A pandemia do novo coronavírus está cobrando um preço altíssimo dos quadrinhos mundiais. Artistas gigantes, influentes por gerações, morreram em decorrência da Covid-19. Eventos relevantes do calendário internacional foram cancelados ou adiados indefinidamente. Até o formato de vendas nos EUA (o chamado “mercado direto”) entrou em xeque, após o calote anunciado pela distribuidora Diamond Comics, que tem como clientes quase todas as editoras de HQs na América do Norte e Reino Unido.

Os efeitos no Brasil também são grandes para todos os envolvidos nesse segmento: artistas, editoras, lojistas. Comic shops (Ugra, Itiban, Monstra, Comix, Comic Boom etc.) estão fechadas, operando apenas online. Uma visita rápida ao Catarse mostra que pouquíssimos projetos de financiamento de gibis estão em andamento – era para a plataforma estar fervendo, ainda mais por conta da proximidade com o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ)… isso caso o FIQ não tivesse sido adiado. A principal feira do setor no País seria realizada no final de maio e, no momento, não tem data para ocorrer. Sem eventos, artistas veem talvez sua principal fonte de renda diminuir drasticamente – claro, falando em relação à venda de livros.

Portanto, agora é uma boa hora para pensar e debater mais a respeito de formas para financiar o elo mais sensível dessa cadeia: os criadores.

Cenários
Uma consequência imediata, acredito, será o aumento de campanhas em plataformas de apoio recorrente, como o Apoia.se ou Patreon (Catarse também oferece um modalidade semelhante). Ali, o leitor paga mensalmente um valor aos autores. Como recompensa, recebe conteúdo exclusivo, acesso antecipado a trabalhos ou possibilidade de acompanhar bastidores do processo de criação. Pra entender como isso funciona, peguei depoimentos de Helô D’Angelo, já há cerca de um ano com um projeto desse tipo, e Wagner Willian, que acabou de criar um.

 

Helô D’Angelo

Planejamento
Estou divulgando bastante os trabalhos que faço por encomenda. Sejam retratos ou quadrinhos também. E tentando contatar empresas e futuros parceiros. Estou nessa pegada de captar trabalhos.

Por que um Apoia.se
Eu criei a campanha pensando que todos os artistas independentes poderiam ter uma retribuição ainda maior dos leitores que quisessem contribuir. Nada mais justo, já que alguns publicam todos os dias, de graça. Na atual situação, isso é ainda mais importante, principalmente porque perdemos muitos trabalhos. Eu mesma perdi cursos presenciais que iria ministrar. Acho que é importante não só pra ganhar dinheiro, mas acalmar a ansiedade de estar em casa, parada. Eu acabo trabalhando em coisas da campanha e me distraindo.

O que será dos artistas após esse período de incertezas
Tenho uma visão otimista sobre o que está rolando. Estamos criando uma rede de apoio muito forte – que já existia antes, mas agora fica mais evidente. Os artistas vão continuar como sempre continuaram.

 

Wagner Willian

Planejamento
Agora, será investir mais em meu trabalho de pintura (incluindo a venda de originais), publicidade, talvez em workshops, bater nas produtoras de cinema e vender a preço de banana os direitos autorais de meus livros. Seria lindo cogitar o mercado estrangeiro com essa disparada galopante do dólar, mas a gringolândia também está ferrada, logo…

Por que um Apoia.se
Sempre postei uma pequena parte de meu processo criativo nas redes sociais. Continuarei fazendo isso, pois é um jeito de aproximar os leitores, criar vínculos. Mas sempre foi uma pequena parte porque não tenho tempo de postar tudo. Um canal monetizado abre a possibilidade para que eu pare o que estou fazendo e poste todo o resto, invista tempo ali. Qual a importância de saber como um autor prepara seus textos, cria suas páginas? Sempre achei excelente a didática de aprender com os outros e entender o que faz de um acerto um mérito. A intenção por trás de minha campanha é essa: expor e destrinchar os processos e esperar que haja um diálogo ali com quem produz e com quem absorve quadrinhos, para que todos possam ganhar com isso. Além dos bastidores, também vou disponibilizar o arquivo de algumas obras para leitura digital.

