A menina tímida recebe o menino cheio de pompa para um chá da tarde. O encontro, regado a bolo e chocolate quente, talvez concretize um flerte iniciado bem antes daquele dia cheio de expectativa. Entre amenidades e elogios mútuos, um beijo está prestes a acontecer… quando as paredes começam a derreter. Um líquido denso toma conta das salas e corredores, com velocidade assombrosa. Lutando para se salvar, a menina consegue escapar no último instante – e se vê, pequenina, saindo por um orifício do cadáver de uma garota, caído no chão da floresta.

A sequência de abertura de Aurora nas Sombras se parece com a primeira meia hora de Psicose, clássico filmado por Alfred Hitchcock. Ambas enganam o espectador com temas que só parecem relevantes, mas têm pouca ou nenhuma relação com a verdadeira história a ser contada. No filme, a fuga da secretária que rouba o chefe para fugir com o amante se transforma num passeio pela mente doentia de um assassino. Na HQ, um namorico vira reflexão sobre múltiplas questões existenciais.

Essa cena representa um microcosmo do gibi: personagens fofos, que parecem saídos de fábulas infantis, subvertidos e jogados em situações extremas. A pureza do desenho dos Kerascoët (nome artístico do casal de ilustradores franceses Marie Pommepuy e Sébastien Cosset) contrasta com a degradação moral existente na trama de Fabien Vehlmann (escrita em parceria com Pommepuy).

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Capa da edição nacional de Aurora nas Sombras, lançamento da Darkside Books

 

O patinho feio
A jovem do início (ela assume o nome Aurora em determinado momento) não foi a única a se safar. Dezenas de pessoinhas fugiram do corpo morto, e agora precisam lidar com os perigos da natureza. Essa é a grande trama: a sobrevivência após uma grande ruptura.

À primeira vista, o roteiro se parece com O Senhor das Moscas, romance de William Golding. No livro, crianças sobreviventes de um desastre aéreo, isoladas em uma ilha, criam uma nova forma de sociedade – que rapidamente acaba falindo. Golding não usa meios-termos para dizer que a humanidade tem a maldade, a inveja e o ódio em sua essência. Para ele, a escuridão de nossa alma destrói tudo que toca.

O quadrinho aborda de leve essa questão, pois quer mesmo é abrir-se a múltiplos significados. Quem são esses seres? O que representam? A grande graça do quadrinho está na brincadeira de o leitor mergulhar nos simbolismos, criar teorias, olhar além daquilo impresso na página.

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O pequeno príncipe
Cada personagem parece representar um humor, um estado de espírito. Aurora encarna a típica heroína de coração bondoso; Plim, a dissimulada fiel escudeira de quem quer que esteja no comando; Hector, o mocinho covarde; Timothy, a reclusa sem amigos. Isso sem falar nos inúmeros outros, sem nome, embora também fundamentais para a construção psicológica das relações entre eles. Seriam todos, então, as múltiplas personalidades da garota morta na floresta, liberados para o mundo exterior depois de sua morte? Ou representações do que a jovem poderia ter sido, caso ainda vivesse?

Um embate recorrente do enredo é civilização versus barbárie, talvez a discussão central da obra. Jogos de poder travados entre os pequeninos minam a força coletiva em prol de temporárias conquistas individuais. Alguns se esquecem da dificuldade dos atos mais banais, como busca por comida, construção de abrigos, exploração dos arredores. As ameaças gigantescas (vide o tamanho minúsculo de cada um deles) estão por toda parte. Formigas podem ser predadores mortais, idem para vespas, sapos ou pássaros. Sem a mínima organização social, só lhes resta sucumbir frente à ferocidade da natureza.

Conclusão que nos leva a mais uma análise: o roteiro também funciona como alegoria para as mudanças nos sistemas políticos-econômicos ocorridos na história (o fim do feudalismo medieval e a chegada do capitalismo burguês, a destruição da autocracia russa para a criação da União Soviética etc.). Dá pra enxergar ali um paralelo com o caos das diferentes instituições – igreja, burguesia, monarcas, servos ou qualquer outra – tentando se encaixar a um novo modelo social.

Quatro teorias em três parágrafos – e deve haver várias outras por aí. Cada leitura, ou releitura, desse trabalho tem a capacidade de desvendar aspectos diferentes.

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Chapeuzinho vermelho
Tudo isso está inserido em uma narrativa simples. Com formato episódico, a HQ mostra as situações como se fossem esquetes em sequência. Não existe uma história maior: o fio condutor é mesmo a condição bizarra na qual os protagonistas se encontram. Condição de absoluto horror.

Voltamos ao paradoxo roteiro-arte: as aquarelas dos Kerascoët, com suas cores vibrantes e traços finos, delicados, ilustram cadáveres, deformações, assassinatos, canibalismo, traições, atos mesquinhos e outras coisas terríveis. As cenas causam desconforto, pois inesperadamente cruéis e desumanas – lembrança de como a violência e a morte podem ser inexplicáveis na vida real. 

Experiência estranhíssima e recompensadora, Aurora nas Sombras é um gibizaço. Difícil o leitor ficar indiferente a essa selvageria tão bela.

PS: uma pena que o nome da HQ em português não tenha seguido o sentido do título francês (Jolies Ténèbres) e inglês (Beautiful Darkness), que significa “bela escuridão” – algo muito mais próximo dos temas debatidos pelos autores.

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