Por trás de todo o brilho pop, da afetação dos diálogos e do desenho que parece de plástico, The Wicked + The Divine esconde uma visão de mundo bastante pessimista – no que se refere à habilidade de as pessoas darem sentido a suas existências, à capacidade de superarem o passado. Mas, como quase toda obra cheia de sangue (muito sangue), suor e lágrimas, existe esperança no fim da jornada. O primeiro arco de histórias aliena o leitor, pois dá a entender que a série é apenas fantasia, frases de efeito e ação explosiva. Também é isso, só que, pra perceber sua profundidade, tem de olhar com mais atenção – pro quadrinho em si e pra seu contexto.

Estilo = substância
O roteirista Kieron Gillen, o desenhista Jamie McKelvie e o colorista Matt Wilson colaboravam juntos desde o fim dos anos 2000. No começo de 2013, se juntaram ao letrista Clayton Cowles pra um gibi com a nova formação dos Jovens Vingadores, publicado durante a criativa renovação editorial da Marvel chamada Marvel Now. Surgiu ali um paradigma: ao lado de Gavião Arqueiro, de Matt Fraction e David Aja, a revista ditou o que seria feito no gênero dos super-heróis no restante da década, nas temáticas (mais intimistas e cheias de representatividade) e principalmente na parte estética (com páginas fugindo de um padrão de diagramação e brincando com elementos do design gráfico).

À época, já havia uma verdadeira debandada dos principais artistas de DC e Marvel para a Image Comics, todos em busca de independência editorial – e, importante citar, dos suculentos 100% dos direitos autorais dos trabalhos criados dentro dessa empresa. Os quatro artistas citados ali em cima também participam desse êxodo, lançando The Wicked + The Divine em junho de 2014, no auge da consolidação da Image como a principal casa do quadrinho mainstream autoral norte-americano.

Ao longos dos cinco anos em que foi publicada, a HQ soube capturar o espírito de nossa época, marcada pela tecnologia e conectividade em tempo integral. Faz uma dupla interessante com Sabrina, de Nick Drnaso, apesar de não se parecerem em nada. Ainda assim, não deve envelhecer rápido, já que pretende debater assuntos maiores que o período no qual está inserida.

Quando pombos choram
“A cada noventa anos, doze deuses encarnam em humanos. Eles são amados. São odiados. Em dois anos, estão mortos”. A sinopse oficial de WicDiv (pra facilitar a escrita) parece aquela surrada história de “pessoas transformadas em divindades”. Porém, conta com uma mudança fundamental nessa antiga fórmula: os escolhidos sempre são jovens e, uma vez transformados, passam a ter apenas um par de anos pra viver. Tornam-se celebridades de nível global, fazem shows para multidões, têm seu rosto estampado em camisetas, bótons e pôsteres, ganham milhões de seguidores em redes sociais.

É uma metáfora bastante óbvia sobre as consequências dos “quinze minutos de fama”, expressão cunhada por Andy Warhol. E, pelas primeiras edições, essa é a impressão geral que se tem da obra. Gillen decide não entrar em detalhes sobre o significado do tal ritual que faz adolescentes/jovens adultos virarem versões de carne e osso de entidades como Perséfone, Minerva ou Baal. Prefere seguir uma conspiração do tipo “quem quer matar os deuses?”.

Sendo sincero, a leitura desse início pode não empolgar, mesmo tendo coisas ótimas ali. Os diálogos, por exemplo, são bastante singulares, pois inserem certo coloquialismo num texto de aspirações mais literárias. Além disso, todos os personagens têm voz própria e a interação entre eles se desenrola sem forçação de barra.

Porém, leva tempo pra se acostumar com alguns elementos: a aparência rígida, sem movimento, do traço do McKelvie (apesar de ele ser mestre em expressões faciais); os vários nomes e alter egos mencionados; a velocidade da trama, em tese muito rápida pra um início de série de longa duração (em um momento, a protagonista Laura Wilson é simples fã dos deuses e, no seguinte, está no círculo interno do panteão, inclusive ajudando um deles a escapar da cadeia); e o jeito espertinho, sou-mais-inteligente-que-você, de boa parte dos personagens se comportar (embora faça sentido, pois adolescentes/jovens adultos do século 21).