O que será dos artistas após esse período de incertezas
No geral, minha previsão será de um ano morto. Aquela avalanche de lançamentos na CCXP, acho que cairá drasticamente. É bem provável que a maioria das feiras de quadrinhos estarão suspensas. A venda no tête-a-tête é onde a editora/artista tem seu maior lucro. Por isso a aposta no virtual, no refúgio “esterilizado”. Ainda bem que os Correios voltaram atrás com a medida de cancelar os envios módicos. Caso contrário, a opção de sobreviver despachando material colapsaria não apenas os autores, mas as comic shops também.

 

Ponto de encontro
Por falar em lojas, vale analisar como estão atuando. A Itiban Comic Shop existe em Curitiba há trinta anos, completados em outubro de 2019 – e vive, hoje, um dos momentos mais complicados de sua história. “A gente sempre foi analógico”, afirma a fundadora Mitie Taketani. “Nosso site surgiu há pouco tempo e está parado, às moscas. Nunca tivemos grana pra se atualizar nessa questão, pagar designer, programador”. Para ela, mesmo oferecendo descontos, é difícil competir com os preços de gigantes como Amazon – e isso não apenas em época de pandemia.

O foco, então, é continuar de alguma forma. “A gente trabalha em família. Dispensamos um funcionário assim que tomamos consciência da gravidade da situação. Estamos pagando o salário, mas ele permanece em casa”. As entregas estão sendo feitas por marido e filha porta a porta – como se não bastasse o caos global, Mitie está com a perna quebrada. “Eles usam máscaras, passam álcool em tudo. Percebemos que são amigos e clientes antigos que querem nos apoiar comprando algum produto”, explica. “Não sei por quanto tempo a gente vai aguentar isso. A estratégia é estar vivo pra levar o negócio adiante e reabrir um dia.”

Em São Paulo, a Ugra Press trilhou o caminho oposto: nasceu como e-commerce em 2013 e virou loja física dois anos depois. Mesmo assim, as vendas presenciais são fundamentais para a saúde financeira. “O site não nos segura. Por melhor que ele evolua nas próximas semanas, dificilmente taparia o buraco deixado por não abrimos”, comenta Douglas Utescher, um dos donos do negócio, ao lado da esposa Daniela Cantuária.

“Logo no começo da quarentena, tivemos alguns dias com movimentação acima da média no site, tanto no volume de pedidos como no ticket médio de compra. Depois disso, foi voltando ao ritmo normal. Agora, está pouca coisa acima da média, nada digno de nota”, revela. No momento, a Ugra investe no aprimoramento de seu espaço virtual, cadastrando produtos novos para ampliar o catálogo e oferecer mais itens aos clientes – tudo para encarar uma fase cheia de incertezas, como alerta Utescher: “A quarentena em São Paulo foi prorrogada por quinze dias e, muito provavelmente, depois disso, deve aumentar mais. É um período bem bagunçado pela frente”.

Mecenato moderno
No Brasil, quadrinistas são contemplados por poucos programas oficiais de financiamento artístico. São promovidos via edital por governos estaduais (como o ProAC, da Secretaria de Cultura de São Paulo) ou instituições privadas (como o Rumos, do Itaú Cultural). No entanto, não são iniciativas que envolvem um subsídio recorrente: o artista recebe verba para produzir uma única obra. Se o dinheiro acabar antes, acabou.

Em outros países, existem formas de mecenato mais abrangentes, que incluem, por exemplo, pagamento de aluguéis de estúdios para o trabalho e despesas médicas – e estão disponíveis para criadores das mais variadas áreas da arte. É viável algo assim por aqui? Quem bancaria a conta? Quais as contrapartidas? Aliás, são necessárias contrapartidas?

