a fim de não somente desconstruir estereótipos e generalizações simplistas, mas conquistar uma perspectiva mais sensível e rica. Assim, estabeleço o recorte do leste-asiático e de sua diáspora em minha fala, indicando a você quadrinhos que fogem desse nipocentrismo.

  • Obras disponíveis em português

O Melhor que Podíamos Fazer, de Thi Bui (Nemo)
omelhor

Sob forma de relatos autobiográficos, a autora aborda a história de sua família, imigrantes vietnamitas que foram para os EUA na década de 1970, por causa da Guerra do Vietnã. Para além da questão de serem refugiados, Bui se aprofunda nas memórias e na relação com os pais, tocando o coração dos leitores a partir das entrelinhas contidas em sua experiência, fruto dessa diáspora e dos percalços das lutas externas e internas de seu núcleo familiar. A trajetória e realidade de muitos imigrantes é justamente essa: fazemos o que é possível, com as melhores ferramentas à disposição naquele momento. A quadrinista executa isso de maneira sensível e madura, compreendendo as nuances delicadas e complexas de sua própria história. Obra ganhadora de dois prêmios (UCLA’s Common Book e American Book Award) e finalista do Eisner 2018.

Uma Vida Chinesa, de Li Kunwu e P. Ôtié (WMF Martins Fontes)
umavida

Um relato autobiográfico de Li Kunwu e sua família. A HQ se divide em três volumes, que transitam por diversas fases da história chinesa – desde o nascimento do autor nos anos 1950, junto da criação da República Popular da China, até os dias atuais. O país teve um crescimento socioeconômico colossal que a geração de Kunwu pôde acompanhar com seus próprios olhos, numa época em que os períodos históricos se tornaram breves e criaram abismos geracionais entre os nascidos nas décadas subsequentes. Tendo em vista que em nosso currículo educacional não temos acesso à história fora do eixo euro-estadunidense, Uma Vida Chinesa é um vislumbre das experiências pessoais de Kunwu e um trabalho didático riquíssimo, pois somos levados a uma maior compreensão de como a China se tornou o que é hoje em dia.

Onde (por enquanto), de Paty Baik (independente)
onde

Numa abordagem mais experimental, Paty Baik foge de enquadramentos convencionais, onde os espaços em branco constroem as cenas, numa mescla de páginas de desenhos em grafite, fotografias e pinturas coloridas em guache e pastel oleoso. Embora sua narrativa, que alterna entre a língua portuguesa e a coreana (numa escrita casual e híbrida, considerando mais a fonética e o alfabeto coreano), possa ser interpretada como uma barreira por leitores sem conhecimento do segundo idioma, ela incorpora a manifestação de um fluxo caótico de pensamentos da protagonista (uma pessoa não binária), transbordando uma imensidão de sentimentos e símbolos universais contidos em seus dizeres e não-dizeres. Uma tradução da ânsia de querer fugir, sem saber bem por onde, por enquanto. A autora, coreana-brasileira, atualmente está desenvolvendo uma webcomic em dupla com Gustavo Nascimento, intitulada Que Nunca Acaba, e postada tanto na plataforma Tapas como no Instagram de ambos. O projeto possui uma campanha de colaboração contínua em andamento.

Annarasumanara, de Ha Il-Kwon
annara

Webtoon (manhwa publicado em mídias digitais) sobre a saga da jovem Yoon Ah-ee. Ela descobre um circo abandonado, habitado somente por um estranho mágico, que a confronta com uma pergunta: “Você acredita em mágica?”. Com abordagem psicológica, é uma obra que traz consigo uma série de questionamentos sobre o caminho que escolhemos trilhar em nossas vidas. Tenho uma experiência bem íntima com Annarasumanara, pois além de ter sido o primeiro manhwa com o qual tive contato, eu o li quando estava ainda em dúvida sobre o que seguir na época do vestibular. É uma ótima pedida para aqueles que ainda se encontram perdidos em relação a seus sonhos e convicções. É possível encontrá-lo facilmente traduzido para leitura online, como aqui.

Hamoni, de Monge Han (independente)
hamoni

Asiático-brasileiro e neto de refugiados da Guerra da Coreia por parte materna (francesa e alemã na porção paterna), Monge Han aborda ancestralidade, memória e racialidade em seus trabalhos. Em Hamoni, encara o luto pela morte da avó materna com ternura e apreço por sua trajetória enquanto imigrante – ela atravessou o oceano com seu marido em busca de uma vida melhor para seus descendentes. O autor publicou ainda, também de forma independente, Criança Amarela, na qual compartilha sua trajetória e desafios enfrentados por habitar um corpo racializado, lido com estranhamento por nossa sociedade, escancarando a discriminação antiamarela em nosso País.

 

  • Obras inéditas no Brasil

Moms, de Yeong-shin Ma (Drawn & Quarterly)
moms

Aborda a história de três ajummas (termo usado para definir mulheres coreanas de meia-idade) que estão de saco cheio de seus respectivos maridos, lares e trabalhos. As personagens Lee Soyeon, Myeong-ok e Yeonjeong se envolvem em aventuras sexuais e barulhentas, uma experiência refrescante que foge de todas as normas e expectativas impostas pela sociedade local sobre como mães nessa faixa etária deveriam se portar.

Nanjing: The Burning City, de Ethan Young (Dark Horse)
nanjing

A história se passa em Nanquim, cidade chinesa ocupada pelo Império Japonês na Segunda Guerra Sino-Japonesa, durante o episódio histórico conhecido como o Massacre de Nanquim, que teve como desfecho a morte de trezentas mil pessoas, a sua maioria civis (incluindo mulheres, crianças e idosos brutalmente assassinados). Young traz a narrativa de dois personagens, soldados chineses que se encontram no meio dessa tragédia e resistem bravamente à violência do inimigo. A obra ganhou o prêmio Reuben Award em 2016.

Bad Friends, de Ancco (Drawn & Quarterly)
badfriends

Ambientado na Coreia do Sul dos anos 1990, conta a história de duas adolescentes tidas como “rebeldes” pelos moldes tradicionais locais, inseridas em diversos ciclos de violência perpetuados por seus pais, professores e colegas de classe. O único respiro de suas vidas se dá justamente pela relação entre elas, fazendo a amizade feminina surgir como uma ferramenta poderosa diante de um cotidiano opressivo e melancólico.

Umma’s Table, de Yeon-sik Hong (Drawn & Quarterly)
ummas

Madang é artista e pai de primeira viagem, e muda-se com sua esposa e filho para o interior. Porém, seus pais se encontram em Seul, onde sua mãe está adoecida e seu pai enfrenta problemas com alcoolismo. Surge para ele, então, o desafio de tentar conciliar ser um bom filho, bom pai e bom marido. Como unir essas três gerações diante de uma morte inevitável? A resposta está no kimchi (conserva de acelga apimentada coreana) de sua mãe, a comida de conforto de sua família.

Material complementar
Mulheres de conforto:
– Videorreportagem Life As A ‘Comfort Woman’ Story of Kim Bok-Dong | STAY CURIOUS #9 (em inglês);
– Curta animado Herstory (em inglês).

Ultranacionalismo japonês:
– Artigo Anti-Korean sentiment thriving in Japan (em inglês);
– Videorreportagem Japan’s rising right-wing nationalism (em inglês).

Curta a página de O Quadro e o Risco no Facebook e siga o blog no Instagram!

2 comentários sobre ““Grama” e mais quadrinhos leste-asiáticos contemporâneos: indicações de Ing Lee

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s