A soma disso faz o começo de WicDiv ser… estranho? Como disse, é preciso tempo pra entender que a obra atua em dois níveis – o do roteiro e o do subtexto. Muitas das indagações e reflexões estão subentendidas em ações dos personagens, em cenas e falas aparentemente banais. Esses são os motivos de o roteiro parecer frio, estéril, quando, na verdade, muita coisa já está em andamento sem o leitor perceber.

Como diamantes no céu
A partir do segundo arco, os objetivos ficam mais claros: existe um mistério gigantesco por trás de tudo, enquanto mistérios menores vão sendo acumulados. Quem é Ananke, a idosa aparentemente imortal responsável por escolher quem vira deus, tomando pra si a função de tutora do grupo ao longo dos tempos? Por que transformar gente em seres onipotentes? E, afinal, quem quer ver essa galera morta?

Gillen planejou a história a longuíssimo prazo. São vários os diálogos de capítulos iniciais que mudam de sentido quando revelações são feitas a partir da metade final. Todo personagem engana, tergiversa e esconde (de outros personagens e também dos leitores) esqueletos no armário. A sensação de impotência, de saber pouco ou quase nada sobre a realidade dos fatos, faz parte da HQ – e, quando vem um plot twist, você é surpreendido de verdade.

Saga consegue ser campeã nesse quesito (assim como a maioria dos trabalhos do Brian K. Vaughan), mas tô pra ver gibi mais imprevisível que WicDiv. Tudo pode acontecer: qualquer um pode morrer, a melhor pessoa pode virar um monstro sem coração, aquilo que parecia uma coisa na verdade sempre será outra. Ainda assim, cada uma dessas viradas está lá porque precisa estar. Passam longe do sensacionalismo, do choque pelo choque, até porque, sem o carisma dos personagens, os acontecimentos não fariam sentido.

Laura Wilson é uma baita protagonista. Atrevida e supérflua, precisa amadurecer a fórceps e carregar um fardo de culpa (autoimposta) por conta do destino de sua família. Sua jornada parece um romance de formação deturpado pelo glamour. Quando finalmente vê uma possibilidade de desenvolvimento pessoal, já perdeu muita coisa. Justamente por isso, se torna melhor.

Ananke também se mostra profunda, uma mulher que acaba moldando a trajetória da humanidade por estar presa a uma rivalidade entre irmãs. Assim como Woden, uma das pessoas mais moralmente detestáveis que já tive o desprazer de conhecer – embora fascinante por esse motivo; Cassandra, a bússola ética da turma; Baal, um jovem em guerra contra a própria natureza; e ainda Lúcifer, Sakhmet, Tara, Morrigan, Baphomet, Dionísio, Minerva (quem te viu, quem te vê, Minerva…), Amaterasu, Inanna.

Porque o diabo está tentando me destruir
Para as referências ficarem próximas do mundo real, McKelvie usa em alguns desses personagens a estética, quando não o rosto, de ídolos da música. De David Bowie a Prince, passando por Daft Punk, Rihanna, Kanye West e Florence Welch, todos os homenageados são responsáveis por renovarem a cultura jovem em seus respectivos períodos. Esse expediente distrai um pouco, admito, mas aproximar o gibi do culto à personalidade existente no cenário musical reforça as principais mensagens da série.

Pois a obra tem um quê de “O Apanhador no Campo de Centeio no terceiro milênio”. Se a história de Holden Caulfield, o protagonista do clássico de J. D. Salinger, valida o “ser jovem” numa época na qual essa fase da vida era negligenciada, WicDiv faz o mesmo pelos indivíduos nascidos a partir dos anos 1990. Millennials e membros da geração Z são tão complexos como os de qualquer outra geração; a diferença está na maior cobrança para obterem sucesso. Encontram-se na encruzilhada moderna entre Internet, empregos sub-remunerados, hedonismo digital e depressão.