Não tenho nenhuma resposta pra oferecer, embora ela possa estar na nova empreitada de Annie Koyama, a fundadora da Koyama Press. Essa editora é uma das que mais aposta em novos talentos do quadrinho norte-americano: já publicou Michael DeForge, Eleanor Davis, Connor Willumsen, GG e Mickey Zacchilli, entre outros jovens brilhantes. A história de como Annie entrou nesse negócio daria uma HQ inacreditável e vale ser conhecida.

A questão é que ela vai parar de publicar livros ano que vem pra se dedicar exclusivamente ao financiamento de artistas. Para entender esse projeto e suas motivações, conversei com ela por e-mail. Annie não revela muitos detalhes da iniciativa, pois a pandemia já afeta seus planos de médio prazo. Por isso, o papo acabou não sendo muito longo – mas lança luz sobre o assunto. Quem tem dinheiro no Brasil pra bancar algo assim poderia aprender.

 


 

Annie, o anúncio de que a Koyama Press iria fechar suas operações foi feito em 2018. Por que revelar isso três anos antes do fato virar realidade?

Quando você publica livros, tem trabalho a fazer no mínimo por uns dois anos à frente. E eu já tinha a lista de quadrinhos a serem lançados em 2020 naquela época.

Por que parar de publicar?

Principalmente, por motivos pessoais. É hora de eu voltar a viver depois de quase quinze anos trabalhando 24 horas por dia, sete dias por semana. Tem outras coisas que quero fazer agora, coisas relacionadas ao suporte a artistas em todos os estágios de suas carreiras.

É possível uma editora independente sobreviver em um mercado dominado por grandes conglomerados?

É, sim, mas é especialmente complexo se você publica artistas emergentes, pelo fato de ser muito mais difícil conseguir divulgação desses livros por parte da imprensa – ao menos até a editora ter uma boa reputação. Também se gasta mais dinheiro para promover trabalhos de autores desconhecidos. Essas são duas das razões que fazem administrar uma editora pequena, de quadrinhos alternativos, um negócio complicado de ser sustentado.

Quão importante é um programa governamental de suporte ao mercado editorial, como o que existe aí no Canadá?

Pra gente aqui, é inestimável ser capaz de solicitar ajuda pra tocar uma editora de pequeno porte como a nossa. Depois de conseguir a verba pra publicar, você pode requerer outros tipos de auxílios, como os para viagens e traduções. Claro que não conseguirá toda vez, já que existem várias empresas competindo por esses fundos.

Em janeiro, você revelou o seu próximo projeto de financiamento a artistas, a Koyama Press Provides. Mas a realidade é que você já vem fazendo isso nos bastidores por bastante tempo. Por que tornar isso algo oficial?

Eu achei que era a hora perfeita pra fazer disso algo concreto, pois é essencialmente parte do que farei após fechar a editora na metade de 2021. Não serão apenas microfinanciamentos, mas é algo que providenciará ajuda a artistas em geral, não só quadrinistas.

Você acha que um artista poderia se sentir intimidado por seu mecenas/patrocinador? Como essa situação pode ser evitada?

Eu não tenho muita certeza por qual motivo alguém poderia se sentir intimidado, a não ser que existisse condições atreladas ao financiamento. Muita gente está acostumada a esperar algo em troca quando doa dinheiro, mas esse modo de pensar precisa mudar. Se nada foi prometido, o artista nem deveria se preocupar com nisso.

Você acha que o mecenato deveria ser mais presente no mercado de quadrinhos – e na arte em geral?

Sim, claro. A questão é que as pessoas tendem a doar para grandes instituições porque não conhecem pequenas iniciativas de financiamento de artistas. É muito difícil viver de sua arte, principalmente em uma cidade grande onde os custos de vida são insanamente maiores que em vários outros lugares. A maioria dos criadores precisa de um trabalho comum ou pegar bastante freelance pra conseguir cobrir suas despesas. E isso não deixa muito tempo ou energia para fazerem o que gostam de verdade.

 

 

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