No tênis, Grand Slam tem duas definições. A primeira, e mais conhecida pelo público, identifica os principais torneios do esporte: Aberto da Austrália, Roland Garros (França), Wimbledon (Inglaterra) e Aberto dos Estados Unidos. A segunda, mais obscura, significa vencer esses quatro campeonatos num mesmo ano.

Acredite, isso não é nada fácil. Na história mais que centenária desse esporte, sem levar em conta o jogo em duplas, dá pra contar em uma mão o número de atletas que alcançaram o feito (apenas três mulheres e dois homens). E o australiano Rod Laver ainda conseguiu duas vezes, algo exponencialmente mais improvável.

Pois, em 2018, Marcelo D’Salete fez o “Grand Slam” das premiações de quadrinhos. Faturou as quatro mais importantes que um artista brasileiro poderia ganhar: Grampo, Eisner, HQMIX e Jabuti. O último foi entregue em 8 de novembro, bem próximo da celebração do Dia da Consciência Negra, que aconteceu ontem. Marcelo é negro, criado em São Mateus, um dos bairros mais violentos da periferia da capital paulista. Sua elevação ao posto de mais premiado quadrinista do Brasil não poderia ser mais simbólico.

Oh what a lovely precious dream
D’Salete cria sua obra em torno de temas vividos na pele: o racismo institucional do País, sempre presente no (in)consciente coletivo nacional. Da escravidão africana em nossas terras, período de mais de três séculos pouco estudado e debatido, vieram os dois livros ganhadores daqueles troféus: Cumbe e Angola Janga.

O antropólogo Darcy Ribeiro, em seu clássico O Povo Brasileiro, diz que “nenhum povo que passasse por isso [a escravidão] com sua rotina de vida, através de séculos, sairia dela sem ficar marcado indelevelmente”. Suas observações são precisas. Após a abolição em 1888, não existiu um projeto concreto de integração social. Pelo contrário, fortaleceu-se o sistema latifundiário e oligárquico branco vigente desde sempre.

A população negra ficou largada à própria sorte, sem empregos, sem terras, indo encontrar moradia em regiões precárias, longe dos centros urbanos – no Rio de Janeiro, então, praticamente foram expulsos para os morros da cidade. O escritor Lima Barreto comentou sobre o período: “Nunca houve anos no Brasil em que os pretos (…) fossem mais postos à margem”. Nesse momento, surge a imagem deturpada do negro preguiçoso, insolente, malandro (imagem disseminada em outros países também, principalmente os Estados Unidos). Somando esses fatores ao incentivo para a imigração europeia, na virada do século 20, estava criada uma política velada para o embranquecimento da população.

Mas D’Salete está aí para romper com os padrões históricos de representação da raça. Ainda segundo Darcy, “a luta mais árdua do negro africano e de seus descendentes brasileiros foi – e ainda é – a conquista de um lugar e de um papel de participante legítimo na sociedade nacional”. O quadrinista é alguém capaz de sinalizar esse novo papel, condizente com a evolução do pensamento e da busca por igualdade social.

Em ambas as HQs premiadas, os escravos enfim se tornam humanos. Deixam de ser ilustrações em livros de história, ou clichês higienistas trabalhados ao longo dos tempos na cultura popular, para se transformarem em pessoas. Assim, finalmente, podem ser reconhecidos como seres com vontades e ambições próprias – as mesmas de qualquer leitor.

 

Fotos da exposição Marcelo D’Salete – A História Negra em Quadrinhos, em cartaz no Museu Afro Brasil, em São Paulo. Clique nas imagens para vê-las em tamanho maior

 

Don’t catch you slippin’ up
Os quadrinhos com tramas urbanas e contemporâneas do autor (Noite Luz e Encruzilhada) dialogam com esse conceito, e trazem outra verdade: a jornada negra segue estigmatizada até hoje.

Darcy mais uma vez comenta o tema: “A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista. Ela é que incandesce, ainda hoje, em tanta autoridade brasileira predisposta a torturar, seviciar e machucar os pobres que lhes caem às mãos.”

Nas histórias curtas desses dois livros, a tensão de ser negro na sociedade atual é palpável. Quase como se fossem versões do filme Corra! sem os elementos do gênero horror que marcam essa obra – embora o horror da vida real seja muito mais terrível que o da ficção. O simples fato de ter a pele escura faz os personagens não saberem se chegarão em casa vivos à noite ou se serão encarados como iguais em relação a brancos. Mesmo assim, existe em cada um deles uma vontade maior de (sobre)viver dignamente.

Viveremos, a partir de 2019, uma época de retorno ao ataque da figura do negro enquanto elemento social. Iniciativas para reparar minimamente a opressão histórica, como cotas em ensino superior, são atacadas, consideradas “privilégios”. Sobre os privilégios da classe política, majoritariamente branca e velha, nenhum pio. Ofensas aos banqueiros bilionários que pesam sete arrobas? Jamais, devem ser protegidos, pois são os “motores da nação”. Essa gente esquece o ensinamento máximo do sociólogo Gilberto Freyre: a cultural brasileira é, essencialmente, africana e miscigenada.

Por isso tudo, Marcelo D’Salete se apresenta como peça fundamental não só para o gibi nacional, mas para a cultura brasileira como um todo. Seu Grand Slam de prêmios irá reverberar na produção negra de quadrinhos (um panorama interessante sobre essa cena está nesta matéria da Isabelle Félix para o Omelete). Que ele continue jogando com classe, usando seus backhands poderosos.

 

 

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