Não é à toa a música ser tão importante pro quadrinho. Desde os tempos de Salinger, com o surgimento do rock ‘n roll, ela se firmou como aspecto cultural que oferece identidade e pertencimento à juventude. E se mantém assim ainda hoje – mesmo com a máquina da propaganda por trás dos artistas contemporâneos. A contagem 1-2-3-4, usada pelos deuses em vários momentos, inclusive antes de demonstrar poderes, remete ao início de uma canção, à figura de Johnny Ramone antes de tocar seus três acordes.

Outra ligação está na questão do astro que morre cedo, como inúmeros ao longo das décadas (Jones, Hendrix, Joplin, Morrison, Cobain, Winehouse etc.). Afinal, a presença da morte ronda os protagonistas: não deve ser fácil ter o último dia na Terra marcado indelevelmente na agenda. Ao contrário do que Roger Daltrey canta em My Generation (“I hope I die before I get old“, “espero morrer antes de ficar velho”), ninguém na HQ quer passar dessa para melhor tendo uma jornada imensa pela frente. Por mais niilistas que alguns pareçam, só querem superar medos, traumas, o peso das expectativas de pais e avós, pra viverem outro dia.

Fazendo amor com seu ego
Voltando à arte, McKelvie/Wilson são a dupla ideal pra ilustrar essa história. O desenhista nasceu pra fazer gente bonita com corpo escultural. É um traço tão limpo que se torna etéreo, uma espécie de modernização extrema do estilo pop art de Michael Allred. Já o colorista preenche as páginas com tons pra lá de saturados, como se o mundo fosse permanentemente iluminado por globos de luz. E o letreiramento de Cowles também tem função narrativa: ele cria balões e tipografias específicas para a maioria das deidades. Isso os deixa ainda mais únicos e reconhecíveis.

A soma disso faz a composição de certas páginas ferver de criatividade. Claro, várias se encaixam num padrão de diagramação convencional, pois existem inúmeras sequências calmas, de pessoas sentadas conversando. Porém, o encantamento visual, quando vem, vem forte. Alguns exemplos abaixo (e acima também).

Dionísio é apresentado ao leitor durante uma balada. Ao longo da festa, os quadros acompanham a batida de uma música, no compasso 4/4
A edição #14 talvez seja a mais impressionante do ponto de vista semiótico. O narrador é Woden, o DJ com roupa de Guy-Manuel de Homem-Christo. Ele recontextualiza fatos anteriores, mostrando-os sob outro ponto de vista e revelando a verdade por trás daquilo que parecia definitivo. Pra alcançar esse objetivo também na arte, McKelvie reutiliza quadros de edições prévias, “remixando” seu conteúdo como um bom disc jockey
Em certo momento, os deuses se dividem após não chegar a um consenso sobre determinado tema. De forma a mostrar o que cada um faz simultaneamente, páginas duplas se repetem, e cada grupo é identificado pela cor das bordas dos quadros. McKelvie faz no papel a montagem paralela encontrada no cinema
Esta sequência mistura linhas temporais: em primeiro plano e em cores, está o presente, enquanto atrás, em tons frios, fica o passado, o flashback, como se fosse uma lembrança envelhecida

Não pare de dançar
Baita conquista dos criadores fazer o leitor refletir sobre assuntos profundos numa obra cuja ponto central é a trama, e não os temas abordados por ela. Gillen cria uma mitologia que perpassa milênios, sem perder o foco: mesmo as edições cheias de firula, como um especial quase todo em prosa ou um que parece uma revista de fofoca, colocam o enredo pra andar.

Não sou especialista em mitos, mas até as tradicionais características dos deuses citados (gregos, romanos, asiáticos, do Oriente Médio) fazem parte da psiquê dos protagonistas – o blog do roteirista tá cheio de anotações e comentários a respeito dos bastidores do processo de escrita, vale conferir. É realmente um trabalho pensado em detalhes.

The Wicked + The Divine termina, fácil, como uma das melhores séries recentes dos quadrinhos. Apesar de mencionar problemas do mundo real (o capítulo sobre a toxicidade da internet arrepia pela crueza e veracidade), tem coragem suficiente pra jamais se envergonhar do que é: uma fábula em formato de gibi.

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